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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Dizer o quê?


Certamente os torcedores que me acompanham esperavam a minha apreciação sobre mais uma crise que o Coritiba vive - ou mais precisamente a mesma que há muitos anos nos incomoda - agora retratada em mais uma derrota para uma equipe de baixo nível (ou nível igual ao nosso?) e que ainda nada havia conquistado no campeonato.

Mas confesso que estou cansado de escrever quase sempre sobre o mesmo estado de coisas e não sei mais o que dizer. Afirmar que há muito tempo – com alguns intervalos aqui e ali – estamos a subir e descer, não saindo lugar e talvez até retrocedendo? Dizer que o Coritiba é dirigido por homens que são bem intencionados, mas nem por isso têm aptidão para dirigir um clube de futebol? Mostrar que como vem se conduzindo o Coritiba está cada vez mais se apequenando e no vácuo que deixa o rival cresce? Apontar que o clube, por mal dirigido na área específica, não sabe contratar e montou um elenco recheado de veteranos que passam mais tempo curando lesões do que jogando? Mostrar que o discurso com a desculpa da dívida vem de aproximadamente vinte anos e não pode ser justificativa permanente e por si só não pode impedir o clube de crescer? Reclamar de uma direção que, conforme apontei em texto anterior (veja aqui), não se entende sobre qual a qualificação da equipe e o que esperar dela?

Tudo isso em já disse em tantos outros textos. E de que adiantaria repetir, em face da apatia que reina em nosso clube?

Estou cansado, amigos. Tenho 68 anos de idade e acompanho efetivamente ao Coritiba desde os 11 anos – embora aos 8 tenha assistido ao meu primeiro jogo, levado ao então Belfort Duarte por meu pai . Nesses quase 60 anos vi um Coritiba vencedor, com as maiores conquistas do Paraná, e respeitado em todo o Brasil de forma incontestável, pelo menos até 1989 e nos interregnos de 1998, 2003 e 2011. Mas também vivi os tristes momentos dos primeiros anos da década de 1990, ocasionados pelo rebaixamento administrativo em 1989, e ainda as quedas em 2005 e 2009. Pensava que havíamos superado esses momentos de dificuldade quando em 2010 assumiu um presidente de fato que parecia encaminhar o Coritiba para uma refundação, mas logo em seguida, a partir de 2013, voltamos a padecer com más campanhas, perda de títulos estaduais e figuração no campeonato brasileiro buscando apenas nele se manter como se fosse uma conquista. Infelizmente aquela situação de 2010 foi apenas um sopro de esperança que se esvaiu e continuamos a ser um clube em permanente crise administrativa, financeira e técnica.

Eu e todos os que aqui escrevemos procuramos retratar o sentimento da torcida, torcedores que somos antes de cronistas. E a torcida, pelo que mostra neste espaço e nas redes sociais em geral, não aguenta mais tanto sofrimento e tanta ilusão com esperanças que não se confirmam. Estamos todos cansados e desiludidos.

Desse sentimento há o risco de decorrer a diminuição do número de sócios, a perda de público no estádio, a queda da venda de produtos licenciados e a falta de cacife para buscar patrocínio. Aí sim, em um círculo vicioso, a dívida do clube aumentará por falta de receita para equilibrá-la e chegará a hora que só uma recuperação judicial poderá nos salvar de fechar as portas.

Então, em lugar de eu dizer algo sobre a crise, que o digam os nossos dirigentes, não para mim, um modesto colunista, mas à sofrida torcida, razão de ser do Coritiba pelo qual os homens passam e aquela é perene.

Mudar é ato de coragem e é nas crises que os grandes homens se destacam.








Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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