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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Eu errei. Mas o Mafuz está certo.


No dia 19 do mês de julho passado postei coluna intitulada “Um consolo. Pior do que está não fica”. Referia-me à falta de esperança da torcida do Coritiba, que nada de positivo vê e espera da atual direção, e em consequência, do time. E terminei o texto assim: “Pelo menos um consolo. Não fosse o Joinville, como diria o poeta Tiririca, pior do que está não fica”.

Pois amigos, mil desculpas. Ficou pior em menos de um mês. Errei feio.

Há muito só frequentamos o noticiário para ver e ouvir sobre um time que se apresentou(?) contra o Goiás de forma vexatória (não assisti ao jogo, estava no exterior, mas tive a infelicidade de pedir à minha filha para gravar), ou porque a cada momento alguém é mandado embora, ou porque sofre lesões que parecem todas de demorada recuperação, ou porque mais alguém da direção ou da comissão técnica renunciou, ou ainda tendo que ouvir o técnico dizer a cada jogo que o time evoluiu(!!). Notícias positivas no momento passaram a ser as listas de dispensas. Mas se o clube for dispensar a todos os que contratou mal, poucos sobrarão para o time ser escalado. Mais fácil encontrar quem deva ser dispensado do que haver consenso sobre quem deve ficar na equipe. Cada um de nós tem a sua lista.

Ouvi uma gravação com declarações atribuídas ao vice-presidente Macias, na qual ele comenta que o time foi mal montado pelo então vice-presidente Pedroso (que descoberta!) e que a atual direção assumiu tendo o clube um passivo de 220 milhões de reais. Mas não sabiam disso quando disputaram o poder? E não sabiam da falta de dinheiro quando um dirigente e o cabo eleitoral maior (onde anda?) empreenderam uma viagem - cuja necessidade nunca entendi, pobre mortal que sou - sem sucesso para a Turquia? Ou quando o clube investiu dinheiro na campanha de candidato a presidente da FPF, na ingênua suposição de que poderia depois ser beneficiado? (Pelo menos aqui o fato ficou um pouco atenuado com a atitude do presidente Bacellar que assumiu pessoalmente o erro de outros e do próprio bolso – segundo se noticiou –repôs o dinheiro aos vazios cofres do clube).

Atribuir falhas a dirigentes passados é atitude comum na cena dos governantes e políticos em geral. Em lugar de se mostrarem propositivos e trabalhar para reerguer o que encontraram, amparam-se no consolo de que tudo já vinha errado, como se isso justifique que assim continue. No Coritiba a conduta infelizmente é igual como estamos vendo e há muito tempo vemos. É fato certo que a cada gestão a nossa dívida (sim, nossa, minha e sua, amigo leitor) cresce e se não fosse pela recente legislação seria impagável ad infinitum. Mas apoiar-se em justificativa de que as coisas estavam ruins e por isso assim continuarão é para os fracos. Quem assume cargo de direção, em qualquer setor de atividade, se encontrou situação difícil deve expô-la de forma transparente, sem dúvida. Mas daí a usar a “herança” como anteparo para não mudar as coisas, se acomodando e não mudando quando tudo mostra que tudo deve ser mudado, vai uma distância.

O presidente Bacellar é um homem honrado e bem intencionado. Temos ligações familiares e sei um pouco da sua história. Neste quesito coloco a mão no fogo por ele. Mas se isso é muito, ainda é pouco para bem gerir um clube de futebol.

Penso, assim, que a proposta do jornalista Augusto Mafuz em sua coluna do dia 04 deste mês (1), no sentido de que os vice-presidentes que restaram renunciem propiciando ao presidente Bacellar a recomposição da diretoria com nomes mais qualificados, talvez seja a mais acertada para o momento e para se tentar uma salvação que parece muito difícil, mas ainda é possível.

Algo deve mudar. Mas que não seja como propôs Tomasi di Lampedusa em “O Leopardo”: “Algo deve mudar para que tudo continue como está”.


(1) O Coritiba precisa imediatamente de um tratamento de choque. E desta vez não passa pela mudança de treinador ou pela contratação de grandes jogadores. A solução poderia ser simplificada se os dirigentes manifestassem o ideal de servir o clube e o espirito de renuncia. Macias, Griebler e Boulos renunciariam aos cargos, permitindo que Bacellar componha uma diretoria de acordo com o interesse final que é o da torcida, e não politico que é o de poucos.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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