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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

O time não é medíocre


O que mais se tem dito nos últimos dias é que o time do Coritiba é medíocre. Pois penso que não
.
Medíocre tem vários significados nos dicionários, e os primeiros deles são “médio ou mediano”, “o que está entre o bom e o mau”, ou “o que tem pouco talento, pouco merecimento”.

Ora, o nosso time, é uma realidade triste de dizer, nem para médio serve – tanto que está entre os últimos e não no meio da tabela – não tem só pouco talento ou pouco merecimento, na verdade não tem quase nada disso. É muito fraco.

Sei que o sentimento de torcedor, a paixão e a emoção talvez estejam influenciando negativamente esta crônica. Talvez. Mas como afirmar diferente depois de duas apresentações calamitosas, uma contra o Atlético-MG e outra mais desastrosa ainda contra o fraquíssimo time do Joinville? Como pensar de modo diverso ante um time que nos três últimos jogos sofreu oito gols e penosamente marcou um?

Certo, nos momentos de crise (Momentos, eu disse? A crise no Coritiba parece crônica.) é muito fácil apontar erros e culpados. Mas como dizer diferente se o clube e o time só de vez em quando nos dão alguma esperança, que logo adiante se dilui e mostra qual é a nossa realidade? Como não ser realista usando o surrado discurso “sou torcedor, não me entrego, não sou pessimista”? Ora, não sejamos ingênuos e nem “polyannas”. O time é ruim e as perspectivas também.

O que fazer a esta altura? Seguem minhas modestas e concisas sugestões, mais por ser vivido do que por me pretender sabido.

Ney Franco deveria fazer uma autocrítica e admitir que, atrás do seu jeito manso e educado, esconde arrogância e usa de fugas e desculpas inaceitáveis para esconder a verdade sobre os fracassos do time. Estando provado que com muitos dos jogadores utilizados não houve sucesso, principalmente os do meio de campo – time que tem como titulares absolutos Lúcio Flávio e João Paulo não pode se sair bem mesmo – há que tentar com outros, embora eu saiba lá quais. E que não faça mais escalações e nem substituições esdrúxulas como modo de se auto afirmar tentando mostrar o que não tem. Um importante passo para acertar deve ser reconhecer os erros.

O elenco deve ser conscientizado de suas limitações técnicas e procurar compensá-las com vontade e disposição. No jogo contra o Joinville vimos uma marcante apatia, como se fossem os jogadores meros burocratas a cumprir expediente, parecendo que pouco se lhes dava ganhar ou perder. O pênalti cobrado pelo Kleber foi muito bem caracterizado por um leitor aqui no Coxanautas. Correu saltitando como uma bailarina. E, acrescento ao leitor, apanhou o rebote que caiu aos seus pés com a malemolência de um hipopótamo. Sei que só vontade não ganha jogo, mas se a falta de técnica se alia a falta de vontade, aí então é que não se ganha mesmo.

E a propósito da falta de disposição, qual seria a causa? Falha na personalidade dos jogadores, contratos que se encerram ao final do ano de modo a que o atleta pouco esteja se importando com o futuro no clube (Kleber, Marcos Aurélio e Lúcio Flávio, por exemplo)? Costuma-se conjecturar nestas horas que a falta de empenho decorreria atraso nos salários. Nada sei a respeito. Mas vamos admitir que os pagamentos não estivessem em dia por dificuldades financeiras do clube. Indago então: qual o procedimento correto dos empregados do clube? Mostrar indisposição ou indiferença, fazendo com que as dificuldades financeiras persistam e se agravem? Ou, ao contrário de cruzar os braços, se desdobrar para produzir mais e em consequência melhorar as finanças do empregador e permitir que os salários sejam corretamente pagos? A que tenha um mínimo de inteligência a resposta só pode ser a última opção.

Uma derradeira palavra deste modesto cronista também para a direção do clube. O ano está findando e quase nada há a fazer que não seja tentar escapar do rebaixamento com o elenco e comissão técnica que temos. Mas é necessária uma sacudida na equipe e na comissão técnica. A liderança e autoridade do dirigente – a do técnico a esta altura é irrelevante - deve se mostrar nesta hora. Talvez seja o momento de um chute na porta do vestiário. O que menos pode ajudar é se mostrar passivo e tentar justificar fracassos somente em razão de erros de arbitragem.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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