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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Ah! Edson Bastos!


Em coluna postada no último dia 12, sob o título ”O chute na porta foi dado” (atenção editores, não sei fazer o link), afirmei, dentro da análise de alguns fatores que mereciam atenção no time do Coritiba, que Edson Bastos “é um bom goleiro, sim, bom, mas não mais do que bom, não ótimo e nem excelente".

É sabido que equipes de futebol só têm sucesso quando dispõem de pelos menos três destaques, mas destaques mesmo. É recomendável que sejam o zagueiro “xerife” e o avante “matador”, mas que primeiro tenha um goleiro absolutamente confiável e que cresce nas horas fundamentais.

O goleiro ótimo ou excelente é indispensável. Alguém lembra de alguma equipe vitoriosa (mas vitoriosa mesmo, com grandes conquistas e em sequência) que não tivesse no gol um dos seus destaques? O Coritiba da incrível sequência de títulos estaduais e “beliscões” no título nacional na década de 1970 tinha Jairo, o time campeão do Brasil contava com Rafael e até no último ano em que nos classificamos para a Copa Libertadores da América contávamos com o ótimo Fernando, hoje no Vasco da Gama. E o velho Manga, em 1978, cuja personalidade na decisão nos três jogos decisivos e nos pênaltis (parecia que só de olhar para o cobrador deles já era meia defesa) foi fator fundamental*.

Eram goleiros que às vezes falhavam, como todos falham aqui ou ali, pois nenhum é perfeito nem nunca foi, embora nossa memória costume ser seletiva em relação aos ídolos – deles só lembramos os acertos, jamais os erros. Mas a diferença entre o goleiro excelente ou ótimo para o goleiro bom, é que aqueles jamais falham nos grandes jogos ou nos decisivos, hora em que crescem e dão confiança à equipe. Até parece que agem, consciente ou inconscientemente, com a seguinte lógica: já que todo o goleiro, por melhor que seja, falha, vou fazê-lo em jogos não decisivos ou de menor importância, ou quando a vitória já estiver assegurada, para crescer e dar confiança nas partidas fundamentais.

Não há como afastar que é Edson Bastos é um goleiro que está marcado positivamente na história do Coritiba. Foi campeão estadual em 2088, bicampeão em 2010 e 2011, campeão da série B (título que nunca mais quero disputar) e em várias partidas fez defesas que nos garantiram a vitória ou o empate. Merece nosso reconhecimento e o que fez de bom é inapagável. Mas não é excelente ou ótimo e, para o enfoque da coluna de hoje, devemos lembrar que futebol é momento, como diz o lugar-comum dos comentaristas esportivos, e Edson Bastos não está inspirando confiança. E o que é pior, tem falhado em jogos fundamentais.

Ultimamente, o busílis (pronto, dificultei a leitura do texto) da questão me parece estar na dificuldade do Edson Bastos para bolas chutadas de longe. Se o adversário está na pequena área, em meio à confusão Edson Bastos surge e normalmente abafa o lance, mas quando a bola é chutada – ou cruzada - de longe, é evidente a sua dificuldade. Assim foi na decisão da Copa do Brasil, cuja perda quase todos trataram de debitar ao técnico por sua inexplicável mudança de esquema e ingresso de atleta até então nem sendo relacionado, esquecendo que o Edson Bastos tomou o segundo gol do Vasco através de um despretensioso chute da intermediária (tenha havido ou não algum desvio, polêmica que ainda rende, teve ele tempo e espaço para acolher a bola com tranquilidade). E assim foi no atleTIBA de ontem. Sei que alguns já disseram que aquele tipo de bola jogada para cair por trás da zaga é traiçoeira (quando eu era menos jovem, diziam “truvisca no fedor que o beque põe para dentro”) e muitos gols têm acontecido desse modo há algum tempo. Mas por ser previsível a jogada, não era o caso de os goleiros já terem preparado o antítodo, por exemplo se antecipando para tirar a bola de soco, ainda no alto? E se a bola cai, como caiu, ao lado do seu corpo, não seria o caso de ir com vigor e não com a malemolência que o Edson Bastos foi (quem rever o lance constatará a justa irritação do dedicado Lucas Mendes, olhando para o Edson Bastos)? Lembre-se que no jogo contra o Palmeiras ele tomou o gol do Marcos Assunção nas mesmas circunstâncias, chute de longe, bola caindo à sua frente e malemolência para ir de encontro. Não era para ter aprendido?

Ah!, mas foram apenas dois jogos em que assim aconteceu, dirão. Até não sei se as falhas se limitaram a essas, não sou bom em estatísticas e nem tenho na memória a forma como todos os gols que sofremos foram tomados. Os amigos mais atentos haverão de lembrar.

Mas o que importa não é isso, mas sim o momento do Edson Bastos, a clara dificuldade em chutes de longe e a não incorporação de espírito de crescimento, aquele agigantamento que se espera do goleiro nas horas decisivas. Merece todo nosso respeito pelo que já fez e conquistou, mas não tenho dúvida de que o momento não é bom e está na hora de uma reflexão, dele e da equipe técnica, sobre se não seria o caso de uma quarentena para que treine, corrija as falhas e cresça técnica e emocionalmente, enfim, receber um upgrade como se diz em linguagem da ciência de informática.

Gostaria muito de ver um Edson Bastos voltando a deixar o campo após uma vitória do Coritiba, com a nossa torcida gritando “Ah! Edson Bastos!” e não a do adversário como, para tristeza nossa e principalmente dele, aconteceu ontem.

*. Faço o contraponto: na Copa do Mundo de 1982 o Brasil tinha um super-time, com Sócrates, Zico, Júnior e outros, mas e o goleiro não era confiável. Talvez muitos nem lembrem ou saibam quem foi, tamanha sua inexpressividade. Chamava-se Valdir Peres.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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