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COXAnautas

Confabolando

Responsabilidade x violência

16/07/2010 13h20 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: SXC.hu/Bob Smith


A bola só rolará para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil daqui quatro anos. Mas o clima do mundial mais famoso dos esportes já está no ar de todas as cidades apontadas como sede pela CBF e pela FIFA. As páginas esportivas dividem atenção com a editoria política, muitas vezes se misturando, tornando a viabilização da Copa do Mundo em Curitiba uma das pautas desta eleição.

Tudo bem, tudo normal, se não fosse um pequeno detalhe. A viabilidade financeira da Arena da Baixada depende de investimento público. A humilde opinião, mesmo que as vezes distorcida, deste escriba é simples e clara. Contra o investimento público em qualquer estádio no Brasil. Não apenas no Paraná, não apenas em Curitiba, não apenas no do A. Paranaense. Se há um esporte que não necessita de dinheiro público, é o futebol. Os atletas olímpicos que o digam.

Mas seria tolice qualquer pessoa dizer o contrário de que por merecimento, quem deveria sediar a Copa do Mundo em Curitiba, não é a Arena da Baixada. O time capitaneado pelo então presidente do A. Paranaense, Mário Celso Petraglia, pensou nisso muito antes do que qualquer clube. Contra os méritos, não há sofisma que possa ser colocado.

Mas diante dos direitos, sempre vêm os deveres. Coisa simples: aprendemos ainda antes de entrar na escola. O que não se pode é imputar o direito para um ente e o dever para toda a sociedade, inclusive os que não gostam de futebol. Isso vale para a Arena da Baixada, uma possível Arena ParaTiba, Arena do Operário, Arena do Triste ou Arena do Corinthians. Os fatos não mudam e não podem mudar de acordo com o sujeito da frase.

 / Foto: Gibran Mendes



Diante disso tudo um dos aspectos mais preocupantes é que a rivalidade burra, como gostam de dizer, pode acabar se tornando um catalisador de violência nos estádios. Como? Simples. Hoje, procura-se fazer uma divisão, inclusive de certos homens públicos, de quem está a favor do Paraná com a Copa do Mundo em Curitiba e quem está contra, seja por inveja, como gostam tanto de pregar, ou simplesmente por uma questão de princípio, como faço questão de esclarecer.

Não respeitar a opinião alheia, forçar situações em que a rivalidade que deveria ser sadia se torna uma disputa de interesses, inclusive econômicos, além de vender uma ilusão de que Copa do Mundo de 2014 é a salvação para os problemas econômicos, sociais e inclusive esportivos que o Estado enfrenta, além de ser ridículo é perigoso.

Percebo que a discussão, cada vez mais acalorada, já atingiu a violência verbal e que dentro de pouco tempo poderá se transformar em violência física que será facilmente percebida em clássicos estaduais ou até mesmo em eventuais e esporádicos encontros de torcida pelos bairros e no centro da capital.

 / Foto: Coxanautas



Parar de dividir a população, ou os torcedores, entre grupos a favor do Paraná e contra o Estado, ou ainda dos “progressistas” e dos “invejosos” e até mesmo dos “aproveitadores” e dos “probos” torna-se uma obrigação individual de torcedores de todos os times. Caso contrário podemos voltar a presenciar cenas de violência, como em um passado recente, e aí de nada adiantará chorar o leite derramado.

É preciso que fique clara a responsabilidade individual de cada formador de opinião, do Juca Kfouri, colunista da Folha de São Paulo ao blogueiro independente. Depois não adiantará escrever textos pedindo paz e criticando a violência nos estádios, quando mesmo que indiretamente, se incita a violência tornando rivais esportivos em inimigos figadais.




Foi ao ar uma entrevista feita com este modesto escriba no excelente blog Meu Time de Botão, do Ricardo Drago. Para quem quiser conferir, basta clicar aqui.




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Coração, cérebro e fígado

22/06/2010 13h03 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: fifa.com



Começou a última rodada da primeira fase da Copa do Mundo. Os dois principais personagens desta Copa até o momento têm semelhanças e diferenças históricas e recentes. Podem também se resumir em órgãos, que segundo estudos recentes e também na própria cultura popular, representam emoções.

De um lado um verdadeiro camisa 10. Fora de série, Maradona foi o maior jogador de futebol de todos os tempos. Inegavelmente El Pibe merece este título. Pelé, um degrau acima, figura acima dos mortais. Mas voltando ao personagem argentino, ele brilhou na Copa de 1986 e fez um torneio memorável. Gol de placa, de mão e como fosse preciso. Com os braços acima da cabeça levantou a taça com a propriedade de quem carregou uma seleção nas costas.

 / Foto: http://blogdoabdul.wordpress.com/



O outro personagem, de uma Copa por enquanto dos latinos, também é sul-americano e meio-campista. Levantou a Copa do Mundo oito anos após Maradona, com méritos diferentes. Destacou-se com liderança e uma vontade furiosa de vencer. De símbolo do fracasso, Dunga passou a ser a cara da seriedade e da raça. Imagem, inclusive, alimentada pela crônica esportiva em sua maioria. Haja visto os comentários quando contratado por Ricardo Teixeira após a farra de 2006. No intervalo entre uma taça e outra para os sul-americanos se enfrentaram, em 1990, quando Maradona levou a melhor e deixou Canniggia na cara de Taffarel, desclassificando o Brasil.

De lados opostos nas chaves e longes de um confronto que só é possível em uma final de proporções épicas, Dunga e Maradona voltam a estar próximos com certas semelhanças. Desta vez do lado de fora, comandam suas seleções. Têm relações complicadas com a imprensa local e procuraram (e parecem ter conseguido) grupos fechados e com objetivos bem definidos. Ambos têm dois sentimentos, que simbolizados em órgãos, parecem sair pelos olhos.

Dunga o cérebro. É excelente estrategista. O seu retrospecto na seleção comprova isso. Futebol organizado e burocrático, salvo as jogadas individuais dos craques brasileiros que resolvem. Dunga sabe disso e organiza a defesa e deixa para o talento, de forma organizada, decidir. Parece fomentar conflitos externos à seleção para que desta forma unir ainda mais o grupo, aumentando a grana por vitórias. O espírito lutador e sistemático do Sul do País. Mas tem se perdido no outro órgão.

