Gestão da sorte
Sei que não digo nenhuma novidade. O torcedor mais rodado sabe muito bem disso. Fico aqui pensando em algumas conversas que já presenciei, quando montavam elencos para uma temporada.
Estas conversas entre empresários, jogadores e dirigentes, trancados a sete chaves em seus escritórios, deveriam ser gravadas e ficar disponíveis ao torcedor em um lugar qualquer. Algumas, são fortes e mereciam censura prévia para torcedores cardíacos. Algumas duram dias, semanas, às vezes meses. Algumas intermináveis.
Contratos longos, por mais de um ano, que se cercam de muitos cuidados, em clausulas que protegem mais o atleta do que o clube, atleta é peça fundamental no futebol, a mais importante, é verdade.
No Coritiba, casos como o de Gil, por exemplo, são raros. Gil, com uma passagem até longa pelo Coxa, como também na Chapecoense, tinha como característica se alongar pelos clubes onde passou. Era o perfil dele. Mas é um caso raro se a gente levar em conta o padrão do que usam hoje.
Geralmente atletas mais novos, sem família, sem filhos e mulher, são contratados por um tempo menor. Na verdade cada caso é um caso e cada um é sempre criteriosamente estudado, quando há profissionalismo de dirigentes e empresários.
Levam ou devem levar muito em conta isso tudo. Por isso, a demora para os acertos que também sempre são ricos em detalhes, que contemplam desde salário, moradia, e às vezes passa até por pagamento de escola de filhos, transporte, aluguel de residência, luvas etc.
Um mundo escondido do torcedor, que não deve mesmo se interessar por estes detalhes.Na média, o torcedor que é saber do rendimento do jogador em campo. Afinal, nada mais justo, já que também é do bolso dele que sai o dinheiro das despesas do clube.
Só que é preciso ter alguns cuidados para caminhar por este mundo do futebol. Para não se machucar, não pisar em espinhos e se dar mal e acabar virando um sofredor, um lamentador, um João reclamão, sempre insatisfeito com tudo.
Neste momento, em que vivemos no Coritiba uma refação de quase tudo, e que por enquanto passa longe do que todos imaginavam, uma indicação já nos garante, ou pelo menos diz o que teremos em 2017: praticamente a mesma coisa de anos anteriores. Como já disseram por aqui, vai restar ao torcedor só a torcida para que ilustres desconhecidos que estão chegando funcionem.
Se não for com os desconhecidos, os conhecidos também não ganham muito credito. Teremos de diferente dos anos anteriores, apenas os nomes. Ano que vem vamos reclamar ou elogiar outros nomes.
Alguns dirigentes querem nos fazer acreditar que o Coritba monta um time para brigar por títulos. Pelo menos foi esta a conversa que já ouvi. A mesma do ano passado, quando prometeram a mesma coisa. Isso é ruim porque na largada desacredita um trabalho que mal começou. Estou falando de montagem de elenco e não de gestão. Nós que acompanhamos o dia a dia do clube sabemos que não é bem assim.
Como há cinco anos, estamos ainda no mesmo lugar, sem novidades, sem perspectivas.
Se der certo, se pelo menos três dos nomes que trouxeram, acabar vingando, dirão que era planejamento e o caminho estava certo. Mas a gente sabe que foi sorte. E vamos nos calar porque o que interessa é o Coritiba bem. Só não podemos nos enganar, achando que de fato eles acertaram. A gente sabe que foi sorte.
A sorte que anda nos salvando no final destes últimos anos, e que agora precisa continuar por aqui e se quiser sonhar mais alto, orar aos céus para que seja ainda maior. Porque mais uma vez erram acertando longe do alvo que imaginava e queria o torcedor.
Para manter esta chama de amor viva, vamos precisar de muita sorte e paciência em doses maiores.
Tanto sabem que os passos que dão são inseguros, que há uma semana. A editoria do COXAnautas pediu uma entrevista ao Presidente Rogério Bacellar, que até agora sequer respondeu.
É nesta hora que me folgo em saber que sou apenas torcedor. Que não preciso ouvir as conversas de bastidores, de conhecer detalhes de contratos, de compromissos assumidos que não serão cumpridos. Que o cabeça de bagre vindo como promessa, uma aposta que “agora o cara vai jogar o que ainda não jogou”, depende muito mais da sorte do que da vontade de todos: torcedores, dirigentes, empresários e até do próprio atleta.
O futebol de resultado acontece com planejamento. O título do ano seguinte, precisa ser planejado muito antes. Do contrário, ele não vem. No Coritiba ainda preferem trocar a palavra gestão pela palavra sorte. E com ela parece que será o nosso 2017.
Vale aqui uma frase que li estes dias, dita certa vez por Evangelino da Costa Neves: “Comecei o ano sem dinheiro para comprar papel higiênico para os banheiros. Terminei o ano como campeão”.
A sorte e a competência de Evangelino, não foi a mesma de Bacellar e seus antecessores. Nestes tempos modernos, não cabem mais estes procedimentos. O Coritiba continua sendo administrado como nos anos 70.
Um bom ano para nós! Com ou sem sorte!
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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