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ArquibancadaSergio Brandão

Torneio do Povo

Já faz tanto tempo - 42 anos - e ainda tenho clara na memória aquela noite de quarta-feira. Eu na cozinha de casa, com meu pai e o Coritiba lá na Fonte Nova. O rádio nos aproximava, com uma voz clara, forte e emocionada, trazendo pelas ondas médias da Clube Paranaense, o primeiro título nacional - o Torneio do Povo.

Naquele 21 de março de 1973, em Salvador, na Bahia, o Coritiba tinha como meus representantes, Jairo, Orlando, Oberdan, Cláudio e Nilo; Hidalgo, Negreiros e Leocádio; na frente, Hélio Pires, Zé Roberto e Aladim. A primeira grande escalação que jamais esquecerei.

Como no título Brasileiro de 85, antes o Coxa também havia eliminado outros grandes: Flamengo, em pleno Maracanã, Internacional, Atlético Mineiro e Corinthians. Jogava na Bahia pelo empate. Saiu na frente com gol de Aladim, com um chute na entrada da área, ainda no primeiro tempo.

Com 12 em campo, - o árbitro José Marçal Filho - facilitava as coisas para os baianos, nos fazendo jogar dobrado para trazer aquele sonho pra casa. Nem o gol do Aladim dava sossego. Faltas invertidas, dureza na interpretação em jogadas normais. Tudo era deles. Pelo menos era o que dizia o locutor no rádio, e depois confirmado por todos que lá estiveram.

Com um time de qualidade, mas inferior ao do Coritiba, e pressionado pela torcida, os baianos empatam e viram a partida, ainda no começo do segundo tempo. O segundo gol claramente irregular e curiosamente foi com ele que a história da partida começa a mudar. A reclamação Coxa parecia selar o fim do sonho de levar pra casa o primeiro título nacional de um clube paranaense. A situação piorou quando os ânimos serenaram, e depois de muita reclamação o árbitro decide expulsar Cláudio e Hidalgo. Se com 11 já estava difícil, imagina com 9? Sem dois dos principais jogadores: um cerebral, Capitão Hidalgo, e o guerreiro zagueiro Cláudio Marques, deixava o sonho mais distante, quase impossível?

O árbitro não sabia, mas também colocava fim a um sonho pessoal - o de Hidalgo - de conquistar o título Belfort Duarte, láurea máxima do futebol a atletas que nunca haviam sido expulsos durante toda a carreira.

Mesmo assim, o que parecia impossível, aconteceu. É que no banco, havia um outro craque. O único com poderes, que com uma "varinha mágica" mudava o rumo de uma parida de futebol – o único com poderes que nunca mais vi em toda minha vida de torcedor. Tim, Elba de Pádua Lima, o mestre dos mestres do futebol.

Tim mexeu de tal jeito no Coritiba, que transformou o jogo. A situação parecia inversa. O Bahia sumiu e o Coritiba cresceu. Foi apenas uma substituição e algumas mexidas em posições, que mudariam a história daqueles 90 e tantos minutos. A Bahia ainda com 12 e nós com 9. Hélio Pires, no final da partida empata o jogo. O Coritiba conquistava o primeiro título brasileiro e iria para a história como o primeiro clube do sul do Brasil a conquistar um título nacional. Na época, nem o Inter tinha tal conquista.

Como não gostar do passado se o passado só me traz só boas lembranças?

Coritiba, Campeão do Torneio do Povo, em 21 de março de 1973. Uma quarta-feira, em Salvador, na Bahia. Um dia que foi para a história do futebol brasileiro, escrito pelo Coritiba.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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