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Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

O cobrador de ônibus

“Tô me sentindo como amante que apanha, é desprezada, e ainda volta implorando amor" - disse o cobrador de ônibus ao motorista da linha Detran /Vicente Machado. Isso no começo desta tarde de segunda-feira (22), na véspera de jogo do Coritiba, que segundo o cobrador “vai mais uma vez fazer das suas, tenha certeza," -conclui ele." Mais uma luta dentro de casa pra ganhar de um time mequetrefe lá de Goiás”, disse ele em voz com volume bastante alto.

“Não volto mais enquanto não arrumarem a casa, disse o cobrador, arrematando a conversa. “Nem por cincão o ingresso. Tá louco, é muito sofrimento”! Ainda ter que sair dali e chegar em casa e ouvir gozação da patroa... não senhor, pra mim chega! - disse ele antes do ônibus se encher de passageiros e perder o contato visual com o motorista.

Se ateve ao seu celular, enquanto atendia novos passageiros. O rapaz parecia ser antigo na linha. Conversava e brincava com todos que chegavam. Me chamou atenção o bom humor, mesmo com o time do jeito que tá.

Mais na frente fico intrigado com o tanto que dedilha aquele celular. Me aproximo dele três pontos antes de descer do ônibus. Olho melhor e vejo números em seu aparelho.

Puxo assunto e pergunto do Coxa. - “E seu time”? Ele me olha com cara desconfiada, achando que deveria ser mais alguém com gozação. -“Tá mal, mas vai melhorar”, me responde ele um pouco brabo. Sorrindo digo “é isso aí, não dá mole pra gozação, não”.

Rapidamente, antes de me queimar com o fogo que saia dos seus olhos, me apresento como Coxa-Branca também. O cara respira aliviado. Estava livre de mais uma gozação.
“Você acredita mesmo que vai melhorar”? - perguntei. Ele aponta pro celular e me mostra uns cálculos que estava fazendo, projetando os próximos resultados, contando muito otimista com pelo menos 4 pontos nas próximas duas rodadas, com o Coxa jogando uma em casa e outra fora.

O cálculo dele também ainda previa o tropeço dos adversários próximos e somando os pontos que imagina que o Coxa precisa ganhar, e os que os adversários precisam perder, acabam colocando o Coritiba na frente, finalmente entre os quatro primeiros, quem sabe. Coisa de torcedor se agarrando nas ciências exatas, tentando nela a redenção.

Pensei e concluí que o torcedor é mesmo a parte mais frágil desta relação. Que deveria ter uma forma de sensibilizar atletas e dirigentes com cenas como aquela que eu acabava de ver. Um cidadão puro, inocente, loucamente apaixonado pelo seu clube, mas desprezado, não tolerando sequer brincadeiras com a situação. Aquilo era a coisa mais séria do mundo para ele.

Esta turma que comanda o futebol, nem imagina que lá fora, histórias como esta mudam uma vida, mudam muitas coisas, às vezes adoecem uma pessoa.
Sem contar que, seja lá quais forem os motivos que levam o cobrador da linha Detran/ Vicente Machado, ao estádio, ele ainda paga para sentar naquela arquibancada, onde anda sendo desprezado e por isso jura que não volta mais.

Aliás, a arquibancada deveria ser o primeiro estágio de um dirigente que postula os gabinetes de um clube de futebol. Deviam passar por testes, como dirigir automóvel, por exemplo. Só tira carteira de diretor, de conselheiro, depois de longos anos de arquibancada, sem nenhum poder. Apenas gritando, reclamando e esperneando, como todo torcedor. Acabo de lembrar que Samir fez este caminho, mas deve ter colado na prova final.

Quanto aos jogadores, acho que uma passagem obrigatória pela linha Detran/Vicente Machado, todo começo de semana daria um pouco de ensinamento do que é amor a um clube de futebol. Teriam muito que ouvir e aprender com o meu amigo cobrador.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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