Ponto de equilibrio
Em primeiro lugar, tenho como fator preponderante a técnica, o saber jogar de cada um e de toda a equipe. A vontade, ou a raça como dizem, é muito importante, mas sozinha dificilmente ganha jogo se o time não tiver qualidade. A boa jornada coletiva e individual será imprescindível, ainda que às vezes o destino possa premiar com o lance decisivo algum atleta que não está entre os mais qualificados ou não mantém a melhor jornada (exemplo? Adriano Guabiru dando o título mundial para o Internacional).
Depois, a correta formulação tática, prática na qual Marcelo Oliveira tem se distinguido, equilibrando o jogo produzido pela equipe com a exploração das deficiências do adversário, uma vez que talvez seja jogo a ser decidido em detalhes, entre eles eventual erro, que peço aos céus seja do adversário.
Por outro lado, a condição e conduta emocional dos nossos jogadores é fundamental para um bom resultado. Constituem eles, na soma, um elenco sem dúvida melhor do que o Vasco, e mais ainda seria não fossem as lesões e suspensão que afastam alguns. Mas é muito importante que a técnica e a obediência ao esquema sejam conjugadas com muito controle da emoção. Ou seja, atingir o ponto certo, o ponto de equilíbrio entre o bom futebol e o estado de ânimo de vencedor. Aqui, bem dosada entra o que se convencionou chamar de “raça” e que a moda da crônica denomina como “atitude”. Há que haver perfeito equilíbrio entre a técnica individual e coletiva e a conduta anímica positiva.
A propósito, lembro uma lenda da história política do Paraná que, se não é verdadeira, é muito bem contada. Foram governadores do Paraná Bento Munhoz da Rocha e Ney Braga, respectivamente em 1951/1955 e 1961/1965 (Ney ainda teve um segundo mandato durante o governo militar). Bento e Ney eram cunhados, desmanchando-se o cunhadio com a morte da esposa do último, irmã do primeiro. Por desavenças políticas ficaram inimigos, procuravam não se encontrar e quando acontecia não se falavam. Ocorreu então um fato que nunca se soube se era história ou lenda. Conta-se que certa vez Bento trafegava em seu carro com motorista e por acaso foram obrigados a passar em frente à casa de Ney. O motorista teria perguntado sobre como deveria se conduzir, ao que Bento teria respondido: “Passe não tão rápido que pareça medo e nem tão devagar que pareça provocação”.
É esse o ponto de equilíbrio que o Coritiba deve manter quarta-feira. Procurar controlar o jogo não de forma excessivamente cuidadosa que possa aparentar medo e entusiasmar o adversário a crescer, mas também não de modo tão afoito que leve à ansiedade e ao erro.
Equilibrar as ações, fazer os dois gols a mais de que necessitamos e saber levar a partida até o final sem que um erro ou desatenção permita o gol do adversário, o que seria desastroso, e tampouco procurar “administrar” o resultado atuando só defensivamente. E se fizer um gol e o segundo se mostrar difícil, não se desesperar. Ganhar com dois gols de diferença será a glória certa, mas se for para ganhar apenas de um a zero não será o fim do mundo. Baixará então nos jogadores atuais o espírito da equipe de 1985 (Evangelino e Ênio Andrade lá do céu estarão conosco) e nas penalidades levantaremos o título, embora essa hipótese possa levar eu e muitos ao cardiologista.
Finalizo reiterando o conselho – dou conselho não por mais sabido, mas apenas por mais vivido – que dei quando do jogo contra o Ceará. O papel da torcida também será fundamental. Deverá se comportar como tem sido nesse período exuberante que vivemos, vibrando e empurrando o time, mas sempre mantendo paciência, muita paciência se o gol demorar a sair ou o placar acidentalmente se mostrar adverso. A vaia, a não ser para o adversário ou o árbitro, está proibida. Repito o que disse naquela coluna: fazer os dois gols ao início ou nos últimos minutos do jogo terá o mesmo efeito, apenas o sofrimento será maior, mas isso não importará depois.
E assim vamos com futebol, corações e mentes, confiantes no nosso Coritiba e convictos de que a conquista será o marco mais forte da nossa refundação iniciada a partir do ano passado.
Sobre o autor
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Sobre o blog
O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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