 / Foto: http://depoisdolance.files.wordpress.com/



Maradona tem o coração. Ele é venal e impulsivo. Ama, odeia, grita, gargalha e chora. A tragédia, o tango, o drama e o exagero argentino. Ele é a perfeita tradução do espírito dos hermanos, habilidade, raça, deboche com certo tom de arrogância, muito amor e as emoções superlativas. Desta forma uniu jogadores, torcida, imprensa, enfim, todo um País. Uma troca de corações em busca de um objetivo em comum, levantar a Copa do Mundo 24 anos depois com o mesmo personagem que tinha tudo para ser música de Gardel. Mas Maradona tem usado pouco o outro órgão que se destaca.

A relação com o fígado é uma das principais semelhanças entre Maradona e Dunga. Ambos têm raiva, a usam, abusam e ao longo de sua história mostraram isso, mesmo que em momentos e formas diferentes.Mas agora, Maradona tem sido um líder mais coração que fígado. Este parece ser o tom da seleção argentina. Já Dunga parecer usar bem mais o fígado que cérebro, até achando que trata-se do coração. Mas há que se tomar cuidado para não misturar as emoções e confundir um órgão com o outro.




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Memórias coloridas

16/06/2010 12h20 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: sxc.hu/Tijmen Van Dobbenburgh


Quando se fala em memória, muitas vezes vem a nossa cabeça imagens em preto e branco. Algo normal. Fomos acostumados a ter como lembranças imagens neste formato para demonstrar antiguidade. Convenções sociais, nada mais que isso.

Pois bem, lembro de que em 1994, quando eu tinha 12 anos, tive um sonho curioso que guardo na memória até hoje. Em um flash me vi no meio de um estádio de futebol lotado. Mas tudo era em preto e branco, menos uma coisa, ou melhor, 11 coisas. Ao meu lado nesse estádio estavam jogadores como Raí, Romário e Taffarel. Eu estava jogando pela seleção. As imagens do meu sonho eram lindas, tudo em preto e branco, a exceção da camisa da seleção canarinho.

Dezesseis anos depois minhas memórias foram coloridas e grandes ídolos também estavam ao meu lado, mas extremamente vivos. Tive a felicidade, na última segunda-feira (14), de ir até o jantar promovido pelo Gilson de Paula em homenagem a dois grandes ídolos da galera Coxa, o Tostão e o Cléber.

Dois jogadores que têm ligação direta com meu amor pelo Coritiba. Fazem parte de forma intrísica deste história. Explico: Nasci e passei minha infância e adolescência em Pato Branco, terra colonizada em grande parte por gaúchos. Meu pai, Coxa-Branca de coração, era uma das exceções na cidade que era muito mais azul e vermelha do que Alviverde e rubro-negra. Existiam torcedores do Coritiba, A. Paranaense e P. Clube, claro. Mas, eram as exceções.

 / Foto:



Um dos fatores que dificultava a ampliação do número de torcedores, na época, era a ausência de transmissões televisivas de nossos times para o interior. Então aprendi a gostar de futebol e a torcer pelo Coxa na voz de Lombardi Júnior. Acompanhei aquela maravilhosa campanha do paranaense de 1989, com aquele time fantástico, com oito anos de idade, sentado em uma mesa na qual estavam meu pai e o seu super motorádio. Fantástico. Imaginava o Tostão, Chicão, Kazu, Osvaldo e companhia no que se ilustrava pela voz de Lombardi. Assim aprendi a amar o Coritiba.

 / Foto: arquivo pessoal



Lembro até hoje do meu pai voltando de viagem com uma faixa do Coxa campeão. Sim, ele saiu de Pato Branco e foi até Curitiba ver para ver o time do Tostão ser campeão. Acompanhava o noticiário e tenho até hoje uma fita VHS gravada com os gols daquele campeonato e ao final com o saudoso hino do Vinícius Coelho: “Vencer é o seu lema, trabalhar é tradição. Salve, salve, Coritiba, eterno campeão”. Maravilhoso.



Dez anos depois, Cléber passaria a figurar neste cenário. A decisão desta vez era contra o P. Clube e o Coxa estava na fila há 10 anos, o último título tinha sido justamente com Tostão. A mesma mesa, o mesmo rádio e o mesmo pai angustiado. Cada gol do Coxa e do Cléber era uma explosão na Visconde de Nácar, lá em Pato Branco. Até que no final da partida Darci fez o gol e deu o título ao Coxa, mas quem marcou aquele campeonato sem dúvida foi Cléber.

Nesta segunda-feira um filme passou pela minha cabeça. Todas estas memórias foram revividas, em cores vivas e com eles, Tostão e Cléber, ali ao lado. O Coritiba, os títulos, as alegrias, meu pai, Pato Branco, aquela mesa e aquele motorádio. Tudo misturado e ali, juntos, ao mesmo tempo. Coisas que só a nossa memória pode nos trazer.

 / Foto: Gibran Mendes



Por isso, deixo aqui meus parabéns em público ao Gilson de Paula. No peito e na raça organizou esta homenagem. Fez, com certeza, com que muitos filmes coloridos passassem na cabeça de todas as pessoas presentes, inclusive para Tostão e Cléber. Meus parabéns também a estes dois jogadores, cada um com seu estilo diferente, mas que marcaram época nas suas passagens pelo Coritiba. Que o Gilson consiga manter esta tradição de manter viva a história Alviverde que o saudoso Faisal fazia tão bem. Que muitas memórias coloridas possam passar em forma de filme em Alta Definição em nossas cabeças.




Fim de um ciclo

Na onda das memórias, aproveito para revelar aos fieis amigos e leitores que desde a última quarta-feira deixei a editoria do COXAnautas. Mas continuarei aqui, com o blog, que espero agora, possa ter mais carinho e atenção de minha parte.




Ciclo sem fim

Nesta mesma segunda-feira (14) completei oito anos ao lado do grande amor de minha vida, Letania. Importei esta gaúcha de Porto Alegre, que de tão parceira que é, dividiu comigo um dos meus maiores amores, o Coritiba.

Colorada de nascença, aprendeu a amar o Coritiba ao me acompanhar nos jogos no Couto Pereira. Não divide, muito pelo contrário, soma comigo o amor pelo Coxa e está sempre ao meu lado, seja na hora do rebaixamento, seja na comemoração do título. E isso vale para tudo.

A Letania meus sinceros e eternos votos de companheirismo, parceria e amor.

