Kruger
Vi Pelé outras vezes com a 10 do Santos, contra o Coritiba, na época que o Campeonato Brasileiro era chamado de Roberto Gomes Pedrosa.
O negão de fato era diferente. Fora de série mesmo, era completo. Tinha fundamentos, categoria(por baixo e por cima) - tocava na bola de forma diferente, sempre com muita classe. A expressão jogar de smoking, nasceu com ele. Não há nada que falem sobre Pelé jogando bola que seja novidade. Tudo já foi dito. Não serei eu a conseguir uma definição inédita.
Também na mesma época, o Coritiba tinha um time de craques. Como já disse aqui, naquela época, todo time tinha pelo menos um craque. No Coritiba tinha uns três ou mais.
Em 1968, eu com 12 anos, meu irmão com 10 - recebe um diagnóstico de leucemia. Seu amor pelo Coxa era algo inexplicável. Ainda não vi coisa igual. Tão grande que fez uma prima mais velha conseguir nos aproximar de alguns jogadores na época.
Com frequência passamos a reunir em casa e no hospital (às vezes que meu irmão esteve internado), muitos atletas do time daquele período.
Comandava a tropa- o nosso Pelé - Dirceu Kruger- o Flecha Loira, o maior de todos os jogadores que o Coxa teve nesta sua centenária história - pelo menos no meu entendimento.
Kruger comandou um time de craques: Passarinho, Hermes, Nilo, Kosilek Célio, Hélio Pires, em aniversários lá em casa, todos inesquecíveis.
A garotada da rua não acreditava que minha casa recebia aquele time de uma só vez, num só dia, numa só visita. Sempre muito atenciosos com todos. E, na linha de frente, lá estava sempre ele, Kruger comandando a time. Foram três anos seguidos assim.
De 68 ao final de 70, Luiz Fernando- meu irmão - ainda viu o Coritiba campeão algumas vezes, acompanhei junto com ele a campanha do “Fita Azul”, na excursão à Europa, de onde Kruger nos mandava postais, contando as façanhas do Coritiba. Também ainda deu tempo de ver o Brasil tricampeão mundial, no México.
Por muitos anos, Kruger foi o símbolo mais forte que tivemos do Coritiba, em casa. Talvez tão forte como é hoje o “ Vovô Coxa”. Mesmo com a morte de Luiz Fernando, Kruger continuou em nossas vidas... aliás, continua...
Sempre no dia das mães, manda flores à minha mãe, sempre ligou ou apareceu no Natal. Até hoje faz as mesmas coisas. Kruger é o que Armando Nogueira chamava de “craque cidadão”. Pelé também o foi.
Neste Natal conversamos mais uma vez. Da mesma forma, como fazemos pelo menos uma vez por ano, desde que se aproximou da família. Ligou especialmente para falar com minha mãe, para desejar Feliz Natal.
Meu sobrinho de 9 anos atendeu o telefone. Logo descobriu quem era. Já conhece todas as histórias que contamos a ele sobre Kruger. Me emocionei ao ver um garoto de 9 anos, chamar Kruger de flecha Loira. É a perpetuação de um craque- ídolo.
Tão perpétuo que até hoje ainda sinto o mesmo frio na barriga que sentia quando falava com ele, nos meus 12 anos -quando tinha o “craque cidadão” em minha casa.
Minha mãe recebe os cumprimentos pelo Natal e me passa o telefone. Conversamos amenidades. Me comporto como um fã, que se controla diante de sua majestade. Conversamos algumas coisas e encerramos ali o nosso encontro anual.
Depois da ligação, me veio esta história toda na cabeça e que divido com vocês. Junto com ela uma constatação: meu sobrinho de 9 anos, tem Alex como ídolo, mas que virou cidadão do mundo. Jogou mais fora, do que aqui. Está identificado com outras coisas.
O mundo é outro, o futebol também. Coisa que não acontecia no meu tempo. O intercâmbio de atletas não era muito comum. Começou a se fortalecer a partir dos anos 70.
Uns preferem o romantismo daquele período, outros não. A garotada, não tem nem ideia do que foram aqueles anos.
Sempre que posso, mato a saudade com estas reminiscências, nem que seja escrevendo.
O fato é que como Kruger, nunca mais, nem na trave ninguém bateu. Quanto a Pelé.... espero, tenha deixado uma história ou muitas histórias bonitas como esta. Como Kruger fez e continua fazendo.
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
Ver comentários (0)
