Benção ou maldição?
Como ter esperanças, se o passar do tempo traz apenas mais desilusões, resultados da repetição infinita de erros fatais?
No caso do Coritiba não é verdade que só se morre uma vez, pois morremos todos os dias. Morremos quando nos enganamos e nos permitimos ter esperanças. Morremos quando cegos e mentirosos falam em disputar qualquer campeonato na parte de cima da tabela e nos dão uma eterna briga contra a degola. Morremos quando somos o único time que não precisa ter um treinador, que efetiva um interino inexperiente, que só toma alguma atitude quando a vaca já está com as três patas no brejo.
Nosso mal, digo há tempos, é termos nos acostumado à mediocridade. Ao comemorar a permanência na primeira divisão, ao acostumar-se a nunca vencer fora de casa, ao aplaudir um time goleado pelo rival (em casa, em uma decisão), ao festejar um empate, no Couto Pereira, contra quem quer que seja (desde um Palmeiras até um Botafogo), ao acreditar que um cara que nunca treinou um time vai aprender a fazer isso sob pressão, ao sonharmos, enfim, que não há mal que dure para sempre, vamos deixando os dias passarem sem perceber que o Coritiba apenas caminha para o seu fim.
Ouso dizer que, pro nosso bem, o melhor seria encarar a realidade. Não somos mais um time de primeira divisão nacional. Não conseguimos mais concorrer ao título nem do campeonato estadual (nos acostumamos a levar goleadas nas decisões). Não somos mais respeitados por ninguém, em lugar algum. Jogar no Couto Pereira não nos traz mais nem a perspectiva de uma vitória. Não almejamos a mais nada, dada a inércia diretiva que dita a nossa rotina de mediocridade.
Talvez o Coritiba devesse ter fechado as suas portas em 1989. Teria a seu favor o discurso da injustiça e a lembrança de uma conquista grandiosa recente (àquela época). Deixaria a todos nós a lembrança de ter tido ao menos um presidente competente, que formava times que respeitavam a nossa camisa e que nos deu um título único, que jamais será repetido. Teria deixado torcedores andando de cabeça erguida, com orgulho no olhar e com grandeza na mente, coisa impossível de acontecer hoje em dia.
Mas não. Infelizmente, o Coritiba insiste em sobreviver, talvez sabedor que nunca deixaremos de amá-lo, esteja ele onde e como estiver. Mesmo que isso nos custe nossa autoestima, nosso orgulho e, o pior de tudo, nossa felicidade. Pelo Coritiba aceitamos tudo, nem que seja à custa da nossa capacidade de discernir o bom do ruim, nem que isso implique em aceitar passivamente humilhações eternas. E tudo isso é muito, muito triste.
Sempre tive comigo que ser Coxa Branca era uma benção. Teria sido isso apenas a voz do meu coração?
"Os que morrem na mediocridade provocam mais alívio que saudade." (Artur da Távola)
Sobre o autor
Marcus Vinicius Fonseca Popini foi ao Estádio Belfort Duarte, hoje major Antonio Couto Pereira, pela primeira vez, em 1975, aos nove anos de idade. Coxa Branca de nascimento, pai de duas filhas, geólogo pela UFPR com mestrado em Geofísica pela UFBA, participante do site COXAnautas desde 2006, Popini hoje corre o mundo por conta de sua profissão, sempre levando as cores do Coritiba por onde passa.
Sobre o blog
Um blog é, em essência, um tipo de mídia onde pessoas expressam suas opiniões. Este blog, em particular, não tem outra intenção que não seja discutir as coisas relacionadas ao Coritiba, sem existir qualquer pretensão de que os posts aqui colocados sejam a visão única e definitiva das coisas. Trata-se, pois, de um espaço para debates, onde as opiniões colocadas de forma respeitosa sempre serão levadas em consideração.
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