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ArquibancadaSergio Brandão

Torcida azeda 2

Não é novidade por aqui que tenho uma filha de 6 anos, que até o ano passado me acompanhou em algumas partidas no Couto. A última foi nos 0 x 2, contra o Inter, quando tudo indicava a queda para a segunda divisão do brasileiro. Claro, não é preciso dizer que ela não entende absolutamente nada do que acontece ali dentro do gramado, mas assim como eu, que comecei a frequentar estádio aos três anos, foi deixando se levar pelo amor ao Coritiba e ainda consegue nutrir algum interesse. Mas com as sucessivas derrotas e o desempenho do time, já percebo algum desinteresse da pobre torcedora.

Isso me faz lembrar um texto que publiquei aqui, sobre a formação do torcedor. Entre tantas coisas, dizia basicamente que uma nova geração de torcedores é formada nos melhores momentos do clube, com desempenho do time em campo. Títulos e vitórias são necessários para segurar um torcedor em torno de um clube, frequentando a arquibancada.

Temos no futebol do Paraná, dois bons exemplos. Um positivo e outro negativo. O positivo foi quando o Paraná Clube viveu seus anos de glória e formou um grupo de torcedores que na época tinha lá seus 10 anos e que hoje está entre seus 25, 30 anos de vida, e que já não vê o time com a mesma eficiência , aquela do início dos anos 90.

No Coritiba temos o exemplo contrário, o negativo. Uma geração como a da minha filha, que mal começou a gostar da brincadeira, já se desilude por conta do desempenho do que vê e entende. As derrotas e fracassos sucessivos, são os fatores que determinam o caminho. Este ano minha filha ainda não voltou ao estádio, mas sabe quando o Coxa joga e sempre pergunta. Ultimamente ela se interessa ou não em função dos resultados. O Coritiba anda formando uma geração de sofredores.

Estou tentando dizer que temos uma torcida nova, mas por imposição. Formada muito mais por tradição familiar do que por simpatia, caso do meu pai, que quando chegou em Curitiba vindo de Campo Grande, nos anos 40, simpatizou com as cores e formou seus filhos, todos envolvidos e apaixonados pelo Coritiba.

De uns anos para cá, o futebol virou um grande negócio e com isso também perdeu em qualidade. Quem viu, ficou com a história para contar , quem não viu, fica com o que oferecem hoje. Uma geração mal humorada, azeda. Benitez, Vinicius, Leandro, Lucas Claro, Juan, Ortega, Negueba, Dudu, são os protagonistas do que é o Coritiba hoje.

Ir ao Couto tem sido mesmo um exercício do amor incondicional. A cada rodada, a cada jogo, o termômetro é colocado em teste, e não há outra opção a não ser reclamar, protestar, se debater contra este estado de coisas que se instalou dentro do Coritiba. Só que os dias passam, a rodada seguinte chega e as coisas acabam se acomodando. Na rodada seguinte, lá estamos nós achando que “agora a coisa vai”. Mas não “vai”. Ficamos nesta gangorra. Acreditando e desacreditando. A culpa é deste amor.

Por causa dele, deste amor, estamos nos moldando como o torcedor sofredor – aliás, frase que usei na semana passada em outra coluna.

Comportamento típico de torcedor de clube pequeno, de torcida pequena, mas de gente apaixonada. É como batom na cueca. Não tem explicação, não há argumento. Só o amor cego pode levar esta relação adiante.

Tocamos a vida assim mesmo, vamos nos acostumando com o sofrimento e com a enganação. Continuamos nesta toada acreditando em dias melhores, embora nossos dirigentes não nos deem motivos para isto. Só o amor explica, só o amor nos leva ainda a acreditar em dias melhores.

Semana que vem, a coisa precisa “ir”, precisa dar certo. Porque do outro lado também terá uma outra turma muito parecida com a nossa. Também cansada de ser enganada, com um histórico muito parecido com o nosso. Só que com eles temos uma conta bem maior. Perder neste caso, pode significar muito mais que perder para o PSTC, Toledo, Jotinha e outros tropeços que certamente teremos pela frente.

Em uma semana a casa precisa cair e ser reerguida, porque é semana de atletiba. Precisamos frequentar agora a parte de cima da gangorra nem que seja apenas mais uma única vez, por mais uma semana, apenas mais uma semana.

Minha filha pode não entender de futebol, mas sabe o prazer que tem em vencer o Atlético, na casa deles.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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