De santo a vilão
No futebol não. No futebol o perdão não existe. Porque o futebol é desumano. Cobra, exige e fica cruel, especialmente na relação entre torcedor e clube. Porque quem defende o clube são seres humanos iguais a nós, torcedores, mas que quando os erros são deles, não tem perdão, por mais que acertem durante muito tempo.
No Coritiba o caso mais recente e o mais forte é o de Evangelino, por exemplo. O maior presidente que tivemos, mas que em seu último mandato foi questionado e cobrado por muitos. Mesmo tendo sido o mentor e o símbolo da maior conquista do clube, com o título brasileiro de 85.
Então, é natural e perfeitamente compreensível que Wilson, que pouco ou quase nada fez, se comparado a Evangelino, seja crucificado pela torcida como o responsável pelo empate que foi trocado pela vitória em Florianópolis, contra o Figueirense.
Nem defendo e nem crucifico Wilson. Entendo que em lances capitais, não só contra o Figueirense, mas como muitos aqui lembraram, nosso goleiro também errou em lances contra o Atlético MG e Chapecoense. Duas partidas que praticamente decidiram a vida do clube em 2017.
Ao atleta profissional não é dado o direito de errar. O torcedor não lhe dá este direito. Quando começa a jogar futebol, antes mesmo de ser profissionalizado, deveria ter este ensinamento como primeira lição. Sempre foi assim, com raras exceções, quando um erro não deveria apagar toda uma história de sucesso, caso de Wilson no Coritiba.
Na memória da gente fica forte e registrado sempre a última ação. Até que Wilson volte a brilhar, valerá ao torcedor mais exigente, a “bateção de roupa” que promoveu no Orlando Scarpelli.
Wilson será carregado nos braços da torcida como símbolo do acesso à série A, se defender pênaltis, e salvar o time como fez até aqui e os erros de ontem serão esquecidos. Um segundo de desatenção ou de uma pequena falha, muda a história de um atleta que até então era intocável no elenco.
Para a maioria, até ontem, o Coritiba era Wilson e mais dez. Bastou uma ou duas falhas para não ser mais. Coisa do futebol, coisas de torcedor, mas que ainda pode ser o bam-bam-bam se conseguir a redenção nas rodadas seguintes.
Agimos mais no desabafo, na raiva num momento como este. Não nos custa nada meter a boca em alguém e responsabiliza-lo pelo fracasso. Somos cobrados a todo instante, por que não repassar a cobrança aos outros, não é?
Unanimidade mesmo é saber que o Coritiba é muito maior que Wilson. Que muitos goleiros com mais história nos deram mais alegrias e respeito. Muito maior que tudo isso é a nossa falta de convicção nas críticas e nos elogios, porque somos torcedores, passionais e também passíveis de erro. Maior que os erros de Wilson são os erros da atual diretoria.
Lá no começo da história do futebol, alguém nos deu esta prerrogativa de se achar no direito de criticar e no dia seguinte elogiar, quem quer que seja, em que circunstância for, porque somos torcedores e torcedor pode tudo. Alguns com bom senso, outros não.
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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