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Leitura das estrelas

06/06/2010 23h33 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: wwwb.click21.mypage.com.br


Pedro era um menino bonito. Tinha sete anos de idade e uma rotina normal. Escola, algum curso e casa. Adorava aula de ciências e educação física. Como costumavam dizer, tinha a cabeça "avoada". Vivia no ar. Portanto, nada mais normal que adorar astronomia. Gostava de saber dos planetas, luas, espaço, universo e as estrelas. Quando pequeno perguntava à sua mãe se um dia poderia tocar as estrelas. Dona Muriel sorria e balançava a cabeça em sinal positivo antes de Pedrinho cair no sono. 

Gostava tanto de estrelas que até aprendeu, com seu pai, um poema do Olavo Bilac que falava sobre elas. 

- E eu vos direi: "Amai para entendê-las! 
Pois só quem ama pode ter ouvido 
Capaz de ouvir e de entender estrelas".
 

Sempre repetia com orgulho o poema. Aprendeu a ler e a gostar de ler. Dividia suas horas com o computador, os livros e o futebol. Ah, o futebol. Era onde gastava todas as suas energias, seja dentro de campo ou na arquibancada. Duas vezes por semana escolinha de futebol. Um dia era reservado para ir até o Couto Pereira com seu pai e outro para acompanharem o Coxa pela televisão. Coloque sua família e amigos neste cenário e quadro de uma vida feliz estava pintado em traços leves e coloridos.

Mas um borrão cinza deslizou como um pincel sobre a vida de Pedro, manchando a sua visão e a sua aquarela que começava a ser construída. Um oftalmologista foi convocado para fazer uma avaliação e a conclusão chegou da pior maneira possível aos olhos de todos. Pedro tinha uma doença incurável e em pouco tempo estaria cego. Talvez lhe sobrasse alguma visão, mas pouca coisa, algo como distinguir luzes distantes. Foi um choque para todos. 

 / Foto: COXAnautas



Passados os primeiros momentos de muita angústia, aos poucos ele foi amadurecendo sua relação com aquilo tudo. Pedro era dono de uma coragem invejável e que causava surpresa a todos que viviam em sua volta. Amplamente apoiado por seus pais, começou os preparativos para o que estaria por vir. A perda seria, como de fato foi, vagarosa como uma bola que caminha para o gol com um zagueiro em sua cola. 

Pedro, desde cedo, adorava analogias. Ninguém entendia como um menino com aquela capacidade toda estava tendo um destino tão difícil. Dona Muriel respondia que era para Pedro se tornar ainda mais sensível e forte. Palavra de mãe não tem erro. 

 / Foto: http://ceipntrasradelapiedad.files.wordpress.com



Uma de suas primeiras tarefas, enquanto ainda tinha visão, era aprender Braille. A estrutura basicamente é simples. Um retângulo, com as linhas mais longas na vertical, na qual há espaço para seis pontos. A combinação deles é que dá razão a uma letra e em sequência formam palavras. Pedro, em sua primeira aula, olhou para sua mãe e perguntou se aqueles pontos não lhe pareciam estrelas. Sua mãe piscou, com olhos marejados, como quem lhe dava toda razão do mundo.

- Então agora eu não só as tocarei, como vou aprender a ler estrelas!

Dois meses depois passou a ler em Braille com fluência, velocidade muito superior ao convencial. A sua sensibilidade para o toque nos pontilhados que o papel tem surpreendeu. Aprendeu o alfabeto e depois desenvolveu a sensibilidade como poucos previam, isso ainda antes de perder a visão. Fez alguns outros exercícios e preparou-se para o inevitável. A noite gostava de ficar olhando estrelas, enquanto ainda podia ver. Brincava de ler as estrelas, ora em Braille, ora no céu. Sua disposição especial formavam letras e códigos que Pedro repartia com seu pai e sua mãe. 

Procurava não alterar sua rotina. Manteve todas as suas atividades, principalmente o futebol. Se jogar exigiria um treino diferenciado, com bolas específicas para a prática do esporte, o caminho até o Alto da Glória continuaria igual. As imagens dos campos, da torcida e das jogadas já estavam em sua cabeça. Tudo isso se desenharia sozinho com a ajuda do locutor. 

Durante o processo de "borragem" da visão de Pedrinho ele não deixou de ir ao Alto da Glória. Viu o Coxa lutar contra a queda para a segunda divisão. Era sua última batalha daquela forma. Acompanhava tudo. As notícias, os comentários e as conversas que tomavam conta da cidade. Viu o Coxa ganhar no canto da galera contra o Palmeiras, a vitória suada contra o Atlético Mineiro e o gol no último minuto de Marcos Aurélio no AtleTiba. 

 / Foto:



Os olhos, com a visão já deficiente, choraram de alegria quando Pereira fez o gol de empate no Couto contra o Fluminense. Mas esses mesmos olhos choraram com a queda do Coritiba para a segunda divisão e com as tristes de cenas de violência ao final da partida. Pedrinho foi embora aos prantos e nos braços do pai que não sabia o que fazer para o consolar. 

Naquela noite, enquanto os pais viam TV, Pedrinho deitado no sofá ficou olhando pela janela, nas estrelas, leu alguma coisa e deu uma pequena risada. Seus pais perguntaram o que havia acontecido, já que estava triste desde a saída do estádio e ele responde que nada e ficou ali, lendo suas estrelas.

Depois daquela noite o processo avançou rapidamente e ele, dois meses depois, já tinha chegado no limiar da visão máxima que teria. Algumas poucas luzes. Hoje Pedrinho já lê estrelas na ponta dos dedos.

Na sua visão lhe sobraram alguns poucos vultos, sombras e luzes. Mas seu olhar continua vivo com uma luz que sai de dentro dos seus olhos. Com oito anos mantém viva a alegria de viver e continua lendo livros como sempre. Planeja a vida e quer ser empresário. Deseja ter uma gráfica em Braille, levar literatura, sonhos e imaginação para quem não pode visualizar com os olhos as imagens que a mente cria. 

 / Foto: Andre Raittz



Também continua acompanhando o Coritiba. Brinca que quando acontecer um novo Green Hell, com o Couto lotado, será tanta luz que conseguirá ver o Alviverde novamente.

