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ArquibancadaSergio Brandão

A mística do gol dos fundos

O caminho da vitória é no gol dos fundos. É regra o Coxa atacar no primeiro tempo para o gol dos fundos. Não sei desde quando as coisas sempre foram assim. Desta vez mudaram. Atacamos primeiro para o gol da Amâncio, da Igreja.

Quando percebi, já era tarde. O jogo começava e lá estava o time formado para atacar errado. Aquilo pra mim é como time desarrumado em campo, surpreendido, como num contra ataque, com jogadores em posições invertidas. Culpa do sorteio, do capitão que não observou este detalhe importante? Não sei, só sei que além de torcer o nariz, pensei - no segundo tempo as coisas se arrumam.

O primeiro tempo mais pareceu os velhos clássicos decisivos sualmericanos. O Coritiba, no papel de time brasileiro: nervoso, mais preocupado em revidar as agressões do primeiro jogo, arbitragem ligeiramente perdida e o Londrina no papel do típico time argentino, nos seus melhores dias de catimba: segurando o jogo, irritando o adversário, prolongando e valorizando falta, escanteio, tiro de meta etc.

Olhando aquela camisa azul e branca, algumas vezes vi a seleção argentina no seus melhores dias da velha e boa catimba portenha. Confesso que em alguns momentos, cheguei a prever o pior.

A irritação do gramado chega até a arquibancada. Em menos de 10 minutos o cartão amarelo vira estrela do primeiro tempo. Olho pro relógio e começo a torcer para que o primeiro tempo acabe logo e que finalmente o Coritiba ataque para o gol dos fundos.

Os primeiros 45 minutos foram de pouco futebol, mas a gente pelo menos tinha um Coritiba diferente do primeiro jogo. Havia o espírito de decisão, coisa que na minha opinião foi o que mais fez falta naquela partida em Londrina.

Mesmo assim, tudo isso ainda era pouco para resolver os problemas que se apresentaram durante a semana e no jogo. Faltava criação. As jogadas pelas pontas não aconteciam. Norberto e Carlinhos não produziam quase nada. Norberto abaixo do esperado, dando passes errados, perdendo bolas que se revertiam em jogadas perigosas ao adversário, revelando mais uma deficiência, além das muitas que a equipe tinha. O Coritiba era um time de dois blocos, sem ligação: defesa e ataque.

Estava mesmo no segundo tempo a solução dos nossos problemas, pensava eu. Estava no gol dos fundos o caminho da vitória e isso acabou acontecendo para que nunca mais ninguém ouse começar a partida de outra forma, invertendo o gol que deve ser atacado no primeiro tempo.

Resolvemos isso em poucos minutos e sem a nossa principal estrela, o artilheiro do campeonato, Rafhael Lucas. Quis o destino que fosse com Keirisson - para muitos ex- atleta - que as coisas começassem a tomar o caminho da classificação para final. Autor do passe do primeiro gol e com uma participação até surpreendente em todo o segundo tempo, Kerrison me agradou.

A empatia com o gol dos fundos é tão grande, que antes que pudéssemos respirar, achando que no mínimo já estávamos em condições de igualdade, afinal, na conta de uma partida de quatro tempos, já tínhamos empatado. Em poucos minutos o alívio e a confirmação da superioridade com o segundo gol.

Para corrigir os erros de alguns mal entendidos ocorridos durante a semana, por conta do clima que se fez em torno desta decisão, os deuses do futebol tiveram o cuidado ainda de dar o toque de goleada, para diferenciar bem uma coisa da outra, ainda com o requinte de um gol contra. Um cala boca, uma ducha fria se algum londrinense ainda alimentava alguma esperança.

Sem muita força, com um time limitado, o Coritiba mostrou que acima de tudo, tradição e camisa ainda fazem a diferença num jogo de futebol. Não foi preciso jogar muita bola para ganhar do Londrina.

Três a zero disse muito bem o que foi esta decisão. Bastou um tempo de jogo para isso - no gol dos fundos, de preferência sempre no gol dos fundos, e que assim seja para as próximas partidas.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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