O dia em que morri, o que renasci e o que morri novamente.
Como procurei ser sempre correto, dedicado à família e ajudava a quem precisasse, dentro das minhas possibilidades, fui mandado ao céu, mesmo não tendo sido um homem piedoso.
Em lá chegando e ficando, logo passei a ser considerado por alguns como chato, pois só falava das glórias do Coritiba, dos grandes times nos anos 1950/1980, da soma de títulos estaduais, de vitórias em atletibas, na conquista do Torneio do Povo (menosprezado por quem não conseguiu disputá-lo) e especialmente do título nacional que me levou a morrer.
No céu não é permitido acompanhar o futebol contemporâneo que se desenvolve na terra (uma falha de gestão que qualquer hora vou pedir a Deus que resolva). Então, eu só falava no passado, em Jairo, Abátia, Lela, Zé Roberto, Hidalgo e outros tantos, e nos jogos em que vi um time que era vitorioso ou ao menos sempre respeitado.
Passei, como disse, a ser considerado chato e repetitivo, e um dia os demais “viventes” do céu se reuniram e foram pedir ao Ser Supremo que desse um jeito.
Recebi, então, como castigo ser mandado de volta à Terra por alguns dias, tendo renascido em Curitiba no dia 18 último, véspera do jogo do Coritiba contra o FC Cascavel. Como esse time não era da minha época, procurei me informar e soube que seria um clube de pequeno a mediano, daqueles que, nos anos de glória, o Coritiba aplicava uma goleada mesmo fora de casa (lembrei de 7 x 0 lá em Cianorte). Fui para a frente da TV certo de que veria uma boa exibição, com vitória inconteste do Coritiba. Qual o quê, vocês sabem o que aconteceu.
Quis saber do elenco e fui informado de que contra todas as opiniões têm sido usado um tal de Bianchi, que não temos zagueiro para compor o elenco e que o nosso centroavante conseguiu a façanha de fazer um gol contra. É difícil firmar convicção sobre o time só vendo um jogo, mas o que os meus amigos disseram é que as atuações do time do Coritiba não são melhores do que a contra os cascavelenses.
Quis saber dos últimos anos, mas parei quando fui informado de que no ano passado fomos desclassificados na Copa do Brasil no primeiro jogo, para um time de interior com nome de escola de samba.
Por fim, indaguei quem seriam os atuais dirigentes do Coritiba e me informaram que o clube foi vendido e só um nome eleito pelos associados tem voz na gestão, sabendo então que este quase nada pode fazer e nem fez.
Desesperado, nem quis esperar o jogo desta noite contra o Maringá, quando formaremos o time só com meninos para “poupar” os titulares para o atletiba, como se os três pontos a serem disputados não fossem iguais em um ou outro jogo.
Pedi minha volta ao céu e, em lá chegando, o Senhor me disse “aprendestes que o teu Coritiba, tal como o conhecestes, não existe mais”?
Sobre o autor
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Sobre o blog
O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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