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ArquibancadaSergio Brandão

A ÉTICA que falta ao futebol

Usain Bolt merecia um fim melhor. Ou nós é que achamos que o fim de uma história profissional de sucesso deveria ser como sempre foi?

Quem sabe, depois de tanta vitória, tanta supremacia, não fosse mesmo a hora de encerrar a carreira de melhor atleta olímpico das pistas - carismático, animado, invencível, debochado, espirituoso - assim, desta forma, se machucando e comprometendo até o resultado final de uma equipe? Lições do esporte que muitos não entendem.

Desta vez não só o trabalho dele, nos 100 ou 200 mts, estava em prova. Ficou para trás também o desempenho de uma equipe de revezamento, nos 400 mts. Coincidência, mas bem curiosa, que pode, ficar no mínimo para ser pensada.

Por toda a festa que sempre fez, pelo cara legal que sempre foi, o final da carreira de Usain Bolt, devia mesmo ser uma festa, com pódio, ouro etc. Mas não foi. Um herói das pistas, sem pódio, sem medalha, sequer termina a prova e precisa ser carregado pra voltar pra casa.

Lições sutis do esporte, que servem pra vida, se você quiser.

Cabe aqui uma analogia de Bolt, com esporte, futebol e Coritiba. Porque uma das primeiras coisas que aprendi no esporte foi entender a competição com a gente mesmo, a cada prova, a cada treino. Tô falando de esporte, não de futebol. No começo, as vitórias são pequenas. Mas vão crescendo, até que chegam num ponto onde a gente estaciona. Dali pra frente, só com mais dedicação. Uns param, se dão por satisfeitos, outros seguem. Fui até onde deu. Me mantive durante anos em nível de competição, dentro da minha categoria, já com mais de 44 anos. E assim foi até os meus 58 anos.

Até que chega uma hora que o crescimento é mínimo, só você percebe, porque é bem sutil. Está mais na percepção do que nos resultados.

Para o leigo, melhorar 10 ou 15 segundos, às vezes só 5 segundos, numa corrida longa de 10 km, pode não ser nada, mas só a gente sabe o preço que paga por aquilo.

Nas provas curtas, de natação e atletismo, as diferenças de 2 segundos, são uma eternidade. Na natação, centésimos, milésimos separam atletas de medalhas. Muitas vezes uma unha mais comprida determina o pódio.

A Olimpíada carrega uma ética onde os que não respeitam a regras, não entram. Exemplo recente dos russos com vários casos de doping, ficando fora da Olimpíadas.

Esporte tem ética, que anda fazendo muita falta por aí, principalmente na política e no futebol.

Ética que não vejo em muitos jogadores de futebol. Vestem a camisa de um clube e pouco sabem o que existe por trás daquilo, além de ganhar o seu dinheiro e fazer disso um trabalho. Sinto falta da ética nos dirigentes, a ética que passa longe dos empresários.

Por isso, futebol é futebol, mas não é este esporte, o que vemos na maioria das modalidades olímpicas. Superação, dignidade, vergonha na cara está acima do uniforme. A ética que leva a humildade de saber que é possível sim, fazer além daquele pouco que você dá em troca do amor de uma torcida apaixonada. E que este amor tem um preço muito alto, geralmente só para o torcedor, e dificilmente para o jogador. É o que anda faltando, principalmente dentro do Coritiba. Sem ética entre dirigentes, consequentemente nos falta ética no futebol em campo.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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