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Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

Almas gêmeas

Sangue mesmo foi suado na rua, na Mauá, mais precisamente, uma hora antes do jogo, pelo torcedor. Acompanhei até meio sem querer a “Mauá de fogo”. Foi mesmo uma festa como todas as outras que fizeram em outras oportunidades. Mas desta vez tinha algo bem especial mesmo. Além do grande sentimento de apoio, havia entrega, de cada um daqueles torcedores que saíram de suas casas para se doar um pouco mais, além do que já doaria de coração na arquibancada.

Dia de almoço das mães, que provavelmente foi interrompido para atender um outro grande amor: o Coritiba que precisava de ajuda, de apoio. Pelo mesmo sentimento que nos levou ao estádio e centenas de pessoas horas antes, para a rua, na recepção ao ônibus da delegação na chegada pela Mauá, fundos do Estádio.

Um dia antes, minha esperança de que Kleina estava blefando, usando a contusão de Ceará e Juan como arma para surpreender o adversário, foi por terra. Nem Juan e nem Ceará faziam parte da lista dos convocados para a batalha. Ali minhas esperanças quase se acabaram. Fiquei mesmo só com a esperança do milagre. Se já estava difícil, a partir daquilo só mesmo o impossível para mudar aquela história. Lá no fundo ainda achava que na porta do vestiário o espírito das grandes batalhas fosse incorporado pelo treinador, com os dois, Juan e Ceará, sendo revelados como titulares escalados momentos antes. Uma ousadia que nunca vi em Kleina e não seria naquele momento que sua personalidade mudaria e me surpreenderia. Pura ilusão minha esperar por isso.

Ah, sim, a escalação de Reginaldo era outra grande decepção. Assim como eu, grande parte da torcida não entendeu por que novamente quem tinha ido muito mal antes, depois de muito tempo sem jogar, estava de volta, provavelmente para comprometer, como de fato comprometeu mais uma vez. Pior, tinha o paraguaio Benitez que joga nas duas laterais, se precisar. Ou o paraguaio foi mais uma das contratações erradas e anda treinando mal? Ainda tinha Rafael Marques para improvisar, mas Kleina preferiu insistir com Reginaldo. Convenhamos, foi a partida do ano do Coritiba. Precisava fazer muito além do que tinha feito até ali. Precisava da transpiração, de suar sangue mesmo, não da boca da fora, como frase de efeito, para impressionar, como fizeram. Não aconteceu e não deu.

Mas até aí, já temos vários ingredientes para pedir a cabeça de pelo menos dois funcionários: Kleina e Reginaldo. Isso se a gente pensar ou quiser começar a resolver o problema para agora. Sem perder tempo com a conversa que as contratações para o Brasileiro, que são cada vez mais evidentes.

Agora, a gente pensar no Coritiba mais pra frente, num clube forte futuramente, então o problema é maior ainda. Para isso, precisamos passar por uma varredura que precisa começar pelo estatuto do clube, ou que tenhamos a sorte de achar um Messias salvador, que nos tire deste buraco que cada vez fica mais fundo e difícil de achar a saída, porque cada dirigente que chega, cava em sentido contrário, nos afundando cada vez mais em uma crise sem fim.

Certamente viveremos de mais ilusões por estes tempos de Brasileirão e Copa do Brasil, se as coisas não mudarem. Cheguei a pensar que agora não seria o momento adequado para a saída de Kleina, que aliás nem deveria ter vindo. Mas reconheço que seus dias no Coritiba acabaram. Pior que isso é saber que usamos este espaço apenas para fazer a catarse, desabafar, porque lá dentro tudo vai continuar como está, nada vai mudar.

Só mesmo o Coritiba para ser diferente. Todos os últimos treinadores- e olha que foram muitos - e quase todos recusados pelo torcedor, aqui eles se dão bem e acabam ficando. O Coritiba faz o caminho contrário da prática comum do futebol brasileiro que é demitir treinador quando não dá certo. No Coritiba qualquer treinador precisa cometer um crime muito grande para ser demitido. É cultura do clube, sem que ninguém saiba explicar a origem disso.

Arrisco dizer que Kleina deve durar ainda mais no Coritiba. Porque Kleina e Bacelar são almas gêmeas. Foram feitos um para o outro, são tão parecidos que agora que se acharam, não se separam mais. O futebol os uniu, infelizmente para nós, no Coritiba.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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