Foi duas vezes para Joinville com seu pai. Acompanha o noticiário na televisão, no rádio e também na internet com auxílio de um software que lê o que está na tela do computador. Ouviu, com sua família, a partida do Coxa contra o Santo André. Ao final do jogo deu apenas uma risada, de canto de boca. Seu pai perguntou curioso qual era o motivo e Pedrinho respondeu:

- Lembra quando eu sorri no sofá depois da partida contra o Fluminense e vocês me perguntaram o que aconteceu? Eu li nas estrelas que o Coxa ia subir e ele vai subir.

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A história de Bachorro

18/05/2010 21h00 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: http://www.eviteacidentes.com/



Bachorro era peão. Trabalhava em um canteiro de obras ali no Bigorrilho. Carregava cimento nas costas como poucos. Que força tinha o Bachorro, pensavam os seus colegas de profissão. O mestre de obras admirava a capacidade de Bachorro em levar materiais de construção para cima e para baixo. Por este motivo tinha seu respeito.

Bachorro ganhou uma foto, vestindo seu capacete azul, na viga principal da obra. “Funcionário do mês” estampava o cartaz que fez o jovem operário sentir-se o rei do pedaço. As mulheres que passavam em torno da obra nem sequer tinham ouvidos para os assobios e gracejos dos seus colegas de obra. Fixavam os olhos naquele homem que não parava de trabalhar e segundo relatos era boa pinta.

Bachorro teve um aumento em pouco tempo de trabalho. “Merecido”, garantiu o mestre de obras Valdir ao engenheiro que cuidava da edificação. Pão duro, pensou em questionar, mas decidiu não discutir. Dê-se então o aumento ao tal Bachorro, afirmou Carlos, o engenheiro.

 / Foto: http://mondomoda.files.wordpress.com/



Enquanto os dois conversavam, Bachorro viu na entrada do canteiro de obras um carro parado. Era conversível, ele nem sabia distinguir a marca. Dentro dele uma mulher linda retocava a maquiagem mirando um espelho que retirara da bolsa. Ao passar o batom e fazer o clássico “biquinho” Bachorro sentiu que aquela vida, que até então lhe era feliz, não servia mais.

Pouco importava se era amigo de todos na obra. Pouco importava se os vizinhos dos arredores, com os quais sempre conversava, lhe tinham carinho e o maior apreço. A gratidão de seu chefe que lutara por um aumento já não lhe parecia tão fantástica. A amizade dos colegas de obra, então, ficou para trás.

Bachorro queria ser engenheiro. Mas não sabia direito como. Conversou com alguns amigos de boteco, com um cunhado e um conhecido que tinha feito curso técnico de edificação e pegou umas dicas. Foi ter também com um conhecido, que lhe indicaram, rival do mestre de obras Valdir, que tanto carinho lhe tinha. Este rival, de nome César Marfoz, disse que teria solução ideal para o seu caso.

 / Foto: http://imprensacotia.files.wordpress.com



Disse que pelo perfil apresentado Bachorro tinha o necessario para ser um engenheiro, um grande construtor. Em pouco tempo poderia ter sua própria empreiteira e quem sabe investir no mercado internacional da construção civil. Parceria com grandes empresas como Gerdau então seriam o próximo passo. Os olhos de Bachorro piscaram tão forte que o cegaram. Todas as outras conquistas ficaram para trás.

Bachorro então largou a obra pela metade e abandonou o seu pessoal. A gratidão, virtude que lhe parecia latente, ficou perdida no meio do cimento e da argamassa de seu antigo trabalho. Partiu sem dar maiores explicações. O pessoal até que suspeitou, afinal, o seu jeito falante e alegre foi substituído por um silêncio preocupante nas últimas semanas.

 / Foto: http://rafabarbosa.com



Logo em seguida Bachorro se apresentou ao seu novo emprego. Marfoz conseguiu a ele um trabalho fantástico, em sua opinião. Começaria a comandar uma obra pela primeira vez. Era a construção de um sobrado, ali no Uberaba. Bachorro tinha a sua disposição uma equipe de duas pessoas, pouco pelo prazo e tamanho da construção.

Não era o engenheiro, como lhe foi prometido. Era uma mistura de mestre de obras com peão. O salário, embora um pouco maior, não lhe trouxe o conforto que imaginava. A canseira e a responsabilidade, sem o carinho do antigo trabalho, foram lhe abatendo. Marfoz sumiu. Aparecia de vez em quando para lhe cobrar mais agilidade e as palavras de incentivo foram trocadas por cobranças ásperas.

Cansado, sem dinheiro e infeliz Bachorro já não gostava tanto de trabalho. Lembrava com saudades do tempo em que tinha carinho, conforto, dinheiro e proteção. Esta falta de felicidade fez com que fosse um mau chefe, embora, tivesse apenas duas pessoas para comandar. Bachorro deixou de ser aquele grande profissional, afinal, atropelou uma etapa em sua carreira. Deu um passo maior que a perna.

Certo dia, seus dois funcionários, insatisfeitos com atrasos no salários por parte e as ordens duras que vinham de cima para baixo, faltaram. Bachorro sentiu todo o peso do mundo em suas costas. Precisava continuar a obra sozinho naquele dia. Até que na pressa, infeliz e por um erro de cálculo que deveria ter sido feito por um engenheiro, além da ausência da concentração necessária caiu da laje do sobrado que construía, que também veio abaixo.

Seu corpo despencou como a felicidade e o carinho que tinha deixado para trás. A cabeça partiu no tijolo onde há pouco estava sentado, lembrando do olhar paternal do seu Valdir. O pescoço dobrou-se como sua vaidade não foi capaz enquanto o corpo cansado chocou-se contra o chão e descansou para sempre.

No enterro, ninguém para chorar e lamentar. Bachorro era sozinho. Ou melhor, ficou sozinho. Bachorro deixou para trás tudo o que conseguiu conquistar em busca de uma aventura. Não esperou o tempo certo para dar um passo adiante. Este foi o fim de Bachorro, o peão que quis ser engenheiro antes da hora.




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22 anos depois...

12/05/2010 11h02 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto:



Gabriel ainda era um menino. Pouco conhecia da vida, sequer pensava em planejar seu futuro e queria curtir cada momento.

Certeza tinha apenas uma: futebol era uma das coisas que mais prezava na vida. Franzino, de pouca estatura, era rápido e decisivo nas peladas com os amigos. Depois do par ou ímpar era sempre o primeiro a ser escolhido. “O Gabriel é meu”, dizia o amigo vencedor na disputa anterior ao início do jogo.

