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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Paranaenses genéricos



Li, na coluna do Tiago Recchia na Gazeta do Povo (hoje, 23 de junho), que quando do jogo entre o Coritiba e o São Paulo:

“Os coxas-brancas que tentaram assistir ao jogo contra o São Paulo em algum botequim de Curitiba devem ter tido de rodar muito até encontrar um que não estivesse passando Corinthians x Santos, se é que encontraram.

É que, como a RPC TV transmitiu Coxa x Sampa pra capital e enviou sinais do jogo do Timão x Peixe apenas pro (sic) interior, os bares com canais pagos foram a rota de fuga de corintianos e, em menor número, bem menor, santistas.

Dizem que os corintianos não precisam assinar pay-per-view, assistem aos seus jogos de graça, em canais abertos. Aqui no Paraná, sabemos bem, eles só perdem em número de torcedores na capital, onde Los 3 muchachos mandam.”.

O relato, ainda que certamente seja verdadeiro, me causou forte desconforto, que quero compartilhar com os amigos.

Nosso estado, o Paraná, é um dos mais novos do Brasil – data de 1853 – e foi formado por diversas migrações e imigrações que aqui aportaram. Gaúchos no sudoeste, paulistas e mineiros no norte, estes os mais numericamente representativos dentre outros migrantes que aqui se estabeleceram. Por outro lado, vieram também enriquecer ao Paraná levas de alemães, poloneses, italianos, japoneses, árabes e tantos outros que se juntaram aos de origem lusitana que primeiro chegaram, todos esses e aqueles agora representados já por duas, três ou quatro gerações.

Se todos os naturais de outras plagas devem manter as raízes de suas terras natais, com razão (Ama, com orgulho, a terra em que nasceste! já dizia Olavo Bilac), é certo que lhes cabe também se aculturar na terra que os adotou e que, se ajudaram a crescer, também foi onde progrediram e formaram famílias e descendentes. É normal que todos os não nascidos no Paraná continuem a manter forte e dedicado amor à sua terra natal e, no que aqui nos interessa, continuem a torcer por seus times de futebol de origem. Se quiserem ou não adotar algum segundo clube local, é atitude que cada um define conforme os seus sentimentos.

Eu, embora o propósito não seja o de pretender servir de exemplo para ninguém e nem usar o texto para falar de mim, estou no RGS há mais de trinta anos. Continuo a manter minhas raízes paranaenses – não preciso dizer a quem me conhece e me lê. Mas aqui me realizei pessoal e profissionalmente, tive filho e neto, genro e nora gaúchos. Tenho o RGS como terra adotiva e adequei-me aos usos e costumes locais (até o hino sul-rio-grandense sei cantar em face de tantas solenidades em que compareci). Quanto a esse aspecto, tenho dois corações: um no estado onde nasci e me criei e outro no que me acolheu sem qualquer preconceito ou distinção.

Nem por isso, e o meu perfil ao lado da coluna já assim diz, perdi minha autenticidade e deixei de torcer exclusivamente para o meu Coritiba. E aceito, sem qualquer restrição, que paulistas, gaúchos e mineiros e outros brasileiros radicados no Paraná continuem a torcer exclusivamente pelos clubes dos estados onde nasceram.

Mas não posso aceitar de modo algum - e daí a afirmação ao início da coluna, quanto ao desconforto que me causou o texto do Tiago - que os filhos, netos e bisnetos desses mineiros, gaúchos e paulistas, nascidos no Paraná, paranaenses, portanto (com perdão pela redundância), possam torcer por clubes de fora como a sua primeira paixão. Se são paranaenses, a cultura paranista (atenção, o significado original da expressão nada tem com aquele clube, mas sim com a autenticidade de quem é paranaense) deve ser a primeira em seus corações. Até aceito, para os outros e não para mim, que se possa ter um segundo time em outro estado, mas um segundo. Ser paranaense e torcer exclusiva ou primordialmente por um clube paulista – ou de outros estados - como retratado na coluna aqui comentada, é inaceitável.

Até parece, quero estar errado, que os descendentes dos alemães, poloneses, italianos, ucranianos, japoneses, árabes e tantos outros são mais paranaenses do que aqueles.

Fique claro que minha opinião em nada desmerece aos brasileiros migrantes que para o Paraná vieram (ainda que costume fazer uma brincadeira rimada: Igual a Minas, São Paulo e RGS não há, tantos que muitos lá nascidos vieram para o Paraná). Jamais pensaria em discriminação ou qualquer outro sentimento no mesmo sentido. O Brasil é de todos e, assim como fui acolhido pela generosa terra gaúcha, os paranaenses souberam e sabem acolher os outros brasileiros que para o estado se mudaram. O que repudio, e espero que tenha deixado claro, é quanto aos paranaenses descendentes dos migrantes que, geneticamente filhos do Paraná mas que cultuam primordialmente valores dos estados dos seus pais, avós ou bisavós e não daquele onde nasceram e se criaram.

E a inconformidade e perplexidade se mostram maiores quando leio que o maior órgão de comunicação do Paraná, formador de opinião como são todos, prefere transmitir ao jogo entre paulistas para todo o interior do Estado na mesma ocasião em que o Coritiba derrotava o São Paulo? O que dizer a respeito senão repúdio? Será que os venerandos Francisco da Cunha Pereira, pai e filho, aceitariam tal conduta mercantilista e alienígena? Pelo que conheci dos dois, o primeiro pela atuação jurídica e no magistério superior e o segundo pelos laços de união com meu saudoso pai e pela defesa intransigente que fazia do Paraná em seu jornal, duvido. Duvido, repito.

Vocês, nascidos no Paraná e que torcem exclusiva ou primordialmente por times de outros estados, não são paranaense de marca, são meros genéricos.


Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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