Logo COXAnautas

Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

O rebaixamento do Coritiba em 1989

Finalmente o futebol brasileiro se livrou da triste figura do presidente da CBF Ricardo Teixeira, alçado ao posto em 1989 na sucessão do sogro João Havelange, como se a entidade fosse uma capitania hereditária.

Muito se tem falado e escrito sobre os acertos e desmandos do indigitado, restando como certo que, acossado por investigações e denúncias no Brasil e na Suiça, resolveu se desfazer dos seus bens e se homiziar em Miami. Quase nada há mais a dizer a respeito.

Mas poucos têm se lembrado do mal que praticou contra o Coritiba, cujas consequências talvez perdurem até hoje.

Para os que não sabem ou não lembram – e peço aos amigos que me subsidiem com dados caso dê alguma informação incorreta, pois na época não havia facilidades nos meios de comunicação e daqui do RGS acompanhei tudo apenas pelo rádio – em 1989 ele nos rebaixou, em ação autoritária, injurídica e ditatorial para a série C do Campeonato Brasileiro, tão somente porque buscava o Coritiba igualdade de tratamento no campeonato brasileiro.

Deu-se que na última rodada da primeira fase daquele campeonato – na época com chaves e “mata-mata” - o Coritiba deveria jogar contra o Santos na cidade de Juiz de Fora, eis que fora punido com a perda de um mando de campo (Aqui um parêntese, nossa torcida às vezes é autofágica pois a punição decorreu da invasão do campo de um tresloucado que queria agredir ao goleiro Rafael no jogo contra o Sport, vencido por 2 x 1, e daí todas as consequências).

Previsto o jogo para aquela cidade, e os resultados da rodada interessando a todas as equipes que buscavam a classificação, a CBF, já então arbitrariamente, o marcou para o sábado, deixando o Vasco – que disputava a mesma vaga – enfrentar o Sport no domingo, ou seja, já sabendo qual o resultado que necessitaria conforme fosse o do jogo do dia anterior.

O Coritiba, em decisão que até hoje não é pacífica – eu nunca concordei com ela – conseguiu uma liminar que lhe assegurava o direito de jogar no domingo, e assim não entrou em campo em Juiz de Fora no dia marcado, sendo o Santos declarado vencedor por W.O.

Dois dias depois a CBF conseguiu cassar a liminar e, por ato monocrático do estreante Ricardo Teixeira – nada como uma demonstração de força para marcar território de quem assume um cargo, “se queres ver o poltrão, dá-lhe o bastão”, diz o ditado popular – perdeu cinco pontos e foi suspenso de competições oficiais por um ano, devendo reiniciar sua participação somente em 1991, na série C. Foi dado o recado, que ninguém desafie o rei, e o Coritiba foi o portador.

Assumiu a presidência do Coritiba Jacob Mhel que, com o auxílio de políticos e outras pessoas influentes, conseguiu um acordo com a CBF de modo a não ser suspenso e poder disputar em 1990 a série B.

Como tínhamos um excelente time em 1989 (Oswaldo, Tostão e outros), com chances de disputar o título, pensou-se que sem dúvida em um ano o clube voltaria à elite.

Ledo engano (não quanto à qualidade da equipe, mas quanto ao retorno). Não voltamos em 1990, e em 1991 fizemos uma excelente campanha e disputamos a vaga de acesso contra o Guarani de Campinas. No jogo decisivo, lá em Campinas, interveio o braço da CBF. José Roberto Wrigth anulou um gol legítimo do Chicão e continuamos na série B. Afinal, se voltássemos logo em seguida, o castigo teria sido pequeno.

A partir daí, como na época os clubes se sustentavam quase que exclusivamente da renda dos jogos e das mensalidades dos sócios, vivemos a pior fase da nossa história. Sem dinheiro, desmontamos o time. Sem time, desmotivou-se a torcida. Sem torcida não vinha dinheiro e assim ficamos em um ciclo vicioso. Permanecemos na segunda divisão até o retorno em 1995 e somente voltamos a ser campeões estaduais em 1999.

Enquanto isso, dívidas se acumularam, principalmente as fiscais que até hoje estamos pagando.

Ricardo Teixeira alega ter renunciado por questões de saúde. Se for esta a motivação – não acredito, penso que foi o cerco das denúncias e processos – desejo que a recupere e viva muito ainda. Viva para sentir o que é o vazio da perda do poder Sentir que ninguém mais o bajulará, que a ninguém mais pode atingir e que não privará mais da intimidade de autoridades e nem será convidado para eventos significativos. Para qualquer homem que não sabe que seu poder é apenas delegação da sociedade, é temporário e deve ser exercido democraticamente, a perda deve doer muito. Que fique no ostracismo e na depressão dele consequente, e que para sempre seja considerado “persona non grata” para a torcida do Coritiba.

Reeditei o texto, corrigindo dados equivocados que me foram alertados pelos amigos comentaristas.

Sou sócio, ajudo a construir o meu Coritiba



Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
Ver comentários (1)
Link copiado para a área de transferência