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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Carência rubro negra



A psiquiatria considera a necessidade exagerada de auto-afirmação como um distúrbio ligado à carência e complexo de inferioridade. Quanto mais o indivíduo não tem virtudes e sente necessidade de tê-las, mais trata de proclamar que as tem na esperança de que os demais acreditem.

Assim, quando alguém sabe que não tem determinadas virtudes ou qualidades, e isso o faz se sentir menor e inferior, trata, às vezes até inconscientemente, de proclamar em contrário, buscando com isso esconder a inferioridade que sente, repetindo a afirmação na esperança de que ele próprio e os demais acreditem no qualificativo que proclama.

Isso ocorre, por exemplo, com os homens setentões que vivem a dizer em alto e bom som que não precisam e nem usam medicamentos para manter vida sexual. Mas escondidos, em outro bairro distante de onde moram e de forma discreta, tratam de comprar o comprimido azul, quando não usam outros métodos que a medicina oferece. Não há nada de mais em buscar socorro químico para os distúrbios na área em questão, mas aquele que se sente inferiorizado perante os mais jovens e não sabe aceitar o declínio da sua virilidade, torna-se carente e tenta fazer com que os amigos acreditem que a idade não o atingiu, ainda que intimamente saiba que não é assim.

Da mesma forma, um desonesto, com medo de que o apanhem, pois intimamente sabe que não o é, vive condenando a desonestidade dos outros e proclamando a sua. Repete isso reiteradamente na esperança de que muitos ou alguns acreditem e no dia em que for apanhado ninguém creia na acusação.

Os amigos devem conhecer pessoas que agem assim.

É conhecida a afirmação do Ministro da Propagando do III Reich, Joseph Goebbels, no sentido de que uma mentira mil vezes repetida pode se tornar uma verdade. Voltaire afirmou “menti, menti, que algo ficará”.

Qual o sentido do texto até aqui?

É que me ocorreu ao ler a coluna de hoje de conhecido cronista esportivo rubro-negro que, de tempos em tempos, como se constasse do seu calendário como obrigação, ao se referir ao seu clube de coração coloca como se um aposto a expressão “o maior clube do Paraná”. No mesmo tom do dele, que gosta de citações para mostrar sua erudição (provavelmente a tem, não ponho em dúvida), enquadro a afirmação nos conceitos que lancei acima: carência, complexo de inferioridade, necessidade de afirmação e repetição de inverdade visando a que de tanto ser lida alguns nela acreditem. Não se conclua, fique claro, que penso ou quero dizer que o colunista seja mentiroso, jamais. Apenas afirmo que a paixão o leva a escrever e repetir inverdade, na tentativa de que pela repetição um dia se torne verdade. Nada mais do que isso. Respeito o colunista, tenho que o seu estilo é invulgar, mas a paixão distorce a sua visão, levando-o a fazer afirmações que não encontram eco na realidade.


Pode ser o maior clube de futebol do Paraná aquele que tem muito menos conquistas do que o verdadeiro maior, o Coritiba (35 campeonatos estaduais contra 22, entre outras diferenças)? Pode ser o maior clube do Paraná aquele que há muito só cresce com ajuda do Poder Público? Pode ser o maior clube de futebol do Paraná aquele que tem menor média de público no estádio (onde efetivamente se mede torcida) do que o rival? Pode ser o maior clube do Paraná aquele que no confronto direto com o rival tem expressivo saldo negativo? Pode ser o maior do Paraná aquele que nem se aproxima do recorde mundial que o Coritiba alcançou no corrente ano e que persistirá por tempo imensurável? Paro por aqui nas comparações para não cansar os amigos leitores.

Novamente ao gosto do ilustre cronista de mostrar a sua erudição, encerro lembrando que Sócrates afirmava que quem melhor conhece a verdade é mais capaz de distorcê-la.

Saudações do verdadeiro maior clube do Paraná.


O comentário do comentarista:

O comentário que reproduzo sobre a coluna anterior é do sempre presente CRBecker: "interessante você ter citado o Leocádio, outro dia aqui em Santos estava passando uma matéria sobre o futebol amador da região e adivinhe quem estava no time de masters? Ele mesmo, firme e forte, apesar da idade."
Só quem viu Leocádio pode dar o valor que o Becker e eu damos a ele.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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