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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Hora da torcida que nunca abandona

Tenho vários amigos virtuais, com os quais só troquei e-mails ou mensagens via celular, mas isso foi suficiente para que se firmasse amizade sólida entre nós, inclusive aqui nos Coxanautas. Não os conheço pessoalmente, mas pelas ações que tomam, pelo que dizem ou escrevem, muito sei deles e, imagino, sabem de mim. Penso que muitos dos amigos leitores também os têm nestes tempos em que o mundo é uma aldeia global virtual.

A um desses meus amigos devo muito.

Há pouco mais de dois anos ele me tirou de uma das situações mais difíceis pelas quais passei, quando acontecimentos para os quais não concorri, mas que repercutiram em mim, fizeram com que me sentisse sozinho, deprimido, débil e temendo perder tudo o que havia conquistado até então.

Fui injuriado, difamado e caluniado em todo o país e até no exterior. Ninguém me dava crédito e, pior, me puniram com um rigor excessivo, não me deixando frequentar o meu lar por um longo período, tudo por um erro para o qual, repito, não concorri. O episódio me envergonhou, mas só ele, pois no mais minha vida era e é de um passado honrado e glorioso do qual sempre me orgulhei.

Foi então que esse amigo – de cuja existência nem sequer sabia até então - apareceu e estendeu-me sua mão forte. Quase que sozinho, ainda que contando com alguns abnegados, mas que inicialmente só atuaram porque unidos sob sua liderança, disse-me como que: “Deixa comigo”.

Tomou minha causa em suas mãos, tratou minhas feridas, restabeleceu minha saúde, procurou organizar minhas finanças, trouxe-me conquistas, enfim, me devolveu a alegria e o orgulho de ser quem eu sempre fui.

Não o conhecia até o dia em que agradeci virtualmente o que fez por mim, e ainda não nos conhecemos pessoalmente. Trocamos algumas mensagens eletrônicas e nada mais. Ele trabalhando por mim e eu torcendo pelo sucesso dele, pois consequência direta será o meu sucesso.

Pois bem, meu amigo assim agiu mesmo enfrentando grave problema pessoal, parecendo que decidiu tratar dos outros ao mesmo tempo em que trata de si. Dar aos outros, ainda que a milhares e milhares de desconhecidos, o que de melhor tinha em favor do bem comum. Claro que sem descurar do seu problema, afinal antes de tudo é um ser humano e tem uma família a cercá-lo e que talvez até o queira só para ela.

Atitude que só os grandes homens podem ter. Os pequenos, ou melhor dizendo o comum dos homens (quantos não seríamos assim, não sei se eu também não) quando um grave problema os assola tratam de se entregar à depressão, esperando que todos manifestem piedade e ajam por ele, ou que um milagre mude tudo. Se lutam, é por si próprio.

Mas meu amigo, embora não se apequene, embora não leve a público seu problema, ainda que não abandone tudo para pedir compreensão, precisa muito da minha força e a de todos vocês.

Por isso peço a quem tem fé e professa alguma religião, que faça preces ou oferendas, ou o que sua prática religiosa recomendar, tudo em favor dele. A quem não tem fé ou religião, que faça como no verso de Renato Teixeira em “Romaria” imortalizado por Elis Regina: “como não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar”.

Assim, meu – e nosso – amigo sentirá a força de uma nação, aquela que se ufana de que nunca abandona, e encontrará mais forças para superar o difícil momento que enfrenta e estar do nosso lado ou à nossa frente por ainda muito tempo.


Sou sócio, ajudo a construir o meu Coritiba.


Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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