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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

A morte da alma.

Quase toda semana é a mesma coisa. O Coritiba joga mal, mais perde e empata do que ganha, e ouvimos o mesmo discurso no sentido de que estão trabalhando, que a sorte nos tem prejudicado, que foi o calor ou o frio, que a defesa está bem e o que falta é o ataque funcionar, que o ataque está bem mas a defesa falhou, que a direção está priorizando o pagamento das dívidas (como se um dia o clube não tivesse tido nenhuma), que o número de sócios adimplentes está diminuindo (por que será?), que o público no estádio tem sido pequeno (qual será a razão?), que...

Aí, os colunistas deste e de outros sítios manifestam a sua inconformidade, enquanto alguns integrantes da imprensa, do rádio e da televisão (estes,poucos, e ainda por cima nenhum deles com força e carisma de modo a merecer respeito perante a diretoria) também apontam as falhas. E ao torcedor do Coritiba, pobre dele, só resta o espaço para comentários nas redes sociais. No estádio, a torcida “não organizada” – a verdadeira e mais fiel - de vez em quando, com dor no coração, uso o recurso da vaia. Mas ao que parece a direção nada vê e nada ouve, continuando a agir como se tudo estivesse no bom caminho.

Faço parte de um “nicho” de torcedores, a esta altura menor dentro da grande torcida do Coritiba, que viveu glórias que não devem ser elencadas a cada momento de crise, pois esse pode mais parecer um modo de mostrar conformismo. Estamos mal há muitos anos, diríamos, mas há muitos e muitos mais anos fomos um clube vitorioso, admirado e respeitado. E daí? Claro que a história nunca se apaga e temos muito que nos orgulhar dela. Mas vamos viver assim? E os que nasceram e se criaram depois daquela cada vez mais distante época? E os que estão começando a viver o futebol agora, vão torcer para esse Coritiba que não dá esperança?

A torcida do Coritiba tem sido espezinhada nos últimos anos, tem sido submetida a muito sofrimento e tem se limitado a se contentar com alguns títulos estaduais – ultimamente nem isso mais – e a “comemorar” a manutenção na primeira divisão do campeonato brasileiro. E nossos líderes administrativos se mostram insensíveis, parecendo a nobreza às vésperas da Revolução Francesa. A torcida não abandona ao clube, mas a contrapartida dos dirigentes tem sido a de levantar o escudo do comprometimento de dívidas, vender a ilusão de um novo estádio, deixar para tentar montar o time em meio ao campeonato, não ter definição sobre o comando técnico e enquanto isso fazer “negócios da China”. Ah, ia esquecendo, e contratar um quase desconhecido, com um currículo quase inexistente, para diretor de futebol, cargo que já pertenceu a tantos coritibanos ilustres e dedicados.

Fisicamente distante, não sei mais o que eu poderia fazer. Tento levar a minha voz e a do torcedor conforme capto aqui e nas redes sociais. Se ela chega à direção do clube e se esta continuará a desconsiderar a voz de parte dos meios de comunicação (neles incluído este sítio) e da torcida, não sei. Pelo menos tento ficar em paz com a minha consciência não usando este espaço para vender ilusões ou esperanças, produtos há muito em falta na torcida do Coritiba. E morrendo a ilusão e a esperança, aos poucos pode morrer a alma do coritibano, o que resultaria na maior dívida já gerada na história do clube.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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