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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

A história de um recorde

Com algum atraso, por motivos pessoais que impediram manifestação anterior, refiro-me à quebra do recorde pelo Coritiba.

Em 1969, quando a maioria dos amigos leitores não era nascida, Pelé perseguia o seu milésimo gol. Nas últimas partidas do Santos, os adversários se desdobravam em campo para não ficarem registrados como o time que sofreu o gol histórico, especialmente os goleiros que não queriam a marca em suas vidas.

Enfim, no dia 19 de novembro daquele ano, em jogo contra o Vasco no Maracanã, Pelé marcou o tão perseguido gol mil através de cobrança de penalti. O Vasco, e especialmente o goleiro argentino Andrada, jogaram suas vidas para não sofrer o gol, o último quase pegando a penalidade e passando a socar o chão em desespero após ver a bola entrar.

Assim, além do Pelé ficaram na história o Vasco e especialmente o Andrada, de quem ninguém certamente se lembraria não fosse aquele fato.

Lembrei desse fato ao assistir ao jogo do Coritiba contra o Caxias e perceber que o time e a torcida adversária se conduziam como se estivessem decidindo a final de um campeonato, tamanho o empenho – às vezes até agressivo, o tal de Pedro Henrique quase chorava quando perdia a bola – daquele e a gritaria e vaias da última. Precisavam o resultado impossível de vencer o Coritiba por cinco gols de diferença mas, mesmo sem esperanças, pois perdiam de um a zero, continuaram a jogar suas vidas até o apito final, pois um empate, ainda que no último minuto, lhes tiraria a pecha de facultar nosso recorde e, ao contrário, lhes daria a glória de o terem impedido.

Rapidamente liguei as coisas entre o milésimo gol do Pelé e nosso feito. Alcançando o Coritiba o recorde, como alcançou, a história o registrará por muitos anos – e talvez nunca seja batido – mas o Caxias, tal como o Vasco e o Andrada, sempre figurará como a equipe que perdeu para o Glorioso na ocasião do alcance. Era o que eles não queriam, não importando se podiam ou não reverter a desvantagem para prosseguir na Copa do Brasil.

Porém, se pode haver algum consolo para os caxienses, devem lembrar que, pela dimensão de sua equipe, talvez esse seja o registro mais perene que terão na sua história. Perder para a atual equipe do Coritiba, enfrentando-a briosamente e sofrendo somente um gol, foi também um feito a comemorar. Assim, quando daqui a alguns anos um filho ou um neto dos atuais caxienses perguntar ao pai ou avô como ocorreu o fato de ficarem registrados na história como a equipe que proporcionou o recorde do Coritiba, eles poderão dizer com orgulho – entre um gole de vinho e um bocado de polenta - que nos enfrentaram com bravura e perderam por apenas um gol e que foi uma glória perder assim para um time de tal envergadura como o Coritiba.

Mas fiquem certos, amigos, de que todos os adversários que enfrentaremos daqui em diante se conduzirão do mesmo modo, visando a evitar a ampliação do recorde. Por isso, que ninguém se desiluda caso um resultado negativo aconteça domingo contra o Cianorte, até porque o efeito “ressaca” poderá atingir aos atletas tal como aconteceu no ano passado no jogo comemorativo contra o Guaratinguetá. Se acontecer, talvez seja bom e pedagógico, pois afinal tirará a tensão dos jogadores e os liberará para encarar o Palmeiras sem a preocupação de ampliar o recorde. Pior será ampliá-lo contra o Cianorte e interrompê-lo contra o time do Felipão.
Agora, chega de recorde e vamos em busca de título(s) nacional(is).


Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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