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ArquibancadaSergio Brandão

Paquito e Abatiá

Por sugestão de um amigo, leitor do blog, a partir de hoje, pelo menos uma vez por semana, quero contar um pouco da história do Coritiba. Principalmente agora, quando a torcida não tem muito para comemorar. Quem sabe alguma reminiscência traga alento. Quem sabe lembrando do que fomos um dia, as boas lembranças nos tragam energias melhores. Começamos hoje. Vamos lá!

Em 68 e 69 o Coritiba levanta o bicampeonato, tendo Paquito disputado o seu último campeonato pelo União de Bandeirantes, como artilheiro do campeonato com 22 gols. Coisa que hoje, nem de longe é possível imaginar. Mas na época o feito chamou atenção de Evangelino e dirigentes do Coxa. Aqui vale um parênteses. Naquela época, grande parte dos craques dos times da capital, vinham do interior. Foram dezenas que desembarcaram no Alto da Glória.

Paquito chegou antes no União. Tião, foi cria de Abatiá, mas começou no Cambará um pouco depois. No União, os dois construíram a dupla infernal. Não tinha perdão, todo jogo tinha um, dois ou até três gols de Paquito ou Abatiá. Foi quando a diretoria do Coritiba resolveu reforçar o time para o segundo semestre, para o Campeonato Brasileiro, em 1971.

Os dois “caipiras” estavam de férias. Almir de Almeida, o todo poderoso do departamento de futebol do Coxa, entrou em cena. Pegou seu avião e foi atrás dos dois. Almir chegou com uma proposta irrecusável a Serafim Meneguel, presidente do União de Bandeirantes, na época.

Paquito não se animou com a ideia. Mas Tião Abatiá, sim. O Coritiba não abria mão da negociação: os dois ou nenhum. Paquito ficou ainda menos animado quando soube que o sim também implicaria em vir para Curitiba de avião. Era um avião pequeno, do tipo Teco-teco. Tião insistiu, Paquito acabou cedendo e os dois vieram.

Chegaram e logo na primeira partida os dois fizeram um gol cada. A estreia foi contra a Portuguesa, na vitória de 2x1. Os dois caíram nas graças da torcida. Assim nasceu a dupla caipira. Também tinha no Coritiba um antigo companheiro de União Bandeirante, o zagueiro Pescuma, que estava no Alto da Glória desde março daquele ano. Os três eram muito amigos desde o tempo de União.

O certo é que a atuação de Paquito e Tião Abatiá com a camisa do Coritiba, naquele Campeonato Brasileiro de 1971, foi suficiente para convencer o presidente Evangelino a comprar o passe dos dois.

Paquito ficou no Alto da Glória por três temporadas, conquistando três títulos estaduais. Em 1974, foi vendido para o Santa Cruz. Abatiá ficou cinco temporadas. Colecionando títulos, inclusive o de fita azul, Torneio do Povo em 73, títulos estaduais e boas campanhas em Brasileiro.

Foram cinco anos de glórias. Bola de Prata, prêmio conferido pela revista Placar na época. Disse Abatiá certa vez que receber aquela Bola de Prata , foi como ser convocado para a Seleção Brasileira.

A cena inesquecível de Abatiá foi a clássica cena de cinema, protagonizada numa partida contra o Atlético Mineiro.

O adversário não era qualquer um - o Atlético-MG que naquele ano foi o primeiro campeão brasileiro, na mudança que colocou os campeonatos estaduais em segundo plano.

O Coritiba vencia o jogo no Belfort Duarte. Domingo, dia 3 de outubro de 1971, com um golaço de Paquito aos 19 minutos do segundo tempo. O jogo estava terminando quando tudo começou. Quase 45 minutos do segundo tempo, Hidalgo lançou a bola para Paquito, que fez o passe na esquerda para Tião Abatiá, que entrou na área, driblou Humberto Monteiro, driblou Vantuir, driblou Grapete, driblou o goleiro Renato, que foi tentar consertar o estrago. O goleiro levou mais um drible, protegeu o ângulo, mas ficou sem saber o que fazer. Imagine tudo isso no gol dos fundos, hoje Couto.

Abatiá ficou sem ângulo para chutar ao gol e cruzou na medida, na cabeça de Leocádio, que cabeceia em direção do gol vazio, mas a bola passa do lado, indo para fora.

Quando isto aconteceu a torcida já estava de pé e apesar de o gol não ter saído, aplaudiu a cena e não parou mais de bater palmas.
A cena foi comemorada até pelo adversário, que tinha Dario, o Dadá Maravilha do outro lado. Dada disse “Olha, isso que o Tião Abatiá fez não existe no futebol. Foi uma coisa impressionante”.

A jogada foi de uma perfeição plástica tão grande que muitas emissoras de televisão usaram a cena durante anos como abertura de seus programas esportivos.

Na semana que vem a gente volta com mais uma destas histórias. De um Coritiba de fato “ Maior”!

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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