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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

A direção insensível.


Não vou comentar o jogo de ontem, que assisti com um misto de sentimentos de apatia e de indignação. Apatia por sentir previsível o Coritiba que estão nos entregando, do qual nada se espera além do que mostrou ontem. E indignação por ver o meu time e clube do coração, que acompanho há pelo menos seis décadas, cada vez mais apequenado, cada vez mais longe de recuperar os bons tempos que viveu e cada vez mais desconsiderado no contexto do futebol nacional.

Ver aquele amontoado de pseudos jogadores, cuja má qualificação há muito é sabida, e um comando de um técnico que já mostrou o quanto é incapaz, e que ontem só meteu os pés pelas mãos, tira a inspiração de qualquer cronista.

Mas eu disse que não iria falar do jogo e quase ia desbordando e não entrando no tema a que me propus.

Pois amigos, o que quero chamar a atenção hoje é para um sentimento que claramente falta no comando do clube, especialmente ao presidente, que deveria ser o condutor maior das nossas honradas cores, qual seja o da sensibilidade.

Todo ser humano deve ser dotado de sensibilidade, que nada mais é do que a capacidade de perceber as modificações e exigências do meio externo ou interno e de reagir a elas de maneira adequada. Dos homens que comandam qualquer segmento social é exigida boa sensibilidade, consistente na captação do sentimento dos que estão sob o seu comando e daqueles aos quais devem resultados. E com muita intensidade essa característica deve ser exigida de quem comanda um clube de futebol e que é, não mais do que isso, detentor de um mandato outorgado pelos torcedores associados, para os quais deve administrar e prestar contas.

Pois amigos, ao que se vê da inércia, da não exposição pública e da falta de prestação de contas aos torcedores por parte dos dirigentes do nosso clube, sem dúvida a eles têm faltado sensibilidade. Não é possível que, decorridos sete meses da eleição da chapa que prometia o céu para os coritibanos, eles – especialmente o presidente – ignorem que estão administrando mal, não ouçam a voz da torcida (não a conduzível organizada, mas a que verdadeiramente mantém o clube) e tenham conduta soberba em nome de um “projeto” que nunca se vê avançar nem um degrau sequer.

Assumir querendo que o time tivesse sucesso somente com os meninos da categoria de base, ideia irrealizável por evidente, e logo depois tornar a situação pior em razão da contratação de inúmeros jogadores desqualificados, alguns deles nem com condições para teste, e ignorar olimpicamente os erros, em especial quanto ao nome a quem foram entregues as contratações, não é só soberba, é insensibilidade, sentimento muito próprio da maldade. E administrar sempre culpando o passado, como se não o conhecessem quando se ofereceram para gerir o clube, e como se dele não tivessem feito parte ativa, é fugir da responsabilidade e demonstrar que não sabem o que fazer para construir o presente e o futuro.

Seria muito interessante se fosse possível contratar o Ibope para fazer uma pesquisa junto aos associados do Coritiba, perguntando se aprovam o modo como o clube está sendo comandado - resposta previsível e óbvia - para ver se o resultado sensibilizaria os dirigentes. Como não é possível, só nos resta torcer para que o santo padroeiro dos humildes, juntamente com o deus da autocrítica e da deusa da competência interfiram nos desígnios da direção do nosso clube e façam com que mudem os rumos enquanto ainda há tempo de evitar uma catástrofe. Pois nós, humanos torcedores, os dirigentes não ouvem, centrados que estão na própria voz.





Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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