Somos todos Miguel !
Depois de alguns dias de tentativas e até de frustrações, lá foi Miguel para mais uma vez tentar fazer seu “tour pelo Couto Pereira”. Antes, além do aviso na página do clube, que falava dos horários, preços e como tudo funciona, sua mãe ainda se certifica disso tudo para ter certeza e mais uma vez tentar poupar o menino de nova frustração.
Escolheram o primeiro horário da tarde, o da uma e meia. Esperaram mais de duas horas para que o tour finalmente fosse começado, (assim como os torcedores que esperam algumas rodadas para que o time finalmente vença uma partida).
Mas finalmente o sonhado passeio de Miguel, começa.
Miguel vestido de Coxa, dos pés à cabeça, vidra os olhos em cada lugar que passa. Se encanta com o vestiário, sala de troféus, arquibancada e gramado. Sempre acompanhado pelos olhos atentos da mãe e de um funcionário do Coritiba, que pouco fala e pouco sabe sobre as histórias do clube. Em 40 minutos, Miguel está diante de uma história de mais de 100 anos. Imagina você, tudo isso diante de apenas 8 anos de vida, a idade do menino Miguel.
A relação do tour com o visitante não é nada profissional. Parece apenas mais uma ideia criada com a melhor das intenções, mas que sobrevive porque já se incorporou à rotina de alguns funcionários. Mas passa longe de ser um evento agradável, que atraia o torcedor, que seja um bom e inesquecível programa entre visitante e o Coritiba. Não emociona, não evolve. Apenas coloca o torcedor dentro de espaços que sempre sonhou conhecer. Por isso, só por isso, já teríamos um bom motivo para fazer do “tour pelo Couto”, um grande programa.
Seus organizadores não parecem viver com o clube a mesma relação que o torcedor. Não parecem ter a mesma relação mágica que o torcedor alimenta. Ou pelo menos, no mínimo, não parecem saber tirar proveito disso.
Especialmente no caso do menino Miguel , que por morar em outra cidade, está longe do seu clube do coração e sequer viu seu time jogar, ao vivo, sentado numa arquibancada do Couto Pereira. Não há um brinde, uma lembrança, uma palavra, um contato com um ídolo. Um seja "bem-vindo, Miguel". Algo que personalize a visita.
Como me disse a mãe de Miguel, “nem um vídeo”, que seja num monitor de TV, ou num telão, com alguns dos melhores momentos do Coritiba, contando algum trecho da centenária história do Clube.
Uma proposta de sócio, um panfleto, um convite para aproximar a relação entre torcedor e Coritiba. Algo que atraia e cative. Não envolve, não emociona. Tratam o visitante como o sócio-torcedor, que garante o seu direito de entrar no estádio, sentar na arquibancada, mas desde que pague sua mensalidade. No caso da visita, o preço cobrado é de 15 reais.
Miguel saiu do Couto Pereira como entrou. Vestido de Coxa, com as roupas que sua mãe lhe comprou na Coxa Store, mas com um sonho realizado. Miguel voltou para a cidade onde mora, longe daqui, com algumas lembranças sobre o time que escolheu para torcer, as fotos tiradas por sua mãe. E fica lá, em Santa Catarina, sabendo do seu time apenas por noticias da internet e TV.
Ainda não assistiu uma partida sequer do Coritiba no Couto. E esta historia é tão forte como muitas outras que acontecem nestes "tours" pelo Couto, mas que passam, ninguém vê, e só aparecem em relatos como este.
Fico pensando aqui: quantos torcedores não são perdidos no meio do caminho? Ou por falta de investimento do próprio clube, ou por conta do desempenho do time em campo (nos últimos anos). Quantas campanhas de novos sócios são começadas, mas sequer sabem ou se preocupam com este tipo de problema. Sou capaz de apostar que nem o perfil de torcedores como Miguel, eles conhecem.
Miguel só conseguiu fazer o tour por conta da insistência de sua mãe, que bravamente correu e persistiu, mesmo que o serviço oferecido na página do clube tenha parecido fácil de ser usado. Na verdade foram dias tentando entrar no Couto, mas nem o telefone atenderam. As informações foram conseguidas por amigos, que se meteram na história para ajudar. Do contrario, Miguel poderia ter voltado para casa sem ter conseguido entrar no Couto. Não fosse a teimosia da mãe, Miguel teria visto o Couto, só pelo lado de fora.
O Coritiba precisa se profissionalizar também em outros setores.
“Somos todos Miguel!”
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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