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Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

Futebol pay per view

Primeiro acabaram com os pontas, depois com o centroavante, recentemente também levaram um pouco da qualidade do futebol, e agora, estão transformando o que já foi a maior diversão popular, num negócio caro, que se passado para a ponta do lápis, fica mais barato assistir futebol em casa, pela televisão, do que ir ao estádio.

Parece que fazem força para tirar o torcedor dos estádios e deixá-lo em casa. Coisas da tv, que promove tudo isso, amarrando os clubes, os deixando dependentes de contratos que forçam situações como esta.O futebol virou um grande negócio e esqueceram do principal - a qualidade dele.

O futebol que cresceu, se espalhou pelo mundo e quanto mais velho, menos qualidade tem e mais elitizado fica. Mesmo assim, hoje o mundo se rende aos seus encantos. Até os norte- americanos que colocavam umas três ou quatro modalidades esportivas na frente do futebol, já se rendem a ele.

Nós brasileiros, carregamos durante décadas a supremacia da bola. O que foi sendo conquistado aos poucos, também foi sumindo lentamente. Do inicio dos anos 60, até meados dos anos 80, fomos os donos da bola. Começamos a ficar para trás com os italianos, depois perdemos para os espanhóis, ingleses, e agora, os alemães aparecem com o melhor futebol do mundo. Pelo menos mais organizado e mais sério que se tem notícia.

Mas ainda somos o país que mais exporta atletas para o mundo.

Quando Neymar disse que ficaria, sobrou ao Santos bancar uma conta grande. Todos sabiam que a hora de se render aos euros e dólares, em algum momento chegaria. Chegou e Neymar se foi.

Não tem nada não, mesmo assim a gente continua “se achando bacana”. Sofremos deste mal. Mesmo assim, “a gente ainda se acha”!

Guardadas as devidas proporções, mal comparando, nós paranaenses, somos nada neste contexto mundial se o raciocínio for este. Sim, porque a nossa humilde produção de craques, antes de chegar ao exterior, encontra atravessadores brasileiros que compram o nosso produto a preço de banana e revendem por muito mais. Aliás, atravessadores que chamamos de empresários.

Problema vivido por quase todos os atletas que começaram na base do Coritiba, por exemplo, e hoje jogam lá fora. Antes de sair daqui, esquentaram o bolso dos atravessadores que tiraram estes atletas de nós quase de graça. Se a gente usar como referência o dinheiro que valem hoje, ou que chegaram a valer, quando ganharam asas para o exterior - caso de Alex por exemplo, fica a impressão que alguém se deu muito bem e nós não. Entre os 20 grandes clubes brasileiros, estamos entre os que menos produzem craques. O Santos está no topo da lista.

No contexto nacional, fazemos o papel do pai que cria o filho e depois entrega para o mundo. Só que no mundo do futebol não é assim. Ele nunca foi generoso como o futebol do Paraná e nem será pelos seus belos olhos. Os que entregam nossos filhos ao mundo, estão ganhando dinheiro,e nós não.

Esta é a grande diferença do futebol paranaense, para o futebol paulista, mineiro, carioca e gaúcho. Eles chegam com uma pequena quantia e levam nossa produção, esquentam a mercadoria num clube qualquer, e depois revendem por um dinheiro maior. Isso é histórico e não deve mudar tão cedo. Nós pegamos este dinheiro e tapamos pequenos buracos, como quem paga a dívida no “caderninho” no armazém da esquina.

Alguns atletas que conseguem a façanha de jogar fora do país, se sujeitam a cair no esquecimento, abrindo mão até de Seleção Brasileira, só para ganhar dinheiro, muito dinheiro. Caso de jogadores que até o ano passado estavam brilhando no Atlético Mineiro e Cruzeiro, e agora se mandam pra países quase nada tradicionais no futebol, mas com dinheiro para cuidar da terceira geração. Mas isto é para uma minoria. Muitos ainda ficam por aqui, no troca-troca entre clubes brasileiros. Não alcançam nível para jogar fora. Às vezes nem saem de clubes pequenos.

Somos autofágicos? Sofremos de auto- estima baixa? Acho que não. Até acho que somos maiores em muita coisa, mesmo em alguns pontos no contexto do futebol nacional. Acho que a nossa grande qualidade é se bastar, achar que a gente é bacana, apesar de tudo isso. Nos contentamos com um campeonato paranaense mal das pernas, com uma federação ausente, montamos times razoáveis para jogar em Rolândia, Foz, Ponta Grossa, Prudentópolis, com uma arrecadação pequena, sem lucro na bilheteria, mas damos a volta por cima com públicos razoáveis, para ver Coritiba jogando em casa, seja contra quem for, mesmo que isso também não traga dinheiro. Nisso somos bons, só porque gostamos de futebol.

Pega o Brasileirão por exemplo. Quem de nós admite perder para Corinthians, São Paulo, Flamengo, Grêmio, Cruzeiro, Inter e Fluminense?
Vou até um pouco mais longe. Acho que tá tudo igual. Nunca estivemos tão parelhos. O nível do futebol nunca esteve tão igual como agora. De nível baixo, é verdade, mas igual em capacidade técnica. Não somos muito diferentes destes grandes do chamado eixo.

Quando conseguimos chegar a uma final de Copa do Brasil, seja contra Vasco ou Palmeiras, quem de nós se rendeu a superioridade de ambos? Ninguém. Poucos torcedores são capazes de admitir que perdemos porque o adversário sempre foi superior.

Assistimos Coritiba e Operário torcendo o nariz, ainda desconfiados com a qualidade do time, e por isso mal conseguimos comemorar quando surge alguém como Rafhael Lucas, com 4 gols em 3 partidas, coisa quase inédita no Futebol Paranaense, que facilmente seria muito comemorada nos grandes centros. Se estivesse em São Paulo, Rafhael Lucas já seria vendido pelas tvs como candidato ao governo do estado. Estamos sempre desconfiados e não relaxamos. Esta é a característica da torcida do Coritiba, não é o perfil do torcedor do futebol paranaense. Muito porque herdamos esta cultura dos nossos fundadores. Acredito ser possível começar a mudança pelos nossos dirigentes. Menos humildade e mais ousadia.

Em todas as reuniões que decidem o futuro dos clubes nacionais, aprendemos a dizer sim. Não há defesa de ponto de vista, não há discussão inteligente para criar ou fazer algo maior. Vamos a estas reuniões da CBF sem ideias, sem contestação, simplesmente acatamos. O molde destas reuniões são as necessidades dos clubes do grande eixo, não a nossa. É verdade que a CBF não tá nem aí para o que achamos ou deixamos de achar, mas esta é a cultura do futebol paranaense.

Quando Rogério Bacellar e Mario C. Petraglia se encontram e discutem interesses em comum, a imprensa estraga inventando conversa fiada, como recentemente a tal da Arena Atletiba. Muitas vezes a imprensa mais atrapalha do que ajuda. Outro ponto que também precisa mudar.

O torcedor de arquibancada está virando torcedor de poltrona, porque a tv nos impõe isso. Os dirigentes ajudam neste jogo, com ingressos caros para um futebol de baixa qualidade. Os que resistem bravamente, são os loucos por futebol, como eu e você. Muitos de nós, já em casa, no conforto da poltrona, repassando dinheiro ao clube, pagando pay per view.

O futebol mudou, nós também, eu preciso entender melhor isso tudo.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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