Menino humilde, da periferia, tanto cansou a mãe que lavava e secava diariamente sua única camisa verde e branca que acabou ganhando mais uma do tio, metalúrgico em uma fábrica em Araucária.

Gabriel herdou do seu pai, falecido em um acidente de trânsito, o amor pelo Coritiba. Uma coisa terna e agressiva ao mesmo tempo. Difícil descrever. Olhava para aquele time como se o seu pai estivesse ali, dentro do Couto Pereira, jogando entre os onze. Na verdade, para o Gabriel, era isso mesmo. A memória viva do seu pai estava representada por duas cores e onze jogadores em campo. Vencer era necessário para que a memória do seu pai se fortalecesse.

 / Foto: arquivo pessoal



Viu, em 1989, um time de craques comandados por Tostão. Ainda tinha o Osvaldo e o Kazu, que lembrava seu estilo de jogo na pelada. Mas o camisa 10 do time da pelada no Capão Raso tinha Tostão como seu ídolo. Cada vez que marcava um gol saia correndo em velocidade e lançava-se ao ar, imitando Pelé, socando o ar e gritava em um desabafo:

- Toooosssstãaaooo

Depois disso, nunca mais viu um grande time do Coritiba jogar. Teve, sim, grandes momentos de alegria. Acompanhou a chegada do Coxa por duas vezes às semi-final da Copa do Brasil, por algumas vezes sonhou com o título brasileiro e levou alguns campeonatos paranaenses. Mas depois daquela canetada da CBF e seu presidente, o Ricardo Teixeira, não viu mais grandes desfiles de craques e um time jogando como aquele de 1989.

Dois anos antes, em 1987, foi quando perdeu seu pai. Representante comercial, seu Gomes voltava de uma viagem a negócios que fizera para Joinville exatamente no dia 14 de maio daquele ano. Um motorista de caminhão perdeu o controle em uma curva e o carro em que seu Gomes estava foi atingido.

Aquele 14 de maio ficou marcado para sempre em sua vida e a cidade de Joinville também. Aos prantos, no velório do seu pai, sentenciou:

- Eu jamais voltarei a esta cidade.

O pensamento mágico de criança e a necessidade de atribuir a culpa a alguém fez com que este peso recaísse sobre uma cidade tão simpática quanto hospitaleira. Joinville pagou o pato na cabeça de Gabriel sem que, obviamente, representasse qualquer culpa no trágico acidente.

Hoje, com 27 anos, Gabriel é casado e tem uma filha, com cinco anos. Amanda é Coxa desde o nascimento. A primeira roupinha que ganhou foi do Coritiba. O primeiro passeio, ainda quando bebê, foi ao Couto Pereira.

- Seu Gomes ia se orgulhar, pensa o nosso personagem.

Depois de ficar um pouco afastado do Coritiba no início deste ano por todos os problemas que aconteceram com o clube, Gabriel tomou uma decisão. Nesta semana ele vai quebrar uma promessa que já dura vinte e dois anos. Ele deixará Amanda com sua esposa, Mirian, na sexta-feira a noite em casa. O programa semanal de alugar um filme e pedir uma pizza em casa não terá a companhia do pai de família.

 / Foto: Dr. X.



Junto com dois amigos Gabriel vai até Joinville no caminho que tirou a vida de seu pai. Lá, com onze jogadores Alviverdes em campo, verá a imagem sorridente do seu pai em cada um deles. Seu Gomes estará representado por Edson Bastos no gol, por Leandro Donizete no meio campo e Ariel no ataque.

Joinville, que até hoje sempre signficou a morte para Gabriel, poderá se transformar na cidade do renascimento. O ressurgir do Coritiba, clube que ama tanto quanto seu falecido pai. E para Gabriel, ele, seu Gomes onde quer que esteja acompanhará seu filho e o time do coração de uma família Alviverde, transformando a morte em vida.

A simpática cidade catarinense será o Alto da Glória durante dez jogos e também o palco de reencontro de Gabriel com seu Gomes e o Coritiba.




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AtleTiba das janelas

19/04/2010 00h21 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: Letania Kolecza


Dois blocos prediais em um condomínio na Dom Pedro II. Janelas frente a frente. Olhares desconfiados durante a semana. Há um ano dois personagens coadjuvantes travam uma batalha protagonizada pelas duas principais figuras deste texto: as janelas.

Ao todo eram três para cada time. De um lado, o Verde, elas estão localizadas na cozinha, área de serviço e no escritório. Esta era a casa de Roberto, o Coxa-Branca. Do lado de lá também três. Da sala principal e dois quartos, incluindo o de Rafael, o rival.

Morador novo no prédio, o Coxa chegado em 2009 na reta final do Campeonato Paranaense, logo percebeu com o que passaria a conviver. Um coração, de pelúcia, grudado na janela do apartamento em frente com o símbolo do rival.

Poucos dias depois observou uma grande movimentação de torcedores do A. Paranaense. Era dia de jogo e uma bandeira estampava a janela. Era dia de AtleTiba. Ponderado, como sempre, Roberto esperou o resultado do jogo e quando voltou para a nova casa subiu as escadas cantando, observado com olhares reprovadores do vizinho que estava na janela que não mais tinha a bandeira. Ele entãodirigiu-se até a cozinha e colocou o seu estandarte do Coxa. O Verdão venceu a partida por 4x2 e durante alguns dias a flâmula Alviverde se manteve por ali.

 / Foto: Nelson J. Santos



O fato gerou comentários nos moradores do condomínio que falavam sobre o AtleTiba das janelas que estava começando. Receosos, alguns moradores questionavam sobre a possibilidade de confusão entre ambos os moradores. Bobagem. Tanto Roberto quanto Rafael eram extremamente civilizados e cordiais. Entre olhares desconfiados, de um e outro, começaram uma relação de respeito.

Mas uma semana depois a bandeira do rival voltou à janela da sala. Eles foram campeões, com um gosto amargo dos 4x2 sofridos no domingo anterior. Ao Roberto restava esta consolação.

 / Foto: Marcello Schiavon



De lá para cá outros AtleTibas rolaram e os moradores do condomínio já esperavam pelo clássico das janelas. Bandeira verde de um lado, bandeira vermelha do outro. Entre os jogos o tratamento de cordialidade dava a tônica do relacionamento entre os vizinhos rivais, assim como continua sendo.

