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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

O presente de aniversário

Há vários dias vinha se criando uma grande expectativa sobre o “presente” que a direção do Coritiba anunciava que iria dar à sua grande torcida quando dos festejos dos 103 anos do clube.

Já em agosto o colunista Airton Cordeiro soltou um balão de ensaio em sua coluna na Gazeta do Povo, dizendo que nosso Presidente tinha sobre a sua mesa um documento cuja conclusão e assinatura seria um grande presente para a torcida.

A espera tornou-se enorme ansiedade quando o Presidente participou da festa de aniversário de uma torcida organizada e lá, em inflamado discurso, depois de rasgar elogios para o aniversariante – o mesmo que um dia foi banido do Couto Pereira - disse que no dia 12 de outubro o Coritiba iria dar uma lição no rival, mostrando que poderia fazer patrimônio sem usar dinheiro público. Sem ser gigolô do poder público, foi a expressão que usou, apropriada, sem dúvida.

Em razão da empolgação do nosso Presidente, a quem muito prezo e por quem tenho muito respeito, criou-se uma grande expectativa. O Coritiba vai construir um novo e magnífico estádio, através de uma parceira privada, é o que se pensava. Até uma maquete com dois edifícios ao lado foi apresentada por um jornal da capital. Se o discurso era tão candente e a expectativa criada tão grande, não poderá ser somente uma reforma do atual Couto Pereira, pensavam muitos, eu dentre eles.

Muito bem, ganhamos o presente. Trata-se de fechamento do terceiro pavimento da Mauá, com a construção de camarotes e ampliação da capacidade do estádio para mais quatro mil torcedores aproximadamente, ultrapassando a casa dos quarenta mil lugares exigidos para a parte final das Copas continentais.

O projeto dado a público é muito bonito, dá a entender que não somente haverá a ampliação como que todo o estádio será modernizado. É o que mostram os diversos ângulos pelos quais se vê como ficará o Couto Pereira segundo imagens constantes do site oficial do clube e republicadas aqui nos Coxanautas.

Espero que o estádio fique tal e qual consta do projeto – normalmente estes são mais bonitos do que o resultado da obra – e que a afirmação do arquiteto Ricardo Amaral no sentido de que "Esse projeto inicia uma nova fase do Couto Pereira, que passa pelo desenvolvimento de um plano diretor que vai readequar AO LONGO DO TEMPO todo o estádio. Seguimos os padrões exigidos pelos órgãos nacionais e internacionais que, além da segurança, garantem maior conforto, mobilidade e acessibilidade aos torcedores" não signifique – o “ao longo do tempo” - que será uma obra como a Catedral de Barcelona(Para quem não sabe uma das maravilhas arquitetônicas do mundo que foi iniciada em 1883 e até hoje não está concluída embora sempre em obras. A comparação é muito exagerada, reconheço, mas tem o sentido de dar ênfase à preocupação).

Se houve engano na afirmação ou na captação dela e a expressão “ao longo do tempo” significar “em breve”, e se o resultado do projeto for o que está sendo apresentado, tudo bem, ficaremos em nosso terreno histórico, palco de tantas glórias, com um estádio moderno e bonito, mas não dá para negar que um gostinho de “quero mais”, ficou, ao menos para mim.

Mas se isso é o que poderia ser responsavelmente feito, temos que nos dar por satisfeitos, pois sabemos que o Coritiba tem um passivo alto a realizar, oriundo de administrações que, para dizer o mínimo, não foram lá muito responsáveis. Um parêntese: Há alguns anos, antes do clube adequar dívidas através da Timemania, estive no Tribunal Regional Federal da 4º Região, aqui em Porto Alegre, onde desaguam os recursos das Varas Federais de Curitiba e examinei as dezenas de processos a que o Coritiba respondia. Fiquei impressionado com as irresponsabilidades quanto ao não recolhimento de impostos e contribuições sociais ao longo de vários anos.

Então tudo bem, se não gostamos de receber dinheiro público e se não encontramos um empreendedor privado que se dispusesse a construir um novo estádio em parceria ou recebendo em troca o atual Couto Pereira, talvez a melhor solução fosse mesmo um paliativo. Nã se não se pode falar em decepção, de modo algum, mas não dá para negar alguma frustração houve. Pelo menos eu sinto.

Porém, se a direção decidiu com os pés no chão, visando a que o Coritiba possa crescer sem separar o binômio “patrimônio-conquistas no futebol”, está bem. Se o presente for completado com a contratação do Alex ainda neste ano, ótimo. Se a partir de 2013 montarmos um grande time e avançarmos no cenário nacional e quem sabe internacional, o estádio reformado estará de bom tamanho. De nada adiantaria uma casa melhor se quem a ocupar não souber valorizá-la e nela bem viver. Por bem viver, no caso, se entenda conquistas de porte.




Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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