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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

A entrevista e a gangorra.

No final do mês de maio, o presidente Juarez Moraes e Silva e o vice-presidente Glen Stengler concederam entrevista à jornalista Nadja Mauad, onde, dentre outras questões, disseram que esperavam que em dez anos o Coritiba estivesse disputando um título mundial e que ambos não concorreriam à eleição do clube no pleito que se dará no final de 2023.

Naquela ocasião o Coritiba estava em quarto lugar no campeonato, entusiasmando o seu torcedor – eu inclusive – e a palavra do presidente, embora com um ufanismo que não se encaixava, deixou alguns de nós com olhares esperançosos. Afinal, quem não quer ver o seu clube mirando a disputa de um campeonato mundial de clubes?

Mesmo assim eu, que fiquei dentre os que estavam se entusiasmando com o que o time apresentava, não consciente do engano que cometia, naquela ocasião entendi que a fala presidencial referente à próxima eleição do clube fora desastrosa. Não que não seja legítimo o desejo em não permanecer na próxima gestão, mas pela total inoportunidade do anúncio, feito com menos da metade do mandato tendo transcorrido, o que de um lado indicava que os sucessores do Renato Follador não se sentiam bem nos cargos, e de outro levava a despertar as “vivandeiras” que sempre cobiçam voltar à direção, tanto que logo em seguida a torcida organizada – e comandada – fez uma manifestação de apoio ao Rafinha no mesmo momento em que este procurava colocar pedras no caminho da recuperação judicial.

Na sequência, coincidência ou não, o Coritiba começou a decair em campo, tendo alguns empates e se perdendo desde a derrota para o Bragantino, a partir de quando não mais se recuperou, embora uns raros alentos episódicos, e aos poucos chegamos ao quadro que hoje culmina com o clube na zona do rebaixamento com grande probabilidade de voltar à segunda divisão. Difícil pensar em um dia chegar à uma disputa mundial, quando nem próximos da nacional conseguimos ficar.

Enquanto isso, a gangorra que existia há alguns anos, na qual ora nós nos mantínhamos na parte de cima e ora o rival, travou, e enquanto eles nos abanam do alto com conquistas internacionais, nós temos que ficar sentados junto ao chão remoendo “ah, mas fui campeão brasileiro primeiro”, “ah temos mais títulos estaduais” e “ah o nosso estádio foi pago integralmente por nós”. Tudo para esconder um sentimento de inferioridade que não queremos externar e nem admitir.

Que fase! Será que no inverno da vida que já me alcançou um dia ainda voltarei a ver o Coritiba forte do qual aprendi a me orgulhar? Está difícil.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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