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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Novo estádio. FII. Algumas dúvidas.



Retomo o assunto da última coluna a respeito do fundo de investimento imobiliário(FII) previsto para a construção de um novo Couto Pereira, agora lançando algumas dúvidas.

O primeiro ponto em relação ao qual tenho dúvida é quanto à participação do Coritiba como quotista no empreendimento. Segundo relatado pela direção, o Coritiba integralizaria as suas quotas mediante a entrega de imóveis, certamente pelo menos o atual Couto Pereira em razão do vulto do empreendimento, uma vez que somente o valor dos centros de treinamento jamais seria suficiente, de modo a contar então com mais de 50% do fundo. Essa perspectiva aparece também no material que recebi o qual, embora não refira exatamente o percentual, mostra em gráfico espaço maior do que a metade coberto pelas quotas do Coritiba. Tendo isso como certo passo a alguns questionamentos.

As normas relativas aos FII preveem que, em se tratando da entrega de imóvel como meio de integralização de quotas, o valor do mesmo será objeto de avaliação pelo administrador, pelo gestor ou por terceiro independente, e o quotista ofertante, neste caso, não tem possibilidade de voto na assembleia que deliberar sobre tal avaliação. Então pergunto: E se eventualmente a avaliação independente concluir que o atual Couto não valeria pelo menos mais da metade do investimento previsto? Em assim ocorrendo, considerando que o Coritiba comprovadamente não tem dinheiro para completar a integralização, pretende o clube participar mesmo sem ser o quotista majoritário? Ou abandonará o projeto? O clube já fez uma avaliação prévia e está seguro do valor do terreno do Alto da Glória? Caso o valor do atual estádio não alcance aquele mínimo, pretende o clube usar os centros de treinamento, se suficientes, para integralização da quota, então ficando sem patrimônio?

Por outro lado, de acordo com as mesmas normas que disciplinam os FII, a propriedade do imóvel é do administrador do fundo de investimento (propriedade fiduciária). Sendo assim, ainda que com a força da maioria das quotas e dos votos, o Coritiba não será propriamente “dono” do estádio, o que só poderá ocorrer se um dia houver dissolução do fundo, com transferência da propriedade para o clube. Parece-me que, se é verdade que um novo estádio pode abrir perspectivas para a recuperação das finanças do clube e o seu crescimento, não menos é verdade que alcançar esta finalidade demandaria muitos e muitos anos, sendo extremamente difícil que Coritiba possa adquirir o empreendimento. O leitor A. dal Pozzo, em comentário à minha coluna anterior, sustentou que mesmo que o Coritiba venha um dia comprar 100% das quotas a propriedade ainda seria do administrador, mas me parece, salvo melhor juízo, que em assim ocorrendo seria o caso de dissolução do fundo com atribuição da propriedade ao quotista único. Mas sejamos realistas, o Coritiba se tornar dono de todas as quotas é uma hipótese remotíssima.

Outro ponto. A administração dos bens do fundo compete ao gestor (repito, só pode ser entidade autorizada pela CVM, no mais das vezes um banco). Então indago, como se está prevendo a gestão do estádio no tocante ao uso e conveniência e rentabilidade dos eventos, considerando que a CVM diz que a administração cabe “exclusivamente” ao gestor? É certo que, se o Coritiba detiver mais de 50% da participação,e ainda tiver somadas as suas quotas às dos seus associados e torcedores terá voto decisivo nas assembleias, inclusive para destituir o administrador, em havendo fatos relevantes. Mas isso é exceção, não regra. Ou há abertura legal ou normativa para que o quotista majoritário intervenha diretamente na administração independente de assembleia geral. Confesso que pareceu-me que não, mas não fiquei seguro a respeito.

E pelas mesmas razões, em sendo entregue o atual Couto Pereira para integralização da participação do Coritiba, de acordo com as normas referentes aos FII a propriedade fiduciária do nosso atual estádio pertencerá ao administrador, ao qual caberá a gestão do mesmo. Como se dará essa gestão enquanto em construção o novo estádio e em uso o atual? E se a opção for por um dos projetos que preveem a construção no local atual, como se pretende proceder para que o clube sobreviva enquanto se executa a construção?

São as dúvidas que lanço de momento para reflexão e talvez resposta dos amigos leitores, como também para que a direção faça estes esclarecimentos e outros que entender convenientes, se este texto a ela chegar, de modo a dar tranquilidade aos torcedores – o verdadeiro e final alicerce financeiro do clube – no sentido de que se trata de avanço importante cujos passos estão sendo dados com total segurança.

Os projetos estão sob a apreciação do Conselho Deliberativo, que em breve deverá decidir a respeito. Está certamente em boas mãos, tanto pela qualificação dos seus integrantes como pela legitimidade democrática que eles detêm como eleitos que foram pela maioria dos associados. Mas a torcida também deve ser convencida e cooptada. O engajamento dos coritibanos, dirigentes ou não, associados ou não, é fundamental para que o projeto seja acolhido e caminhe para o sucesso. Se não estiver no coração da torcida, o empreendimento poderá dar certo, talvez. Mas se abraçado pelos coritibanos, a força dos nossos torcedores, inclusive na aquisição de quotas (eu o farei) será fator fundamental para certeza de sucesso.

A decisão exige maturação, responsabilidade, coragem e muita transparência.

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Um ponto positivo que se pode extrair das intenções da diretoria do Coritiba quanto a um novo estádio é que da ação em andamento decorre logicamente a conclusão no sentido foi desconsiderada e ignorada, com sobradas razões, uma proposta que o ex-presidente Gionédis lançou logo após a primeira notícia da atual direção anunciando a intenção da construção de novo estádio do Coritiba(veja aqui), sugerindo estádio único na Arena da Baixada, como se futebol não fosse muito mais do que um negócio. Com a nossa história e tradição é inconcebível que se possa pensar em união com o rival para que o nosso futebol passe a acontecer no seu estádio. E digo “união” quase como um eufemismo, pois sabendo da inteligência e argúcia do comandante perene do rival, não tenho dúvida de que ficaríamos muito mais em posição de “submissão” do que de condôminos. E poderia o início do fim do Coritiba. Mas felizmente está afastado o risco.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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