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Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

Preto & branco

Preto & branco
A foto é em preto e branco, mas enchia de cores a vida da gente. Porque atletiba não tinha como ser de outro jeito. Nunca teve favorito, porque por mais que um estivesse melhor que o outro, havia antes o respeito pela camisa.

Atletiba decisivo começava bem mais cedo que o encontro da torcida na Mauá. Começava muito antes da bola rolar. Era na rua, na escola... a cidade respirava o clássico, uma ou até duas semanas antes.

Atletibas que ficaram na cabeça da gente e nunca mais saíram. Iluminado por quatro cores, com nomes que jamais sairão da memória de quem viu. Eu guardo vários.

Atletiba tinha gosto e cheiro. Gosto de pinhão, de mexerica , de quentão... atletiba de vitória que se arrastava semanas, enchendo o peito de orgulho de quem saísse vitorioso. Atletibas que quase sempre foram disputados no Alto da Gloria. Isso também nos dava outro tipo de orgulho. Até hoje carregamos outros orgulhos. O de ser o mais vitorioso nos clássicos, com mais gols, mais títulos...

Atletibas que sempre arrastaram públicos inesquecíveis ao Belfort Duarte ou Couto Pereira e que provocavam um sentimento único em quem podia estar lá e ver de perto para depois poder contar que viu aquela defesa do Célio, do Joel Mendes ou Jairo ou aquele gol do Abatiá, o pênalti defendido pelo Manga, do gol ou da jogada de Krueger , Zé Roberto. Ser testemunha de um atletiba era troféu para se guardar para a vida toda.

Atletibas da paz, dos ônibus divididos, com torcedores rivais sentados lado a lado. Porque adversário não punha medo, no máximo uma troca de olhar e um sorriso maroto. De provocação, apenas.

Atletibas que não lembro de ter visto que não tenha sido com o coração na boca. Porque aqueles tempos eram mesmo outros, como o futebol também era outro. Todos os atletibas, por menor que tenha sido, era decisivo. Mesmo quando amistoso, se transformava em decisão.

Não lembro de nenhum atletiba onde eu tenha desacreditado do meu time, porque sabia que se houvesse supremacia do adversário naquele momento, a camisa alviverde se sobreporia a tudo e aquilo seria maior, valendo muito mais que uma partida de futebol . Tinha muito mais coisas em jogo. Era a vergonha na cara, o respeito pela torcida, pela camisa de uma instituição.

Nas derrotas havia renascimento. Achava forças para no próximo clássico dar o troco. Era uma questão de honra. Não lembro de ter perdido um clássico vergonhosamente, mas no caso de derrota com dívida em campo, as longas e cansativas coletivas que nos ocupam hoje, davam lugar a enormes viradas de mesa, a portas fechadas e na segunda-feira a casa estava em reconstrução para colocar tudo em ordem o mais rápido possível.

Hoje, nos dão um atletiba sem motivação. Um com a desculpa de estar testando seus juniores para disputar o brasileiro, mesclado com alguns reforços. O outro com um time de aspirantes, fazendo pouco caso do regional, que chamam há alguns anos de rural.

Ao final do jogo, o treinador do Coritiba diz que a prioridade da temporada é voltar à primeira divisão e que o título estadual pouco importa.

Com isso, conseguiram um público a altura do que oferecem. Entre pagantes e total, 10 mil pessoas, digno e da altura do tratamento que os dois clubes deram a esta partida. Com isso, matam aos poucos a instituição que um dia foi o clássico. Matam também o regional, que disputam por obrigação.

Por tanto, não exijam da torcida, nem presença e nem respeito. Vocês estão tendo o que estrategicamente estão buscando.

Quanto ao jogo, não há o que dizer, a não ser que parecia tudo, menos um atletiba , não fossem as cores dos dois clubes e os selvagens torcedores de sempre, que mesmo em pequeno número, já há muitos anos não conseguem mais conviver pacificamente, dividindo os ônibus.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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