O cobrador de ônibus
“Tô me sentindo como amante que apanha, é desprezada, e ainda volta atrás de seu amor” - disse o cobrador de ônibus ao motorista da linha Detran /Vicente Machado. Isso aconteceu na tarde desta segunda-feira, depois do Coritiba ter feito mais uma das suas, desta vez em casa, na derrota contra o Avaí.
- “Não volto mais enquanto não arrumarem a casa, disse o cobrador, arrematando a conversa. “Tá louco, é muito sofrimento”! Ainda sair dali e chegar em casa e ouvir gozação, não senhor, pra mim chega! - disse ele antes do ônibus se encher de passageiros e perder o contato visual com o motorista.
Se ateve ao seu celular, enquanto atendia novos passageiros. O rapaz parecia ser antigo na linha. Conversava e brincava com todos que chegavam. Me chamou atenção o bom humor, mesmo com o time do jeito que tá.
Mais na frente fico intrigado com o tanto que dedilha aquele celular. Me aproximo dele três pontos antes de descer do ônibus. Olho melhor e vejo números em seu aparelho.
Puxo assunto e pergunto do Coxa. - “E seu time”? Ele me olha com cara desconfiada, achando que deveria ser mais alguém com gozação. “Tá mal, mas vai melhorar”, me responde ele um pouco brabo. Sorrindo digo “é isso aí, não dá mole pra gozação, não”. Rapidamente, antes de me queimar com o fogo que saia dos seus olhos, me apresento como Coxa-Branca também. O cara respira aliviado. Esta livre de mais uma gozação.
-“ Você acredita mesmo que vai melhorar”?- perguntei. Ele aponta por celular e me mostra uns cálculos que estava fazendo projetando os próximos resultados, contando muito otimista com pelo menos 4 pontos nas próximas duas rodadas, com o Coxa jogando fora (Fluminense e Inter). Digo a ele que eu não contaria com nenhum ponto, quem sabe, com um pouco de sorte, um ponto num empate chorado contra o Fluminense.
O cálculo dele também ainda previa o tropeço do Atlético e somando os pontos que imagina que o Coxa vai ganhar, e que o Atlético vai perder, coloca o Coritiba na frente. Coisa de torcedor se agarrando nas ciências exatas, tentando nela a redenção.
Logo depois, me despedi e desejei sorte ao Coritiba. Desço e caminhando até em casa, fiquei pensando no sofrimento dele e de tantos outros torcedores iguais a ele. Quem sabe a maioria. Pensei o quanto o torcedor é mesmo desprezado e incompreendido.
Imaginei que deveria ter alguma forma de sensibilizar aquela turma que joga, que dirige, e que comanda o futebol no Alto da Glória, com cenas como aquela que eu acabava de ver. Um cidadão puro, inocente, loucamente apaixonado pelo seu clube, mas desprezado, não tolerando sequer brincadeiras com a situação. Aquilo era a coisa mais séria do mundo para ele.
Esta turma que comanda o futebol, nem imagina que lá fora, histórias como esta mudam uma vida, mudam situações, às vezes até adoecem uma pessoa.
Sem contar que seja qual for os motivos que levam o cobrador da linha Detran/ Vicente Machado, ao estádio, ele ainda paga para sentar naquela arquibancada, onde anda sendo desprezado. E que este dinheiro talvez até faça alguma falta em algum momento.
Esta gente que comanda o futebol, deveria voltar a sentar um pouco na arquibancada, sabe. Deviam passar por testes como dirigir automóvel. Só tira carteira de diretor, de conselheiro, depois de longos anos de arquibancada, sem nenhum poder. Apenas gritando e reclamando e esperneando, como todo torcedor.
Quanto aos jogadores, acho que uma passagem obrigatória pela linha Detran/Vicente Machado, todo começo de semana daria um pouco de ensinamento do que é amor a um clube de futebol. Teriam muito que ouvir e aprender com o meu amigo cobrador.
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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