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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Não me iludo mais, presidente.


O genial Tim Maia – que como quase todos os mitos se foi muito cedo – compôs uma bela canção na qual revela a sua desilusão com amores e, ao mesmo tempo em que expõe sua esperança de que as coisas melhorem na sua vida, se acautela e repete o refrão “não me iludo mais”.

Pois estou assim, meus amigos. Acho que não me iludo mais com o nosso Coritiba.

Há muitos anos venho alternando textos entre animadores e pessimistas. O meu time do coração, do qual sou torcedor há aproximadamente sessenta anos, às vezes parece me dar esperanças e logo adiante me traz desânimo e decepções. Assim vem ocorrendo desde o fatídico ano de 1989, quando um gritante erro político-administrativo nos levou ao descenso do qual só nos recuperamos depois de sete anos (se é que já nos recuperamos), passando por uma excelente campanha em 1998, uma boa em 2003 e outra ótima em 2011. Nos outros anos o que fizemos foi subir um degrau e retroceder outro, quando não dois.

Como tenho por filosofia de vida procurar ser positivo e otimista, bastavam dois ou três bons resultados do Coritiba para que eu me animasse e pensasse que “agora vai”. Pois doravante com pouco eu não vou me iludir mais.

Sei que, se ali no dobrar da esquina o Coritiba mudar para melhor – o que acho difícil no momento com alguns integrantes do elenco e com o nosso confuso técnico – talvez eu volte a acreditar ou até a me iludir. Não me chamem, então, de incoerente, pois o que desejo ardentemente mesmo perdendo a ilusão, é que um dia possa voltar a conviver com o Coritiba que eu conheci na infância e com o qual convivi por muito tempo na vida adulta.

Faço um apelo ao presidente do nosso Coritiba. Mude a história do nosso clube, retome a história remota, pense grande, tome as rédeas do comando do futebol ou as entregue a alguém com vivência e competência na área, pois pelo que se vê das últimas contratações que fizemos tudo indica que a área técnica está entregue em mãos incompetentes. Hoje o presidente de um clube de futebol não precisa ser experto no assunto, primordialmente deve ser líder e comandante do grupo, deixando a administração da atividade fim para quem tenha experiência. Parece que nessa esfera temos que mudar muita coisa. Chega de entender que é o azar ou a arbitragem que está nos prejudicando. Chega de dizer que o time “está em formação”. Chega de aceitar passivamente maus resultados. Chega de dizer que o time jogou bem e a vitória não teria vindo “por detalhe”. Basta de lamentar o passado como justificativa para o fracasso atual - o nosso passivo financeiro é antigo e sem dúvida preocupante, mas não podemos tê-lo como desculpa constante. Chega de ver o público diminuir em nossos jogos cada vez mais. Chega da marcante diminuição de um quadro social que já foi superior a 30.000 integrantes. Chega de empurrar com a barriga a vida do clube. Chega de pensar que há esperança quando ela se mostra infundada.

Os últimos presidentes do Coritiba se notabilizaram por um bom início de gestão e pelo fracasso ao final delas.

Mude essa constante, presidente Bacellar, até porque até agora a sua gestão não foi bem sucedida. Seja ousado. Lembre-se de que a sorte ajuda aos audazes. Faça logo uma revolução no clube – bem ponderada, mas sem dúvida ousada - e registre positivamente o seu nome na história. Faça com que os torcedores acreditem e que não se iludam mais.






Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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