Mas nesta semana, uma coisa estranha aconteceu. A bandeira de Rafael não foi para a janela e apenas o coração de pelúcia, o mesmo, ainda fazia referência ao seu time. Do lado de Roberto, a mesma ponderação que normalmente o acompanhava.

 / Foto: Valquir Aureliano - Estúdio Recordação



O resultado final é que o condomínio anoiteceu verde. Duas bandeiras e um cachecol ostentam o símbolo do time do Alto da Glória no condomínio de Roberto e do Coxa. Pela primeira vez as três janelas coloridas. Reforço no clássico do condomínio.

Um bom começo de semana para os torcedores do Coritiba e para Roberto, que neste final de semana viu o Coxa ganhar o AtleTiba dentro do campo, nas arquibancadas e por W.O no grande AtleTiba das janelas da Dom Pedro II.

Coritiba campeão paranaense de 2010.

Ps: Um abraço ao Rubens Juglair, amigo do lado vermelho, que lá de Pato Branco trava um sadio e divertido AtleTiba no sudoeste do Estado com meu pai.

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O conto do Couto

12/04/2010 08h30 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: Marcello Schiavon


Por Fabian Ricardo Stevan

Era final de tarde, janeiro de 2010. Terminei meu expediente no escritório um pouco antes do normal e resolvi sair para espairecer um pouco. Entro no carro, e entre pensamentos sobre família, amigos, problemas cotidianos, vou dirigindo meio sem rumo, como se não tivesse um lugar para ir. Por que tudo acontece? Por que essa mistura de ansiedade, tristeza e ao mesmo tempo, uma esperança que renasce? Desnorteado, desligo o radio, para organizar melhor os meus pensamentos. Quando me dou conta, estou no Alto da Glória, próximo à igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Procuro um local para parar o carro, e penso em aproveitar que estou ali para meditar um pouco.

Como em toda quarta feira, há um grande movimento na rua, e no caminho para a igreja, olho o Estádio localizado à sua frente, e os fatos do final de 2009 me vêm à cabeça. Um misto de tristeza, inconformismo, revolta e uma dor no coração sem tamanho me pegam em um sentimento repentino. Mas, ao olhar para o Estádio, noto que há algo diferente nele aquela noite. As luzes do campo estavam acesas. Um senhor saia da igreja, e o perguntei o porquê do estádio estar aberto, já que não havia qualquer jogo aquela noite. O senhor me olhou, me mediu de cima a baixo, fez uma cara de “que louco” e seguiu em frente, sem dizer uma palavra.

Resolvo me dirigir ao campo, circulo o estádio e percebo que a entrada da rua Mauá estava aberta. Estranho. Entro no Estádio, completamente vazio, nenhuma alma viva. Nada que fizesse justificar os portões abertos. Fazia tempo que não entrava no Couto, e aquela visão do “gigante de concreto armado”, como dizia o Lombardi Junior, fez com que batesse uma saudade gostosa da minha infância, o que fez dirigir-me ao segundo anel da Mauá, no centro do campo, no lugar aonde assisti vários jogos com minha família e amigos.

O campo verde, perfeito, gramado irretocável, iluminação ótima. Lembrei-me de vários jogos que tinha visto naquelas circunstancias. Aquele 4x2 contra o Santos, em 2002. Aquela virada sobre o Goiás, em 2001. Aquele 3x0 em cima do Atlético em 95. Contra o Ipatinga, os 4 pênaltis do Anderson Lima, aquele gol no ultimo minuto contra o Palmeiras. O grito da torcida, a vibração que vinha da arquibancada, o drible, a defesa, o lançamento, o cruzamento, o gol, a explosão da torcida em um grito uníssono. O estar junto com minha família, meus amigos, e mesmo aquele torcedor que ficava ao lado que, por 90 minutos, era como um velho amigo de infância comentando os lances do jogo. Atmosfera que poucos conhecem, aproveitam e sabem realmente o que significa.

 / Foto: Lucas Correia



Quando volto dos meus pensamentos, noto que longe, na curva de entrada, um senhor olhava a tudo, com o mesmo olhar contemplativo que eu estava. Ao me olhar, começa a caminhar em minha direção. Era um senhor de terno, com chapéu, bigodinho, baixo. Achei que, como eu, também havia saído da Igreja e notado o campo iluminado e o estádio aberto. Lembrei das lendas do Estádio, que falavam que os fantasmas o habitavam a noite, e que o espírito do Major Antonio Couto Pereira estava por ali. Ri sozinho.

Ao chegar perto, o senhor me diz: “Quem diria... de uma fazenda, conseguimos fazer essa obra fantástica”. Concordei, e lhe perguntei há quanto tempo ele acompanhava o Coxa. Ele me respondeu “Desde antes desse apelido, desde que ainda jogávamos no Prado. Fui um dos responsáveis pela compra do terreno”.

Ah é? Que interessante, qual o seu nome? O Senhor apoiou o Major quando ele queria comprar o estádio?” “Sim”, disse ele. "Eu, sai correndo daquela reunião”. Um arrepio me correu as costas, afinal, quem saiu correndo quando sugeriu comprar o terreno no Alto da Gloria foi o próprio Major Antonio Couto Pereira.

Ignorando o meu susto, ele tornou a falar “Não está compreendendo, não é mesmo meu rapaz? Olhe novamente para o campo”. Ao olhar, uma partida estava ocorrendo. Limpei meus olhos, fixei o olhar novamente, e os jogadores continuavam no campo, com uniformes de diversas épocas, correndo, jogando, disputando cada jogada, brigando quando o lance não dava certo. Mas, como era possível? Não havia ninguém ali até esse momento.

 / Foto: Lucas Correia



Continuou o Major: “Aqui, a noite, essas partidas sempre ocorrem. Um sonho de estádio desses não poderia jamais funcionar apenas uma, duas vezes por semana. Todos os que tem o desejo, o sonho e fizeram em vida por merecer estar aqui, tem entrada livre para entrar em campo a hora que quiser, seja para assistir às melhores partidas que já viram, aquelas que seus pensamentos mais longínquos os levam a ter saudades, seja para entrar em campo, calçar as chuteiras, vestir o glorioso uniforme e jogar com seus companheiros de equipe, com seus ídolos, com seus jogadores favoritos. Mas, dos que não jogaram, só entram em campo quem tem muito crédito com quem manda, ou seja, comigo e com o Chinês”. “O Evangelino esta aqui?”, pergunto. “Claro, aonde mais ele estaria?” Me respondeu. “Nesse momento, ele está tentando algumas contratações, amanhã ele estará assistindo o jogo na tribuna de honra, no seu local de merecimento, ou mesmo aonde ele sempre assistiu, na curva dos fundos, próximo à entrada do vestiário”.

