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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

O fator humano. Quem o constituiu?



Os que acompanham minhas colunas sabem que desde que aqui aportei sempre procurei ser otimista, moderado nas situações difíceis, e raramente pessimista ou alarmista (não é recomendável se autojulgar, mas imagino que seja assim). Sempre vi qualidades na administração do clube, na direção técnica e em alguns jogadores, em especial no ano passado. Mas jamais assim agi de modo irrestrito e tampouco ao ponto de tornar alguém imune a críticas. O futebol é dinâmico e quem o comenta tem obrigação de ser leal com os seus princípios. Nem crítico sistemático e nem um fundamentalista cego aos erros.

Pois bem, pela primeira vez desde o reerguimento do clube depois da catástrofe de dezembro de 2009, estou perto de me tornar um pessimista.

É fato confirmadíssimo a esta altura, e isso está se tornando quase uma unanimidade, que nosso time foi muito mal montado para 2012. Erros evidentes foram praticados, apostas arriscadas foram mal feitas. Raros dentre os nossos jogadores poderiam integrar um dos times dentre os dez ou doze maiores clubes que disputam a série A do campeonato brasileiro.

Mas permitam-me ser bondoso, a culpa não é dos maus jogadores. Eles são tecnicamente fracos porque é da essência de cada um a falta de talento. Jogador de futebol pode até ser formado, mas deve ter necessariamente cumplicidade com a bola. Dificilmente – digo até que é quase impossível – você pode tornar um bom jogador atleta que, embora com todas as condições físicas necessárias e treinamento de todos os fundamentos, não tenha afeição com a bola, a chame de “senhora”. A bola é muito suscetível e castiga quem não a trata bem. Quem não nasce para a arte do futebol não tem como praticá-la bem, não adiante forçar.

Então repito o que disse em outra ocasião. A culpa é de quem os indicou, ou de quem os escolheu, ou de quem os aprovou, concorrendo para o resultado quem homologou as contratações. Quem pode ter visto como atleta à altura de um time cujo Presidente diz que deve ser protagonista no futebol brasileiro, e não mero coadjuvante, figuras como Júnior Urso, Robinho, Everton Costa, Roberto, Chico, Eltinho... Vou parar por aqui. Penso que eu e muitos amigos leitores, ainda que conhecedores apenas amadores do futebol jamais recomendariam tais contratações. Então como é que alguém que vive o e do futebol, que sabe do contexto do futebol brasileiro e dos seus campeonatos, traz tais atletas de segunda linha? Não consigo entender.

Infelizmente, com tal quadro é pouca a luz no fim do túnel. Tenho dificuldades em vislumbrar como a equipe poderia progredir com tal material humano. Segundo noticiado, o Coritiba estaria trazendo de volta jogadores que emprestou para equipes das séries B e C, tais como Dirceu e Jeferson. Se for esta a solução que estão engendrando, então não há mesmo o que fazer, senão talvez rezar. A única esperança que ainda tenho é quanto à direção, em especial o Presidente Vilson, do qual e dos seus pares espero que já tenham se convencido de que estamos mal e que algo deve ser feito. Se souberam reerguer o Coritiba do fundo do poço – e bota fundo nisso – em que se encontrava ao final de 2009, é porque têm competência para bem administrar e mudar as coisas ainda em tempo de uma nova catástrofe. Erraram este ano, sem dúvida, mas merecem um voto de confiança que expresso e que espero seja atendido, de modo que consigam ver os erros e corrigir os rumos de clube, recolocando-o na senda vitoriosa para a qual se encaminhava no ano passado.

Espero sinceramente em breve voltar a escrever com outro panorama e outras perspectivas. Ninguém pode ficar satisfeito quando necessita escrever sobre seu clube de coração para dizer que ele está mal. Quero logo voltar a redigir colunas elogiosas, eufóricas e alegres, mas assim somente serão se verdadeiros os fatos que as ampararem. E quero que não mais seja preciso depositar voto de confiança nos dirigentes, procedimento que só se usa em horas difíceis. Quero, isso sim, oportunidade para louvar e parabenizar.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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