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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

A Orquestra



Amigos, postei hoje, às 15,58, uma coluna homenageando o Léo Gago, denominada “Léo Gago, o nosso Demóstenes”, grande atleta da incrível fase que vivemos.
Mas, depois de assistir ao espetáculo propiciado pelo Coritiba contra o Rio Branco, não me contive e rapidamente redigi o texto que segue e peço escusas aos que me entenderem precipitado, mas não me contive. Como a coluna sobre o Léo Gago ficará no blog, os que não tiveram oportunidade de lê-la em razão da rapidez da mudança, poderão fazê-lo depois sem prejuízo.

Vamos ao novo texto.

Na fase que o Coritiba está vivendo, com dezessete vitórias consecutivas e invencibilidade de vinte e dois jogos, com quase três gols por partida, há alguns dias passei a pensar sobre como denominar este momento de nosso glorioso, adjetivando ou substantivando o time. Observei em conversas e muito mais lendo comentários de Coxanautas às colunas, controvérsia sobre se caberia ou não criar um cognome para esta equipe, uns entendendo que nos basta ser o Glorioso e outros sugerindo algumas expressões que não a que escolhi e adiante justifico.

Afinal, por muito menos o Atlético se atribuiu o cognome de “furacão”, fato que mostra que não é de hoje que nosso principal rival vive muito mais de marketing do que de glórias, embora as tenha, menores que as nossas sem dúvida.

Saindo por um atalho antes de chegar ao que quero realmente dizer, vou registrar qual foi a trajetória do Atlético que o levou a adotar o apelido que carrega até hoje.

Na época, 1949, o campeonato paranaense se limitava aos clubes da Capital, e o rival fez a seguinte campanha, com onze vitórias consecutivas no campeonato estadual e, em intervalo entre essas partidas, vitórias sobre o Sete de Setembro e o América, ambos mineiros:

1º Turno
14/05 - Atlético 4 x 2 Água Verde
22/05 - Atlético 4 x 0 Palmeiras
05/06 - Juventus 1 x 5 Atlético
19/06 - Britânia 1 x 5 Atlético
03/07 - Atlético 4 x 2 Ferroviário
07/08 - Coritiba 1 x 5 Atlético
2º Turno
18/09 - Água Verde 3 x 7 Atlético
25/09 - Atlético 4 x 2 Britânia
13/11 - Palmeiras 3 x 4 Atlético
19/11 - Atlético 4 x 0 Juventus
27/11 - Atlético 3 x 2 Coritiba
04/12 - Ferroviário 2 x 0 Atlético

Como se vê, afora o Coritiba e o então Ferroviário (aliás clube com muito mais personalidade e força do que aquele do qual hoje apenas faz parte por fusão) e talvez o América Mineiro, todos os demais adversários não eram fortes. O Britânia foi um grande clube, com vários títulos estaduais, mas só até 1928, e depois se apequenou e em 1949 não era adversário que metesse medo. O Palmeiras, que não deve ser confundido com o de São Paulo, era o Palestra Itália que, por força da Segunda Guerra Mundial e o confronto do Brasil com a Itália, mudou temporariamente de nome, tendo sido campeão paranaense em 1924, 1926 e 1932 e a partir daí se tornou mero coadjuvante. Já o Água Verde, era time de bairro que nunca conquistou nada até a criação do “furacão”, só obtendo um título estadual em 1967. O Juventus, então, era um simpático time de um clube social e nada mais.

Além disso, não havia viagens desgastantes pelo interior do Estado, o intervalo entre os jogos eram de uma semana e não houve uma competição paralela importante como agora ocorre com o Coritiba na Copa do Brasil.

Então, amigos, sem dúvida já somos muito – mas muito mesmo – maiores do que aquele furacão, e penso se o atual time não merece um adjetivo ou um substantivo que fique marcado na história.

Pensei em chamar nosso clube de “Imbatível” ou “Irresistível”, como tem se mostrado, mas seria temerário pois um dia vamos perder (e espero que seja quando “possa” perder) e não dá para prever até quando se manterá invicto. Vendo a média de gols e assistindo o jogo contra o Rio Branco, veio-me à mente denominá-lo de “Insaciável”, pois é um time que, mesmo com o resultado garantido não se contenta, não fica tocando a bola para os lados ou para trás e continua buscando o gol. Mas a expressão me parece que não soa muito bem, não é bonita.

A melhor denominação para o Coritiba de 2010/2011, tendo em conta o fatídico 06 de dezembro de 2009 e suas conseqüências, e a refundação a partir de então, seria a de “Imortal”. Porém, como sabemos o Grêmio incorporou a expressão para si, mesmo que a mereça menos do que nós (para tal baseiam-se apenas no que chamam de “Batalha dos Aflitos”) e não há como usá-la já que não haveria autenticidade na escolha.

Mas que tal – e os amigos que me distinguem com leitura e comentários digam o que pensam ou sugiram outra expressão – denominar este time de “A Orquestra”? Sim, orquestra, uma vez que joga afinadíssimo e todos os instrumentistas, ainda que eventualmente haja alguma pequena desafinação momentânea, o que é natural, obedecem ao regente Marcelo Oliveira e jogam por música como se costuma dizer, fazendo os adversários dançarem ao seu som. A propósito, no jogo contra o Rio Branco e outros vi não só os adversários dançarem, como se sentirem embalados e admirados pela afinação do Coritiba. Às vezes parecia que, no decurso do jogo. iriam tirar caneta e papel debaixo da camiseta e pedir autógrafos aos nossos jogadores.

É verdade que somos O Glorioso já que no Estado ninguém tem tantas glórias como nós. E também verdade que somos o time da Alma Guerreira por tudo o que já passamos e superamos. De forma permanente, não precisamos de outros qualificativos, estes bastam.

Mas para retratar este time e este momento, sem dúvida precisamos de uma expressão que fique registrada na história. Orquestra, pois, foi a denominação que me ocorreu para daqui a alguns anos nos lembrarmos desse time. Se os amigos têm outras inspirações, o debate está aberto.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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