Anti-Coxa
Formei este convencimento nos tempos em que, até por volta dos anos 1960, havia o denominado “Torneio Início”, competição que em um só dia reunia os clubes que iriam disputar o Campeonato Paranaense – naquela época os times de Curitiba, Paranaguá, Ponta Grossa e Castro – e que jogavam entre si partidas de aproximadamente uns quinze minutos (não lembro exatamente), em uma espécie de apresentação das equipes para o ano. Tal torneio foi reeditado nos anos 1980, mas não teve sucesso, sendo a idéia abandonada.
Recordo muito bem que, naquelas ocasiões, os estádios reuniam torcidas de todos os clubes, que obviamente torciam para os seus, mas quando o Coritiba jogava todos se uniam para torcer contra nós. O fato não deprimia os coritibanos, pelo contrário os fortalecia, pois mostrava que era o Coritiba “o” grande clube e que era necessária a união dos adversários, notadamente o Atlético e o então Ferroviário (aliás, não me canso de dizer, clube muito mais autêntico que o que hoje é sem identidade por resultado de fusões) para nos enfrentar.
Desde então, nas manifestações das torcidas do Paraná e seus antecessores, e principalmente do Atlético, sempre percebi mais alegria quando de nossas derrotas ou desgraças, como a de 2009, do que quando eles alcançavam algumas glórias. Tenho amigos e familiares (felizmente poucos), que são notadamente anti-Coxas muito mais que torcedores dos seus times. Já vi, em transmissões pela televisão, a torcida do rival rubro-negro, em jogos em seu estádio contra outros times, entoar gritos de guerra contra nós como se fôssemos o adversário na partida.
De tudo isso me lembrei ao ler, segunda-feira, a coluna do Augusto Mafuz na Tribuna do Paraná intitulada “Derrota” (quem não pôde ler acesse http://www.parana-online.com.br/colunistas/14/85061/?postagem=DERROTA).
Mafuz, embora não querido da torcida coritibana por razões óbvias, escreve muito bem e é autêntico (melhor colunista que se assume do que enrustido), o que se deve reconhecer ainda que não se concorde com suas idéias. Defende com denodo o seu Atlético e muitas vezes nos incomoda com ironia e mordacidade ímpares, reconheça-se. Mas segunda-feira claramente mostrou que é muito mais anti-Coxa do que atleticano.
A coluna relata o seu sofrimento em ver a excelente campanha do Coritiba e a frustração que sentiu ao se colocar diante da televisão para nos “secar” no jogo contra o Roma, terminando com os olhos “umedecidos”, para não dizer que talvez tenha chorado ao ver que de nada adiantou. Justificando a conduta, refere na abertura do texto que, tal como Nelson Rodrigues, considera que é fundamental não só torcer para um time como torcer contra o outro.
Mas isso até não seria relevante, pois todos nós tratamos de “secar” o rival e a explicação prévia da coluna seria até dispensável pois é normal que seja assim. O que não é normal e impressiona é o tópico final da coluna, onde o Mafuz revela que NÃO assistiu ao jogo do seu time contra o Paranavaí! Como assim, o colunista que é o maior porta-voz do Atlético na imprensa não assiste ao jogo do seu time? Ou seja, pouco importava a ele que o Atlético vencesse, mas sim que o Coritiba perdesse! Certamente ao contrário da explicação que abre a coluna, não torce tanto para o seu time como contra o Coritiba. Mais anti-Coxa do que atleticano, tal são os demais conforme disse antes!
Por isso, não se espantem os amigos Coxanautas quando (quase disse “se” em lugar de “quando”), no dia em que o Coritiba perder – só espero que depois de domingo – Mafuz escreverá uma coluna eufórica e inspirada e na cidade de Curitiba se ouvirão foguetes daqueles que não sabem festejar a própria glória mas se realizam nas derrotas do Glorioso. Logo, porém, ficarão frustrados novamente porque, ao que tudo indica, se nossa conduta administrativa/esportiva continuar no mesmo diapasão, as vitórias voltarão e metas grandiosas serão atingidas.
Certamente é o mesmo sentimento que está embutido em autoridades que recomendam que, caso sejamos campeões no domingo, a taça não seja entregue e não haja comemoração.
Freud, se revivesse e viesse morar em Curitiba, teria um prato cheio para estudar a conduta anti-Coxa de parte da população, que certamente embute sentimentos de inferioridade e frustração. Será que ele explicaria?
Sobre o autor
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Sobre o blog
O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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