Josué: O Talento Solitário de uma Arte Esquecida
Josué não joga com os pés, joga com o cérebro. É o clássico "camisa 10", uma espécie em extinção não só no Alto da Glória, mas pelo mundo todo. Aquele jogador que enxerga o jogo três segundos antes de a bola chegar nele, que serve os companheiros com a delicadeza de quem oferece um presente e coloca o centroavante cara a cara com o gol, pronto para o arremate. Quando o ataque do Coxa funcionava em sintonia, ainda no primeiro turno, o meia desenhava partidas, mudando o rumo do jogo com a precisão de quem conhece cada centímetro do gramado, fosse onde fosse, em jogos em casa ou fora.
Mas o futebol, na sua cruel coletividade, exige que a orquestra acompanhe o maestro.
Com o fim do momento avassalador e da explosão de Pedro Rocha e Breno Lopes, somados à dolorosa lesão de Lucas Ronier, Josué passou a caminhar por uma solidão poética e indigesta. Continua lá, lendo o jogo da mesma forma. Se movimenta, busca o espaço, ergue a cabeça, acerta lançamentos precisos. O QI de jogo diferenciado permanece intacto. A bola sai de seus pés com destino certo, mas encontra, com demasiada frequência, a ineficiência e o desespero de decisões equivocadas na frente.
O mar de limitações ofensivas ao seu redor ameaça engolir suas melhores criações. É o drama do gênio incompreendido pela limitação do meio em que se encontra. O passe perfeito que se perde porque a corrida não foi feita; a assistência milimétrica que termina no pé descalibrado.
Ainda assim, ver o português jogar é um ato de resistência.
Ele chegou ao Coritiba sem o peso das grandes badalações, como tantos outros estrangeiros que desembarcam no futebol brasileiro. No entanto, nos deu de presente a lembrança nostálgica do futebol cerebral, cadenciado e elegante. Josué é o lembrete vivo de que a beleza do jogo reside na inteligência. Enquanto Josué mantiver a cabeça erguida buscando o passe, o torcedor do Coritiba saberá que, a qualquer momento, a magia de um verdadeiro camisa 10 pode acontecer.
Josué é a minha esperança de ver o Coritiba se salvando do rebaixamento e se assim for, se tiverem que vaiar como fizeram na última rodada, arrumem um jeito de não fazer em respeito a ele.
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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