 / Foto: Letania Kolecza



Olho para o campo, e logo começo a reconhecer alguns jogadores. Bequinha com sua classe orientando a zaga, Rei pegando tudo no gol, Ivo Cavalo de Pau procurava ganhar as jogadas da forma que fosse, Moxabomba, Juquinha e Gauchinho tabelando e deixando a zaga adversária louca, Miltinho, fazendo o impossível com a bola nos pés, Duílio, sempre tentando o gol.

Era um jogão de bola, e estava empatado até que lançaram a bola para o Miltinho, na meia direita. Ele driblou o seu marcador, deu no meio das canetas do segundo, e quando o Rei saiu para defender, o Miltinho, com um toque por cobertura, abriu o placar. Na sua boca, um sorriso de satisfação. Ele olha para o Rei e diz: “Velho, mais um gol. Quem ainda é o bom??” Nisso o Tim, técnico, na lateral do campo, manda ele parar de brincadeira e voltar a correr.

Tim, Miltinho, Rei, Enio Andrade, Neno, Baby, jogadores e técnicos que eu nem havia visto, mas que eram lendas, jogando uma partida bem ali, na minha frente, e eu contemplando tudo.Meu pai e meu avô me vieram à cabeça nesse instante. Lembrei de todas as historias que eles contavam, do quanto havia honra, amor à camisa, espírito guerreiro e respeito às nossas tradições.

 / Foto: Lucas Correia



O Major olha pra mim, e fala: “Calma, o melhor ainda está para vir”. Nisso, uma movimentação fora do estádio ganha a minha atenção. Uma ventania lá fora, apesar de dentro do estádio não haver uma brisa sequer. Uma gralha com a boca aberta cantando no alto de um pinheiro. Várias pessoas circulando, tentando entrar no estádio. “Esses são os que sempre quiseram ser quem somos, mas que nunca mereceram. Eles querem, só querem entrar, mas aqui entra quem tem merecimento, não é para qualquer um”. Mais uma vez, me senti um privilegiado.

Nesse momento, faltando pouco para acabar o jogo, e com o seu time perdendo, Enio Andrade chama um jogador para entrar. Era um branquelo, com certeza descendente de alemão, não muito alto, com nariz protuberante. Ele entra em campo, e no primeiro lance, cria uma ótima oportunidade de marcar. No segundo lance, consegue passar pelo Bequinha e toca pra fora.

Último lance do jogo, novamente tocam para o alemão que havia entrado a pouco, ele corre pela meia, passa pelo Miltinho, que ainda tenta derrubá-lo por trás mas não consegue, e, com um chute forte, empata o jogo, que termina.

“Esse é um dos que eu te falei. Não era jogador, mas pelo o que fez em vida, pelo o que sempre desejou e quis, ganhou o direito de jogar com seus ídolos. Era uma pessoa que tinha tudo para ser um grande jogador, mas não teve oportunidade. Ele vem da linhagem dos nossos fundadores. O Evangelino fez questão que ele tivesse a oportunidade de entrar em campo, convidiou-o pessoalmente para isso.”

Perguntei o nome dele, e o Major, me responde: “Obladen, seu nome é Obladen”. Obladen? Meu coração disparou. Os jogadores já se dirigem ao vestiário, rindo, comentando mais um grande jogo feito, e o jovem descendente de alemão vai junto com eles, riso aberto.

 / Foto: Lucas Correia



Não pode ser. Coração na garganta. Seria ele? Era! Meu tio Gil Márcio Obladen, que faleceu em 94, ex-conselheiro, torcedor que em 92 foi o único sócio a ir a todos os jogos do time no ano, sobrinho-neto e neto dos fundadores, grande amigo, Pai, tio. Grande Coxa Branca.

Corro para a grade próxima à entrada do vestiário, o alemão se prepara para descer. Dou um grito “OBLADEN!!” Ele não houve. “GIL, TIO GIL”. Ele me olha. Volta dois passos. Sorriso aberto, teve tempo de dizer “Guri, volte amanha”. Acenou e entrou. Não me contive, saudades bateram de vez.

O Major me acompanha e me diz que tenho é hora de ir, o jogo já tinha acabado.Perguntei quando poderia retornar, e ver um jogo completo, rever as grandes partidas que sempre ouvi falar, e principalmente, rever meu tio. Ele disse: “quando passar no estádio, e as luzes estiverem acesas, o portão aberto, entre, é sua casa, seu lar, nosso sonho, nosso lugar”.

Despedi-me do Major Couto Pereira com um profundo agradecimento no coração. Saio do Campo ainda meio desnorteado, na rua já havia pouquíssimo movimento. No caminho para o meu carro, minha namorada me liga, pergunta aonde estive. “No céu”, respondo.

Depois dessa noite, passo todas noites no estádio, e procuro fazer por merecer ver aquele jogo e viver aquilo sonho novamente.Sim, porque não é qualquer pessoa que tem essa possibilidade, ela é para poucos.

 / Foto: Lucas Correia



Ser Coxa Branca, ter um estádio dos sonhos é um privilégio, não é para todos.

Fabian Ricardo Stevan
* Baseado no filme “O Campo dos Sonhos”, de 1989.

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Herança genética

28/03/2010 20h34 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: Coritiba Foot Ball Club


Neste fim de semana veio a notícia: temos um novo membro na família. Na verdade uma "membra". Mas ela não está sendo gerada, muito pelo contrário. Sua presença já era constante em nossas vidas mesmo sem a conhecê-la. A história é longa e não vem ao caso. O fato é que já chega com ótimas credenciais: Coxa-Branca formada, desde o berço. Na verdade Coxa-Branca de DNA.

Ser Coxa-Branca não é um dever, mas sim um direito. Uma dádiva tão intrínseca a nós Alviverdes que transcede o coração. Ela passa pela genética e culmina na alma. Nos toma de todo. Não há mais como separar, voltar atrás. O Coxa-Branca tem DNA verde e RNA branco. Invade nossa vida e nos faz passar isso pelo sangue, pelo riso, pela lágrima e ar. Não importa credo, posses ou raça.

