Logo COXAnautas

Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

Adeus, Krüger !

Assim que soube da morte de Krüger, lembrei das muitas homenagens que aqui dediquei ao Flecha. Parte de um dos textos que publiquei aqui no blog e que está em meu livro, lançado em outubro do ano passado, segue abaixo, junto com a gratidão que devo a este homem.

Faço parte de uma geração que bate no peito pra dizer que viu Pelé jogar. Foram várias vezes. Até pela Seleção Brasileira, quando se preparava para a Copa de 70, quando venceu o Coritiba, num amistoso no Belfort Duarte, por 2x1. Naquele dia, Nilo, nosso lateral esquerdo, defendeu a Seleção.

Vi Pelé outras vezes com a 10 do Santos, contra o Coritiba, na época que o Campeonato Brasileiro era chamado de Roberto Gomes Pedrosa.
O “negão” de fato era diferente. Fora de série mesmo, era completo. Tinha fundamentos, categoria. Tocava na bola de forma diferente.

Na mesma época, o Coritiba tinha um time de craques. Como já disse aqui, naquela época, todo time brasileiro tinha pelo menos um craque. No Coritiba tinha uns três ou mais.

Em 1968, eu com 12 anos, meu irmão Luiz Fernando com 10, ele recebe um diagnóstico de leucemia. Seu amor pelo Coxa era algo incomum. Ainda não vi coisa igual. Uma prima nossa, mais velha, a Maria Teresa, conseguiu nos aproximar de alguns jogadores do Coritiba na época.
Quando me dei conta, até com alguma frequência, passamos a reunir em casa e no hospital (às vezes que meu irmão esteve internado), muitos atletas do time Coxa daquele período. Comandando a tropa, o nosso Pelé - Dirceu Krueger- o Flecha Loira, o maior de todos os jogadores que o Coxa teve nesta sua centenária história.

Krüger comandou um time de craques: Passarinho, Hermes, Nilo, Kosilek Célio, Hélio Pires, em aniversários lá em casa, todos, claro, inesquecíveis.
A garotada da rua não acreditava que minha casa recebia aquele time de uma só vez, num só dia, numa só visita. Sempre muito atenciosos com todos. E, na linha de frente, lá estava sempre ele, Krüger comandando o time. Foram três anos seguidos assim.

De 68 ao final de 70, Luiz Fernando, meu irmão, ainda viu o Coritiba campeão algumas vezes, acompanhei junto com ele a primeira campanha do Coritiba pela Europa, antes de 72, quando voltou “Fita Azul”, de onde Krüger nos mandava postais, contando as façanhas do Coritiba. Também ainda deu tempo de ver o Brasil tricampeão mundial, no México. Tudo isso era o sonho de consumo de muitos e que para nós, especialmente ao meu irmão, passou a ser habitual na nossa convivência, graças a Krüger,que desde cedo usava o futebol para bater um bolão além das quatro linhas.

Por muitos anos, Krüger foi o símbolo mais forte que tivemos do Coritiba, em casa. Mesmo com a morte de Luiz Fernando, anos depois, Krüger continuou em nossas vidas... aliás, continua...

Sempre no dia das mães, mandava flores à minha mãe, sempre ligou ou apareceu no Natal. Até onde conseguiu, Krüger nos visitava, sempre em nome da amizade feita por conta da doença do Luiz Fernando e que seguiu mesmo depois de sua morte.

Para a família Coxa, nem Pelé, nem ninguém será maior que Krüger.
Krüger é o que Armando Nogueira chamava de “craque cidadão”.

A morte física de Krüger, me leva a esta história e que divido com vocês e junto com ela uma constatação: para os torcedores de hoje, os ídolos são outross e com outro perfil, onde uma selfie resolve e eterniza. São cidadãos do mundo. Estão identificados com outras coisas. Porque o mundo é outro, o futebol também.

Ao nosso ídolo maior, minha imensa gratidão pelo carinho durante todos estes anos. Muita luz em seu caminho, Flecha! A mesma luz que o acompanhou a vida toda.
Parabéns e grato por todos estes anos partilhados.

Viva você, Krüger!

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
Ver comentários (18)
Link copiado para a área de transferência