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ArquibancadaSergio Brandão

O futebol mudou, o atletiba também

Onde anda o atletiba, além das poucas manifestações que vejo? O atletiba da Boca Maldita, da Rua Xv, do Bate boca nos pátios das escolas, das camisas que se via pelas ruas, na véspera de clássico? Tinha provocação, apostas, deboches lembrando os resultados mais marcantes.

Mas parece que o atletiba ainda não morreu. Sobrevive, passa por um momento de mutação, quem sabe. Talvez seja mesmo a tendência dos campeonatos regionais. Num futuro muito próximo, vai servir para revelar as categorias de base, como tentou e não conseguiu o Atlético, em anos anteriores. Ou apenas será história para ser contada?

Nem nas arquibancadas as duas torcidas representam mais aquele calor que se via nos bons e velhos tempos. Coisa que tomava conta da cidade durante muitos dias, a semana inteira. Até quem não gostava de futebol sabia do clássico.

Torcidas e times não se acertam mais. Quando tem gol, não tem gente pra ver. Sem ídolo, sem bate-boca, sem torcida e ainda sem estádio. Como o atletiba de alguns anos trás que chegou a ser disputado na casa de um outro adversário (Vila Capanema), às 7 e meia da noite.

Sou do tempo que o frango assado do almoço de domingo, já vinha com sabor de atletiba. Atletiba era a sobremesa de domingo, não o jantar, como nos últimos anos.Era almoçar, escovar os dentes e todos os caminhos levavam ao Belfort Duarte ou ao Joaquim Américo, ou ainda no bom e velho Couto.

Você que nasceu na década 90, que ouve falar dos grandes clássicos, herdou o que há de melhor do futebol paranaense - que viveu seus momentos de glória nas décadas de 50, 60 e 70. A você, fica a responsabilidade de repassar a paixão por um atletiba daqui pra frente.

Atletiba de Kruger, Jairo, Sicupira, Nilson Borges, Passarinho, Claudio, Belini, Dirceu, Abatiá, Zé Roberto, Toinho, Ziquita, Nilo ...

É difícil engolir a falta ou a pouca emoção quando o assunto é atletiba. Acho que a falta de ídolos é um pouco responsável por isso. O último a jogar um atletiba, com sangue na veia, quem sabe tenha sido Alex. Claro, inesquecível também Bill e Tuta, nos jogos lá na casa deles, com gols memoráveis, lembrado pelo Ricardo Honório em sua coluna.

Jogar uma partida desta importância, era como representar o país numa guerra. Não sei se jogar um atletiba não é mais importante até que ser convocado para defender a seleção brasileira, nos dias de hoje.

Algumas vezes vi a verde e branca e a vermelha e preta saírem ensanguentadas depois dos 90 minutos. Tudo pelo calor da disputa.

O futebol mudou, o atletiba também. Mas era na rua onde tudo começava, e onde ainda se respira um pouco da magia do clássico, onde pode estar a redenção dele.
É onde pelo menos percebo mais o amor e a rivalidade. Onde já se viu um atletiba com pouco mais de 6 mil pessoas na arquibancada, como o do ano retrasado, disputado na casa do Paraná Clube? Não é o caso deste clássico de domingo, mas ainda passa longe dos públicos que lotavam o estádio do Coritiba, o único capaz de atender as necessidades da época, muitas vezes recebendo perto de 40 mil pessoas.

Hoje, os dirigentes espantam a torcida, oferecendo carga menor de ingresso, sem nenhum interesse que o adversário compareça à festa. Sinal dos tempos.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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