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ArquibancadaSergio Brandão

E agora?

Torcedor se forma na vitória, com títulos, de preferência. Minha filha de 6 anos escolheu se interessar por futebol, ou me acompanhar ao estádio justamente este ano, o segundo pior do Coritiba desde que ela nasceu. Sim, segundo, porque nasceu em novembro de 2009, um mês antes da famosa tragédia de dezembro.

O caminho tem sido de desinteresse, ou menos entusiasmo durante as seguidas derrotas no brasileiro. Mesmo assim, foi me perguntando, pedindo informações sobre as partidas. Como é criança, pouco sabe, não entende direito como é a dinâmica das coisas. Foi se familiarizando com o futebol e por razões óbvias, cada vez mais Coxa, mas sem o interesse de antes. A gota d’água foi a derrota para o Galo, em casa, naqueles inesquecíveis 3x0.

O interesse foi retomado, começou a renascer na vitória dos 3x1 para o Goiás, na estreia de Pachequinho. Foi a primeira coisa que me perguntou quando levantou no dia seguinte. – Como foi o jogo do Coxa, pai? Seus olhinhos brilharam quando disse o resultado. Ali, vi que ainda havia esperança de recuperar uma torcedora, que eu já dava quase como perdida. Ela continua sem entender sobre queda, série A, série B, pênalti... algumas coisas que nem perco tempo explicando. Por enquanto nos damos por satisfeitos entendendo a necessidade de vitórias e as amarguras das derrotas.

Vejo que estas coisas não dependem muito da gente. É possível mostrar o caminho, incentivar, mas a paixão e o amor crescem e se instalam com o que o time faz em campo. Claramente é possível ver isso no Paraná Clube, por exemplo. Fez novos torcedores naquele período mágico de sequência com conquistas estaduais, chegando a ser até o único paranaense na séria A, mas entrou em declínio nos últimos 10 anos e não se levantou mais.Ou como o próprio Coritiba em sua época de ouro nos anos 60 e 70, e uns lampejos nas décadas de 80 e bem poucos também em 90.

O período que o Clube atravessa, assim como foi comigo e tantos outros torcedores, que viram um Coritiba vitorioso, é determinante. A questão agora, está em retomar ou não este caminho. É o que eu e minha filha e toda a torcida esperamos desta diretoria.

Que 2016 seja bem melhor, mas que seja um marco do reinício, não da história de mais um ano, sem base construída, para em 2017 e nos anos seguintes retornar entre os pequenos, brigando novamente para não cair. Não podemos mais viver de temporadas e a cada ano recomeçar. Precisamos de planejamento, visão estratégica, visão de futuro.

Se temos um goleiro sendo aplaudido e eleito como o destaque da temporada, é porque algo deve estar errado. Com nenhum demérito, pelo contrário, seremos eternamente gratos a Wilson, mas ele precisa ser apenas aquela máxima do futebol, que um grande time começa com um grande goleiro.

No Palmeiras parece estar a lição mais recente. Se o Palmeiras fez, por que o Coritiba não pode? O Palmeiras vivia ano passado uma das piores crises de sua história. Deu a volta por cima. Voltou a ser um clube respeitado e termina o ano como campeão da Copa do Brasil.

Há poucos dias, Pachequinho pegou um time desacreditado e até desrespeitado, embora muitos - me incluo neste grupo - diziam que o problema estava no comando técnico - e estava.

Não só pela incompetência, mas principalmente pela teimosia de Ney Franco, em insistir nos erros que todos apontavam , todos viam, menos ele.

Pachequinho nos devolve a autoestima, com três vitórias seguidas e um empate. Com o mesmo time de Ney Franco, sem nada a mais e nem menos. Com os mesmos jogadores que até há poucos dias eram mal falados e questionados por todos - me incluo também neste grupo. A grande sacada e que demoraram pra ver, é que o Coritiba precisava de um fato novo que veio com Pachequinho. Não que ele seja melhor ou pior que outros treinadores.Teve efeito motivador.

Com a água quase batendo no pescoço, acabamos escapamos com um time que não escolhemos e nem de longe é o que queremos para o ano que vem.

Nos despedimos contra o Vasco, jogando um futebol que não deixou nenhuma dúvida: medíocre, como poucos que vi no Alto da Gloria, em mais de 50 anos acompanhado o Coritiba. No máximo, consigo reunir um pequeno grupo deste elenco que terminou este brasileiro de 2016. O resto pode ir embora. Eu ficaria com a unanimidade, começando com o goleiro Wilson, os zagueiros- Walisson Maia e Juninho, João Paulo, Juan, Henrique Dias, Thiago Lopes e Guilherme Parede. O resto pode ser dispensado, sem nenhum medo de erro. Na verdade precisamos de um time quase todo novo.

Mas o que fazer com Pachequinho que conquistou de vez seu lugar no coração do torcedor? O que fazer com mais este salvador da pátria, que acharam de última hora? Eu não o manteria como treinador, mas sua tarefa é no mínimo para ser respeitada. No mínimo tratar este menino como muitos que prestaram serviços relevantes ao clube. Pachequinho merece um lugar de honra dentro da base, ou no próprio departamento de futebol profissional, nas relações entre setores, quem sabe. Na ligação entre diretores e atletas.

Mostrou muita habilidade e trânsito para isso. Eu não efetivaria Pacheco no comando técnico por duas razões: precisa de mais rodagem e não gostaria de vê-lo queimando o filme, no caso de insucesso logo no início do ano. Este é o meu desejo, mesmo sabendo que a tendência é metê-lo.

Nos aproximamos do rebaixamento muito mais que em anos anteriores, e mesmo assim, acho que esta diretoria é bem capaz de esquecer os problemas vividos durante o ano e arrumar uma ou duas medidas paliativas e fazer de conta que arrumou a casa.

Temo voltar das férias e encontrar um Coritiba maquiado, quase igual, começando a temporada 2016. As cobranças precisam começar e devem ser acompanhadas de perto por todos. Não há motivos para confiar nesta turma que está no comando, até que provem o contrario. Fico na defensiva com esta diretoria que não cumpriu o que prometeu, desde que foi eleita.

Preciso apagar este sentimento de pavor que vivemos até aqui. Para não repetir estes mesmos erros, o trabalho precisa ser feito agora, começando hoje, neste domingo à noite, ou já na segunda-feira pela manhã.

Desta vez escapamos por pouco. Com muito mais sorte do que em anos anteriores. Para nunca esquecer e nunca mais reclamar da falta dela. A bola bateu nas duas traves e passou em cima da linha do gol e não entrou por pura sorte. A sorte que nos abandonou o ano todo, reapareceu no finzinho, já nos descontos.

É bom não abusar. Já não tenho mais idade para mais um ano assim.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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