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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Chutar a porta do vestiário





Os amigos sabem que, desde que o Coritiba entrou em declínio a partir da surpreendente perda da Copa do Brasil, logo depois de um primeiro semestre deslumbrante, tenho procurado ser moderado nos comentários, dando crédito à equipe e comissão técnica – crédito e não imunidade como foi o título de coluna anterior. Sempre entendi, e continuo entendendo, que a equipe tem potencial, que não há como algum jogador que fez apresentações de gala até um ou dois meses de uma hora para a outra desaprenda o que sabe, e o técnico, embora tenha metido os pés pelas mãos quando menos deveria, ainda merece crédito pelo que fez antes.

Marcelo Oliveira E Edson Bastos, embora responsáveis diretos pela perda da Copa do Brasil, foram poupados, por mim e grande parta da torcida, pois confiava que a diretoria que assumiu as rédeas do Coritiba após o terremoto de 06 de dezembro de 2009, estava tomando providências e não era justo começar a cobrar e partir para o caminho fácil da reclamação, do "está tudo errado". Havia que se dar algum tempo para as coisas se arrumarem.

Talvez a direção tenha tomado alguma providência desde então, não sabemos até porque a administração do Coritiba sabiamente não expõe seus problemas internos, mesmo que volta e meia sejamos tomados por desconfiança de que há alguma coisa há mais do que aviões de carreira no ar. Mas se as tomou, a verdade é que até agora foram ineficazes.

Confio no Presidente Vilson por tudo o que já fez e pela sensatez que demonstra e suponho que esteja agindo para que o clube retome o rumo. Mas mesmo assim vou tomar a liberdade de lhe dar uma sugestão: entre no vestiário (ia dizer dê um pontapé na porta do vestiário), tome satisfações e, mesmo com a educação e fidalguia que lhe distingue, dê um murro na mesa! Cobre. Exija explicações e correções. Às vezes temos que agir assim, como eu próprio já agi.

Mostre ao Marcelo Oliveira que foi ele, sim, o maior responsável pela perda da Copa do Brasil e tem um enorme débito a saldar com o clube. Tem tempo para isso, mas não pense que tem todo o tempo do mundo e nem que poderá aguentar por muito tempo se continuarmos a namorar a zona do rebaixamento. Diga a ele que Eltinho não é e nunca foi jogador para um time como o Coritiba (não só pela atuação desastrosa de ontem), no máximo para o Operário de Ponta Grossa ou similar, e que sua insistência com o mesmo só nos prejudicou, assim como ocorreu com “a surpresa do ano”, Marcos Paulo e a alteração tática decorrente. Peça para que pare que se mostrar deslumbrado e respeitar demais os adversários que enfrenta na série A, pois humildade em excesso não leva ninguém a crescer e contamina negativamente o grupo. E se ele disser como certa vez Vanderlei Luxemburgo “não admito que a direção interfira no meu trabalho”, cresça a ênfase e até a voz e lembre que ele está em uma EQUIPE onde ninguém tem autonomia absoluta, todos podem ser questionados e controlados. Se até o Presidente tem que prestar contas ao Conselho Deliberativo e tem suas contas analisadas pela Comissão Fiscal, não será o técnico, funcionário do clube, que não poderá ser aconselhado ou admoestado.

Reúna também os jogadores e pergunte-lhes o que está faltando. Os pagamentos não estão em dia? Perderam o gosto pelo Coritiba? O inverno curitibano está sendo rigoroso? Faça com que expliquem, uns como caíram tanto de produção (Marcos Aurélio, por exemplo), outros o porquê do descomprometimento (Davi) e outros pelo descontrole emocional, aspecto que abordo a seguir. Alguém quer ir embora para outro clube que, como a maioria deles, promete maiores salários, mas não os paga em dia? Ou não será melhor voltar ao que foram no primeiro semestre mostrando ao Brasil e ao Mundo bom futebol que ali adiante poderá gerar contratos milionários?

Por fim, mais um conselho (talvez eu esteja sendo pretensioso em aconselhar quem é reconhecidamente um grande administrador, mas amigos verdadeiros são aqueles que nos dizem as coisas, ainda que delas não gostemos). Institua uma multa para quem levar cartões por reclamação, pois esse fato está sendo muito recorrente. Perdemos Tcheco, que estava dando equilíbrio ao meio campo, por suspensão decorrente de reclamações. Davi ontem deixou o time desfalcado por ter um “chilique” quando recebeu cartão amarelo por falta física. Leandro Donizete seguidamente está suspenso. Já não chegam os desfalques por lesões e ainda temos que suportar as suspensões dos irritadinhos. Estas multas seriam objetivas, ou seja, levou cartão por reclamação, sofre o desconto, menor quando for amarelo, maior quando estes levarem a suspensão ou forem vermelhos. Os valores recolhidos iriam para uma “caixinha”, mas, ao contrário do tanto já se viu em outros clubes, ao final do ano não seriam divididos entre o grupo, mas somente entre aqueles que não receberam punições ou, se isso puder levar a divisões, doados a uma instituição de caridade, preferencialmente de mudos.

Enfim, amigo e líder Vilson, tome as rédeas do futebol – fim único do clube – dome o que tiver que ser domado, seja duro com quem merece e reconhecido quem faz jus a tal. Recomponha o time no caminho que vinha trilhando até a pouco. Depois, sabendo todos que o clube tem mando, volte para a administração superior, e, o que é essencial, enquanto isso não deixe de cuidar da própria saúde, pois você é por demais importante para a tua família, os amigos e o Coritiba.

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Dedico a coluna de hoje ao Manoel Serpa, coritibano da minha geração e que há alguns dias passou por delicado problema de saúde.

Manoel e eu temos um trato. Só morreremos depois que o Coritiba for campeão do mundo. Se for em breve, não nos importará viver menos, pois com o título mundial nada mais poderemos almejar aqui na terra. Se for para demorar que tal sonho se realize, tudo bem também, veremos o Coritiba por mais tempo, mas o importante é que só iremos para o céu com uma faixa de campeão mundial no peito.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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