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ArquibancadaSergio Brandão

Quando 1070 é mais que um milhão

Não há nada mais promiscuo que relações de poder onde interesses regem os rumos, se sobrepondo a caminhos que não sejam de interesse da maioria, principalmente onde o regime é democrático. Por menor que seja o interesse, se houver privilégios a uma ideia ou a um pensamento ou interesse, a relação é promiscua.

No caso do Coritiba, parece que Samir sabia que assim que assumisse, teria resistência da imensa maioria da torcida, que o elegeu de forma democrática, mas bastante discutível, já que 1.070 votos não representam nem de longe uma população de mais de um milhão de pessoas. Só por isso, seu mandato é discutível. Não ilegal, mas no mínimo discutível.

Por não ser considerado ilegal, não perco meu tempo nesta discussão de impeachment. Samir deixa o cargo se quiser ou se politicamente for pressionado. A pressão que existe é de fora para dentro, que pouco, ou quase nenhum efeito tem. Ou seja, da torcida que se manifesta nas redes sociais ou aqui no site.

A grande pressão que colocaria Samir em xeque mate, mas que não acontece, deveria ser do Conselho Deliberativo. Agora, dez meses depois de eleito, Samir se comporta como se tivesse preparado para suportar esta pressão, não se expondo, ou quando se expõe é da forma como escolhe: com seus seguidores ao seu lado, sem que seja colocado em questionamento.

Samir tem se mostrado um hábil político, porque quem tem poderes para lhe cobrar, o Conselho Deliberativo, joga no mesmo time, com os mesmos interesses. Pelo menos compactua dos mesmos pensamentos. Hoje, a um preço bastante alto ao clube.

Não cabe aqui o fatalismo, execrando as duas correntes, que comungam das mesmas ideias, porque acredito que ambos, Conselho Deliberativo e Conselho Administrativo, queiram o melhor ao Coritiba, mas esta comunhão não é saudável ao futuro do clube. Pelo menos em suas funções vitais. Do primeiro de administrar e do segundo de deliberar.

Não é por acaso que algumas manifestações dão como já enraizadas esta relação que se não é promiscua, é pelo menos covarde. Porque se enche de autoridade, contra uma maioria.

Chamam atenção alguns relatos chorosos, dando como líquida e certa esta obsessão financeira que anda aniquilando o departamento de futebol, como já disse aqui, deixando o que já foi glorioso, mais parecido com um daqueles escritórios decadentes que em pleno século 21 tem cara de anos 60. Um sentimento que confirma que nos próximos dois anos, teremos a mesma filosofia ditando os rumos do Coritiba.

Sintomático o desaparecimento de Samir das redes sociais ou até a falta que pode ser registrada na gravação que fazia a cada mês, na prestação de contas ao sócio, no quadro “Pergunte ao Presidente”, que já há algum tempo não oferece uma nova edição. Se prestando a uma comunicação onde seus olhos não sejam percebidos, preferindo as cartas aos sócios. Cartas que certamente não são feitas de próprio punho, o que deixa a relação ainda mais distante e desacreditada.

Restando 6 rodadas onde são necessárias seis vitórias, sem que dependa de ninguém para assegurar a volta à série A, concordo com a maioria das manifestações aqui expressadas, que 2019 não deve mesmo ser muito diferente de 2018. Porque os conselhos se avalizam e conseguem aprovar ações e propostas que mais de um milhão de pessoas não aprovam.

Não é pela promessa não cumprida de Samir, quando afirmou à TV COXAnautas que voltar à primeira divisão seria “prioridade número um”. Não foi e nem volta tão cedo, creio. Mas muito mais pela soberba de achar que mais de um milhão de pessoas não devem ser levadas em conta, contra o desejo de 1070 eleitores.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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