Ainda falta emocionar
Ênio Andrade, Campeão Brasileiro em 85, não se conformava com torcedor que levava rádio para dentro do estádio. Não aceitava palpite de "corneteiro de alambrado" - dizia ele. Achava que era uma turma que não tinha opinião, porque precisava ouvir o rádio para confirmar o que ele mesmo estava vendo.
Sempre gostei de rádio quando narrado com emoção, com inteligência. Lombardi tinha os dois, mas não é o que temos hoje por aí. Na tevê a coisa é pior ainda. Em todo território nacional, salvam-se uns dois ou três. Muitos ainda ignoram o peso da imagem que é a mesma que o telespectador está vendo em casa.
Escrever sobre futebol é bem mais fácil. Você assiste o jogo, senta em algum lugar, pensa no texto e faz. Quando não é o caso de editorias de esporte, nos grandes portais de notícias, ou em jornais de grande circulação, com horários pra fechamento, é mais fácil ainda.
Ênio Andrade me reprovaria. Não vou ao estádio sem rádio. Preciso das informações que vem do gramado e gosto de ouvir comentários. Alguns fora de contexto, outros não. Sinceramente, alguns comentaristas me mostram coisas que muitas vezes não enxergo, mas a maioria diz mesmo muita bobagem.
Assistir Coritiba e J. Malucelli com transmissão da RPC, foi um exercício duplo à minha paciência. Pela dupla falta de qualidade dos dois: do futebol e da transmissão. Que me perdoe o rapaz narrador que não conheço, mas em alguns momentos tive a sensação de estar ouvindo um programa romântico, daqueles de FM. "De fulano para fulana, Ray Conniff”- faltou ele dizer!
O Coritiba evoluiu? Pode ser que sim, mas ainda passa longe de emocionar ou de dar tesão em qualquer narrador de rádio ou de tevê. Talvez por isso, o rapaz da narração se ateve muitas vezes ao arco-íris, ao Parque Barigui, imagens bucólicas de crianças dormindo na arquibancada etc. Lombardi Jr sairia de uma partida como esta, muito brabo. Principalmente quando era o Coritiba em questão.
Ênio Andrade podia encarnar em Marquinhos Santos o espírito do treinador que muda o jogo positivamente, no intervalo. Curiosamente (não é a primeira vez), o Coritiba anda voltando pior no segundo tempo. Porque? Não sei. Não houve alteração. Marquinhos manteve a mesma escalação do primeiro tempo e memso assim voltou pior. Voltou covarde, deixando espaços para o toque de bola do J. Malucelli. Depois dos 20 minutos conseguiu estancar e a pressão do Jotinha sumiu.
Ênio Andrade lembra Tim- Elba de Pádua Lima. Um dos poucos treinadores que mudava completamente um jogo no vestiário, com uma leitura da partida como poucos.
Lombardi, Ênio e Tim viveram quase na mesma época e nos emocionaram muitas vezes. Cada um na sua profissão. Ainda espero que este Coritiba de hoje consiga o mesmo, emocionar. Falta isso. Não se trata de buscar o futebol daquela época, que tinha mais qualidade. Quem sabe encarnar o espírito que vejo em Negueba. De luta, de vontade de acertar, correndo o campo todo, voluntarioso, ajudando na frente e atrás.
Este espírito que também precisa vir do banco. Marquinhos às vezes ainda parece não saber fazer a leitura da partida. Escala bem, anda armando bem o time, mas parece não perceber as armadilhas que lhe fazem nos 90 minutos. Ainda parece carecer de rodagem que certamente vai adquirir com o tempo. Nada pessoal. Gosto dele.
A vitória nos coloca como líderes com absoluta justiça. O Coxa é o melhor time do Campeonato, mas só consigo achar graça no futebol, quando emociona. Este time ainda não conseguiu isso comigo.
Se eu fosse narrador, estaria mudo, se tivesse que escrever sobre o jogo com data e prazo de entrega do texto, perderia o emprego.
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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