Isso é que incomoda tanto. Coxa-Branca é branco, negro, amarelo e pardo. Não é moda, é tradição. É intenso como a vida e eterno como alma. É coisa de irmãos, coisa de gente que mesmo distante é próxima. Ser Coxa-Branca é um vínculo sem tamanho. Intransponível e atávico.

Seja Bem-Vinda Ana. Agora fazemos parte de duas famílias.





O irmão referência

 / Foto: Valquir Aureliano - Estúdio Recordação


E já que falamos em família, O Coritiba tem a obrigação do irmão modelo. O filho responsável que não pode errar. Graças ao esdrúxulo supermando, tem o poder de dois pontos extras, jogar todas as partidas em casa e ainda a vantagem no desempate em caso de igualdade no número de pontos ao final da segunda fase. Melhor time do primeiro turno, carrega consigo a obrigação de não decepcionar.

Se jogar leve e com a responsabilidade a seu favor, apesar de toda a pressão, o Coxa tem tudo para conseguir o título e cumprir as expectativas depositadas nele por toda a família. Ganhar este campeonato, assim como subir ainda neste ano, infelizmente são obrigações que levam a pressão que este grupo terá que aprender a conviver.

Incapaz

 / Foto: Gibran Mendes



- Mãe acho que já sou um árbitro importante, hoje sai de campo escoltado pela Polícia Militar.

Esta deve ter sido a frase de Anderson Carlos Gonçalves, o apitador da partida entre o Coritiba e C. Paranaense, após o final do jogo. Conseguiu aparecer mais do que qualquer atleta. Não o conheço pessoalmente e nem sei de suas qualidades, nem dos seus defeitos. Não sei também de seus dotes como pai, marido, filho e amigo. Pode se tratar de uma grande pessoa. Mas como árbitro de futebol é um total incapaz.

Conseguiu complicar uma partida fácil. Não teve critério para aplicar cartões, errou lances bobos, inverteu faltas, deixou de marcar lances importantes e até seu posicionamento em campo foi péssimo. Não acredito mesmo em má-fé. Trata-se de incompetência pura. Se fosse médico já teria matado alguém e fosse engenheiro teria derrubado algum prédio... Está na hora de procurar outra profissão.

A Festa

A oitava edição do Green Hell está confirmada para a partida contra o Avaí, na próxima quarta-feira. Os torcedores que quiserem contribuir com a grande festa da torcida Alviverde podem mandar e-mail para greenhellcoritiba@hotmail.com.

Veja o vídeo produzido pelo Cristian Simioni:

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A visão estrangeira..

25/03/2010 14h31 - Gibran Mendes - Comente esse post

 / Foto: Bruno Massinham


Caros leitores, o fiel Coxa-Branca Ronaldo Anzanello, cônsul do Verdão em Madrid, esteve em Curitiba e trouxe dois amigos norte-americanos e dois espanhóis para conhecerem o Coxa. Certamente ele esperava que esse encontro dos seus amigos estrangeiros ocorrese de outra forma. O relato é interessante e nos leva a algumas reflexões.

Com a palavra, Ronaldo Anzanello:




Há meses estive planejando meu casamento no Brasil para o mês de Fevereiro e como moro na Espanha neste planejamento estavam incluídos 3 espanhóis e 2 americanos amigos meus com inúmeras atividades e lugares para conhecer.

Nosso tempo era corrido, mas obviamente uma das prioridades era fazer com que eles pudessem conhecer o maior motivo de orgulho dos paranaenses, o Coritiba Football Club.

Tudo planejado para chegar no dia 21 a Curitiba e assistir ao clássico Paratiba no Couto, mas para nossa surpresa e indignação e uma ação covarde, nossa Federação de Futebol Paranaense não zelou pelos interesses do seu clubes e calou-se perante a ineficiência do “pseudo” superior tribunal de justiça despotiva brasileiro.

fui eu tentar explicar porque não poderíamos mas ver o Coritiba e reagendando parte da nossa viagem para poder estar presente no dia 28 contra o nacional.

Porém ai já era tarde para os americanos que justo no dia 28 estavam indo embora. por sorte um deles já tinha morado em Curitiba e é coxa-branca roxo, mas saiu muito decepcionado)

 / Foto: Divulgação / Coritiba.com.br



Durante os dias 26, 27 e 28 tentei leva-los a Coxa Store, para comprarem produtos do Coritiba e poderem assistir o jogo do domingo devidamente uniformizados, porém para minha surpresa em NENHUM dia a loja estava aberta.

Assim lá fui eu correndo até um shopping para poder comprar camisas do Coritiba a tempo.

 / Foto: Gilmar Pinto



Lá fomos nós então no dia 28 ver Coritiba e Nacional, devidamente uniformizados. Primeiro eles se assustaram com a presença intimidante dos “homens fardados” com as escopetas na entrada. Logo eles indagavam porque havia tão pouca gente no Gigante de concreto, logo eles não entendiam porque uma parte da torcida vaiava a outra e por ultimo porque o Coritiba não jogou a partida inteira como no segundo-tempo.

Eu expliquei tudo o que pude da melhor forma possível, agora se convenci ou não, já é outra história.

Em um momento onde o clube precisa de dinheiro e recuperar sua imagem nacionalmente e internacionalmente esses tipos de situações não podem ocorrer. Portanto aqui ficam dois pedidos:

1. Dr. Vilson Ribeiro, já que o Cirino é um cone como bem diz o Dr.X, espero que o Senhor tome atitudes severas com a Coxa Store já que precisamos de dinheiro (não basta apenas subir o preço da entrada) e é inadmissível que em dia de jogo a loja não esteja aberta. Não podemos ganhar dinheiro apenas subindo as mensalidades.

2. A festa que a Império faz é o que realmente chama a atenção das pessoas, é o que deixa a festa mais bonita e empurra o time, portanto a Império tem que limpar-se dos marginais e assumir uma postura única de apoio incondicional e o resto da torcida tem que se unir e não ficar vaiando. A União faz a força e nós somos capazes de fazer a festa mais bonita do Brasil e uma das mais bonitas do mundo se estamos unidos!

Essa é a humilde opinião de um “coxa-branca” que mora fora e alguns mais que começam a ser Coxas… Ou pelo menos tentam…

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