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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Confiança e paciência, muita paciência


Tenho observado a torcida do Coritiba um tanto nervosa com a expectativa para o jogo de amanhã contra o Ceará, especialmente em face dos três últimos resultados insatisfatórios. Tal constatação pode ser vista nos comentários das matérias do site sobre o jogo do último domingo, uma delas com 191 e a outra com 167, números bastante elevados em relação à média das matérias em geral. Aliás, sem querer e nem poder entender por que é assim, sempre fiquei impressionado como é expressivo o número de comentários quando de derrotas ou má fase, em relação aos dos lançados nos períodos de vitórias.

Mas confesso que também estou enfrentando um misto de preocupação/otimismo, sem contar a ansiedade, se é que é possível conviver com sentimentos que parecem conflitantes.

Preocupação não propriamente com a sequência de três jogos sem vitórias. A derrota para o Palmeiras em São Paulo foi resultado normal, ainda mais se considerando que não precisávamos do resultado e eles, pelo contrário, queriam provar para a sua torcida que poderiam se recuperar. O empate contra o Ceará não foi um resultado de todo ruim, ainda que melhor se fosse com gols.

Preocupou-me, sim, a apresentação de domingo, onde vários jogadores estiveram muito abaixo do que já apresentaram, alguns iniciando o jogo como se a vitória devesse vir ao natural e o Coritiba fosse uma equipe muito superior à adversária. Preocupa-me também o fato de que Marcelo Oliveira – que tem muito crédito, frise-se – tenha caído na tentação comum a muitos técnicos, qual seja a de mostrar que é o principal responsável pela boa fase da equipe e por isso tirou da cartola a substituição dos dois alas ao mesmo tempo, acabando com o jogo pelas laterais e tornando a defesa deficiente.

Preocupa-me também, a constatação de que o Ceará não é nenhum time ingênuo, sabe jogar como vi na partida contra o Flamengo no Rio de Janeiro e tem jogadores experientes que não se abatem na adversidade ou por jogar fora de casa. De lembrar também que, por paradoxal que possa parecer, o empate em casa lhe foi favorável pois obtido sem gols de modo que qualquer empate no Couto Pereira será bom para eles pois no mínimo levará aos penaltis. Suponho que tentará amarrar o jogo o quanto for possível, contando fazer gol em uma escapada. É muito provável que o jogo seja daqueles amarrados e catimbados.

Muito bem, registrado um resumo das preocupações, vamos à síntese do sentimento que convive com aquelas, o otimismo.

Primeiro, estou convicto de que uma equipe que jogou um futebol excelente, às vezes muito bom e em outras pelo menos bom em quase todo o ano – aliás, desde o ano passado – não pode de uma hora para a outra esquecer o que sabe. Por isso confio que amanhã voltaremos a ser aquele time que nos empolgou e ao Brasil, merecendo até registro na Fifa. Espero, com convicção, que o resultado do último domingo contra um dos tantos atléticos que existem no Brasil foi um acidente de percurso e o bom caminho será retomado amanhã.


Confio também que a derrota foi daquelas que se diz pedagógica, servirá de lição tanto aos atletas como ao técnico e, se bem trabalhada no vestiário, levará os jogadores a uma autocrítica abandonando eventual “salto alto”, retomando a doação e não temendo jogadas mais viris. Ao técnico, uma reflexão serena deverá levar a ponderar que nada mais tem a provar e não são necessárias pirotecnias na escalação para reconhecermos que é competente e se soma aos tantos responsáveis pela nossa boa fase.

Confio no time, quero confiar e espero com convicção de que amanhã o Coritiba voltará a ser o que foi até há poucos dias e a partir de então enfileirará bons resultados consecutivos, conquistando a Copa do Brasil e embalando no Campeonato Brasileiro.

Enfim, colocadas nos pratos da balança denominada de ansiedade a preocupação e otimismo, este prevalece. É o que quero, que acredito e espero.

E o papel da torcida em tudo isso?

Nossa torcida é espetacular, nunca abandona o time, vem participando ativamente com aumento do número de sócios e se livrou da parcela que torcia para si própria e tantos danos causou à nossa imagem.

Orgulho-me da torcida do Coritiba e vê-la vibrando no estádio para mim é parte do espetáculo tanto quanto o jogo que se desenrola.

Porém, aqui entre amigos que somos, sabemos que por outro lado é uma torcida exigente e principalmente impaciente, e por essa última circunstância segue o meu pedido para os que me distinguem com a leitura, solicitando que o espalhem para os demais torcedores.

Amanhã é muito possível que nos seja exigida paciência, paciência e muita paciência. A tensão de um jogo decisivo poderá levar a que aconteçam alguns erros do nosso time, a que o placar demore a ser aberto em nosso favor e até, queira Deus que não, que nos obriguemos a reverter um placar momentaneamente adverso.

Por isso, paciência, muita paciência, se assim ocorrer. Nada de se revoltar e vaiar, pelo contrário, vamos gritar em apoio desde o primeiro minuto até o final. Se o gol que poderá nos dar a classificação demorar, alcançá-lo ao final, ainda que aos 48 minutos da segunda etapa, feito de bico, de barriga ou de costas, valerá tanto ou mais quanto se feito no começo ou no meio do jogo ou em decorrência de exibição de gala. O que vale, diz o lugar comum, são os três pontos.

Depois, festejar, festejar e aguardar o outro finalista.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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