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Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

O barato que está saindo caro

Faz tempo, mas isso aconteceu e fez parte da história bonita do Coritiba. Jogar aqui, vestir a camisa do Coritiba, era honroso. Foi um tempo de disputa por grandes nomes do mercado nacional. O Coritiba montava grandes times apenas na observação, com o trabalho do que hoje chamam olheiros. Eram muitos. Nossa principal fábrica de craques foi o Santos, provavelmente porque o presidente da época, Evangelino da Costa Neves, era de lá.

Aqui tinha uma equipe de retaguarda, muito eficiente, de garimpo, que buscava craques pelo interior do Paraná, alguns pelo Rio Grande do Sul, muitos vieram em Santa Catarina e até no interior de São Paulo.

Na época, a locomoção era difícil. Avião era coisa de outro mundo e chegar ao nordeste era privilégio do sudeste. Por isso, a preferência por craques do sul, no máximo conseguindo chegar até São Paulo.

A maior loucura feita nos anos 70 foi quando fretaram um bimotor e foram até bandeirantes buscar Paquito e Abatiá, a dupla caipira. Diz o folclore que o avião foi fretado para driblar o Atlético que saiu daqui de carro, também para tentar a contratação dos dois, que na época foram a revelação do Campeonato Regional.

Paquito, Abatiá, Paulo Vechio, Hermes, Oberdan, Hidalgo, Hélio Pires, Claudio, Nilo, Zé Roberto, Rossi, Kisolek, Passarinho, Leocádio, Oromar, Pescuma, Célio, Jairo e tantos outros, vieram porque chamaram atenção em seus clubes nestes estados vizinhos. Uns craques, outros não, mas todos porque foram destaque em seus clubes de origem.

Não havia contratação para teste, para ver no que ia dar, as contratações de aposta, como hoje. Prática comum em muitos clubes, coisa que virou regra no Coritiba, nos últimos anos. Com dinheiro mais curto que o de hoje, nada podia ser no “vamo vê no que dá”. Precisava ser certeiro e tinha que dar certo e todos deram.

Tudo bem, o futebol mudou, é diferente, precisa ser entendido e adaptado aos tempos modernos, em película colorida, não mais em PB (preto e branco).

Só que além da carência de craques neste futebol moderno, não consigo entender por que este futebol de hoje, de filme colorido, precisa ser também burro? Porque quando era em preto e branco, me parecia mais inteligente.

Tá certo que os craques não brotam mais como água, a fonte secou por várias razões, mas parece que ainda é possível ser inteligente, não repetindo os erros que os outros grandes clubes cometem nesta sangria desenfreada que virou o futebol. Um erra e o outro copia. Vira uma bola de neve. Temos um futebol de cópia mal feitas. Deu certo pra um, por um determinado tempo, o clube vizinho copia. Improvisam tudo, remendam... sobram adjetivos negativos nestes termos para definir o que os dirigentes andam fazendo com o futebol.

Outro dia conversava com Alex, sobre o trabalho com a base. Disse a ele que gosto de sentar na arquibancada ao lado dos meninos que moram no Couto. A maioria senta no primeiro e no segundo anel dos fundos. Assistem o jogo em grupos de dois, três, às vezes mais. Fico ali, só ouvindo suas conversas. Falam de tudo, menos de futebol. A maioria nem assiste a partida direito. Assiste por hábito ou por falta de algo melhor pra fazer.

Se estão ali é porque escolheram aquilo como profissão, mas parece não haver nenhum interesse em se desenvolver. Assistir uma partida de futebol entre profissionais, deveria ser uma boa referência, mas não é. Vão fazendo igual aos dirigentes, tudo no improviso e quando chegar a hora de se profissionalizar, vão ver como vão fazer.

A base precisa ser vista de outra forma, o método precisa ser repensado. Não é possível que aprendizes assistam o que deveria ser modelo, mas olham para aquilo com desinteresse.

Mais uma vez , vira e mexe, a coisa cai na mão do dirigente. Depende dele, tudo passa por ele, tudo está nas mãos desta gente que manda no futebol e infelizmente escolhe caminhos desastrosos, colocando o já doente futebol num buraco ainda maior. Pouco se importam com detalhes, que mais adiante, na soma resultam nesta qualidade que a gente anda vendo.

De bonito, sobra a paixão. O amor do torcedor. Mas logo vão conseguir acabar com isso também. Será mais um bando de desempregados. Mais uma categoria de trabalhadores sem emprego. Dirigentes, empresários, atletas e infelizmente suas famílias também.

Voltando ao raciocínio lá do começo do texto:
hoje, a velha máxima de contratar o que havia de melhor no mercado, não existe. Pelo contrário, pelo menos aqui no Coritiba que não disputa mais os grandes nomes do futebol com outros clubes. Se os atletas melhores acabam ficando no meio do caminho, os treinadores também.

Já tivemos Tim- Elba de Pádua Lima, Francisco Sarno, Ênio Andrade, Diede Lameiro, Abel Braga. Agora temos Gilson Kleina, que obedecendo a lógica do mercado de antes, não seria sequer cogitado para trabalhar aqui, só pelo seu histórico, seu currículo que naqueles tempos não serviria para o Coxa.

Por isso, e por tantos outros motivos, esta lógica do mercado, parece burra, porque procuramos o mais barato que acaba custando bem mais caro, onera ainda mais o clube.

Pior, agora os dirigentes ficam com a batata quente na mão, reféns da situação que eles mesmos criaram e não sabem o que fazer, porque a indenização de um contrato burro que assinam com um trabalhador incompetente, custa um dinheiro que eles não tem .

Assim, vão empurrando como podem, tentando levar até onde acharem que podem suportar, afundando o Coritiba em administrações cada vez mais burras, incompetentes, vaidosas, privilegiando discursos vazios, que nada dizem. Apenas enrolam.

Contam novas mentiras todos os dias, e agora ainda acreditam que estão dizendo verdades.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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