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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Para os que têm memória curta

No sítio www.globesporte.globo.com, edição de hoje, 03 de agosto, na notícia sobre a lesão do Keirrisson estava, ainda que de passagem, uma afirmação do Presidente do Coritiba, Vilson Andrade:" Eu passei por um momento muito difícil na minha vida, eu fui operado na primeira vez com um tumor maligno no intestino. Depois de 14 quimioterapias, eu fiz novos exames e constatei três novos tumores no fígado. Fui a São Paulo, fiz uma cirurgia, tirei os tumores e hoje estou curado. Não tenho mais nada.".

Talvez para outros não, mas para mim é a primeira vez que vejo a notícia da recuperação da saúde do Presidente Vilson com caráter conclusivo, definitivo, ou seja, ele está curado e, como disse na mesma matéria, mesmo na doença "...nunca desisti de acreditar na minha cura. Isso foi um estímulo muito grande para a minha vontade de vencer e continuar com a minha obra aqui no Coritiba".

A notícia é muito boa, seja pela recuperação de um ser humano que ainda tem muito a viver - fosse quem fosse sempre seria uma notícia boa - mas cresce de importância quando se sabe que o Presidente Vilson já estava doente quando resolveu refundar o Coritiba e, mesmo com os possíveis sofrimentos físicos que deve ter tido, sempre se empenhou no nosso reerguimento, que denominei de "refundação", conforme texto adiante transcrito.

Para os que têm memória curta ou que destacam apenas ou mais possíveis erros do que os muito e concretos acertos - o importante é o saldo altamente positivo na relação acerto/erro - e esquecem como estava o Coritiba quando Vilson Andrade o assumiu, vou reproduzir coluna que postei no dia 11 de novembro de 2010, logo após nosso retorno à primeira divisão, na qual pretendi dar a dimensão do trabalho do então Vice-Presidente, e mais uma vez procuro lhe fazer justiça usando as mesmas palavras.

Segue o texto publicado em 11 de novembro de 2010 (não por preguiça de escrever outro, mas porque ele retrata bem o que enfrentamos e sobrepujamos):

"A alegria do retorno do Coritiba à primeira divisão do futebol brasileiro está sendo cantada em prosa e verso por todos os meios de comunicação do país. Alguns, inclusive da terrinha, que não sabem fugir do recalque, dos aspectos negativos e do sensacionalismo, ainda fazem questão de reavivar o fatídico dia 06 de dezembro de 2.009 quando, além de rebaixados para a segunda divisão, fomos levados à execração da mídia e nos tornamos por muito tempo a “Geni” da conhecida música de Chico Buarque.

Aquele dia foi, sem dúvida, o pior de nossa história e na ocasião fui tomado, assim como todos os verdadeiros torcedores – com exceção dos aloprados que nos levaram à maior punição já aplicada pela justiça desportiva do país – a uma grande depressão. O Coritiba parecia ter acabado, chegado ao fundo do poço, a perspectiva era de nos tornarmos equivalentes ao Santa Cruz do Recife, de disputarmos talvez a série C do campeonato brasileiro, de nos desfazermos dos poucos craques que tínhamos, de não poder pagar contas por mínimas que fossem, enfim, o caos. Não eram só cinzas de um incêndio, mas destroços de um devastador terremoto nunca visto antes.

Todavia, para surpresa, incredulidade e até insatisfação de muitos, soubemos nos reeguer, mantivemos os atletas efetivamente comprometidos e com qualidade, encontramos a dignidade e competência do Ney Franco que aceitou se manter no clube, conquistamos o campeonato paranaense com folga e da melhor forma possível vencendo na final o rival cuja torcida tripudiava sobre nossa desgraça e, por fim, voltamos à primeira divisão com antecipação de quatro rodadas ainda que disputássemos a maior parte dos jogos longe de nossa torcida. E foi significativo ver, embora pareça um detalhe, que ante a pequena torcida presente em São Januário os nossos jogadores festejaram tal e qual verdadeiros torcedores, mostrando que finalmente temos um elenco com comprometimento com o clube.

Vamos homenagear a todos, sem exceção – diretoria, comissão técnica, jogadores e torcedores - mas o sentimento de justiça impõe que um nome deva ser destacado, qual seja o do Vice-Presidente Vilson Ribeiro de Andrade (e antes que alguém possa ter por suspeitas minhas considerações, registro que não tenho nenhum relação com o mesmo, a quem nem sequer conheço pessoalmente).

Quando a desgraça era órfã e todos fugiam da responsabilidade, ele tomou nos ombros, por iniciativa própria e com despreendimento, a tarefa de refundar o Coritiba. Sim, amigos, refundar e não apenas reerguer. O Coritiba teve uma história em seus primeiros cem anos, indelevelmente manchada exatamente quando completou o centenário, e passou a ter outra a partir da catástrofe que sofreu. Vilson se mostrou líder competente, carismático e agregador, qualidades que melhor se mostram nas dificuldades, exatamente o perfil que faltava na história do Coritiba desde a primeira era Evangelino. Talvez pontualmente possa ter errado ou talvez vá errar, como acontece com todos os que assumem responsabilidades, não importa. O fundamental é que assumiu a direção – dizem que somente de fato, mas os fatos acabam constituindo o direito – e a plena responsabilidade e a desempenhou com competência. Não será, certamente, um dirigente permanente e um dia deverá ceder o seu lugar como é da essência das relações diretivas e democráticas, mas no momento em que o Coritiba está sendo refundado – insisto no termo – foi e é fundamental e é o grande nome que deve ser reconhecido e homenageado, ainda que suas costas largas possam dividir os méritos com outros.

Se a derrota, como disse antes, é órfã, na vitória aparecem muitos pais. A família coritibana do momento – dirigentes, funcionários, comissão técnica, atletas e trocedores – muito colaborou para nossa refundação, mas sem dúvida a paternidade deve ser atribuída a Vilson Ribeiro de Andrade, o homenageado desta coluna.".

E que fique claro, se é que os amigos já não sabem como sou, que se um dia for necessário apontar um erro grave do Presidente Vilson estarei aqui para fazê-lo. Este é o comportamento que deve haver entre homens leais.

Saúde e sucesso, Presidente.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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