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Falando de Bola
Falando de BolaRicardo Honório

Não é fácil

Imagine você sendo técnico do Coritiba e uma dúzia de torcedores atrás do seu banco de reservas, lhe xingando o tempo todo, com o grito de burro, sendo o impropério mais leve que você escuta.

Aí vem aquele mais exaltado e diz:

“Seu merda, seu filho da p*, porque não escalou o time com três atacantes em vez de três volantes”

Como se você entendesse mais de bola do que o cara que respira futebol 24 horas por dia e conhece o seu elenco como a palma da sua mão.

Ou então vem o cronista dar seus palpites e influenciar o torcedor seja positivamente quando negativamente, aquele analista de metro quadrado, que entende tudo de futebol, e que tem certeza que seus “pitacos” são a solução para todos os problemas do time.

Imagine então você sendo um jogador de futebol.

Seu time está em alta, você está fazendo gols? Então você é exaltado, aplaudido, tendo seu nome gritado em coro pelo estádio inteiro.

Mas de repente, a fase não está tão boa, o time não está tão encaixado e os gols não estão saindo.

Aí vem aquele torcedor, o “Aderbal”, aquele que entende tudo de bola, que vive o dia a dia do clube, que é o melhor jogador do mundo nas suas peladas de final de semana e começa a gritar:

“ Filho da p*, seu merda, joga direito, não pode perder um gol destes. Parece um cone dentro de campo, não se movimenta, não pede uma bola, não sabe chutar no gol. Seu vagabundo, não está se esforçando. Não tem vaga nem no meu time do final de semana “

E o jogador dentro de campo, escutando tudo. Ao mesmo tempo em que está disputando a partida, tendo que pensar no filho que está doente em casa, na discussão que teve com a esposa dois dias antes da partida, do pai ou da mãe que está internado no hospital, das contas que estão vencendo em razão do salário estar atrasado, ou da saudade dos familiares que estão à milhas de kilometros de distância.

E ainda tem o cronista, colocando ainda mais pilha na cabeça do torcedor, dando adjetivos pejorativos para o atleta, como “mão-de-pau”, “cone”, etc.

Imagine agora você sendo presidente do clube.

Você exerce um cargo não remunerado, deixa seus afazeres, sua empresa, sua esposa, seus filhos, para cuidar do seu clube como se fosse seu.

O time tem uma partida decisiva na semana, mas os salários estão atrasados e você precisa correr atrás de algum investidor para que os jogadores fiquem motivados e entrem com tudo nesta decisão.

Mas antes disso você precisa ir ao hospital, para fazer um tratamento, pois está com um grave problema de saúde que lhe faz necessitar periodicamente de cuidados médicos.

Aí vem aquele torcedor novamente e começa:

“Presidente de merda, não sabe nada, não entende de bola, volta pra casa, vai cuidar da sua família, seu ladrão, seu fracassado.”

Acaba o jogo, o presidente ouve tudo aquilo quieto sem poder falar nada. Sim, pois para o torcedor ele pode xingar o quanto quiser, mas “Deus o livre” se o presidente devolver os xingamentos. Aí sim será o final do mundo para o torcedor.

O presidente volta cabisbaixo para casa, sabendo que no dia seguinte terá salários para pagar, crise interna pra resolver, técnico para demitir, mas acima de tudo sua saúde para cuidar.

E ainda tem o cronista, aquele mesmo que acha que tem a solução para todos os problema do seu time, tanto dentro quanto fora de campo, que diz que se o time está mal, o negócio é trocar treinador ou contratar jogadores, sem saber como estão as finanças do clube.

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Agora imagine você torcedor voltando a sua vida real como um trabalhador comum chegando para trabalhar após uma péssima semana.

Faltou dinheiro em casa, seus filhos vão mal na escola, está desconfiado que sua mulher anda lhe traindo, está com algum familiar internado no hospital.

Aí imagine seu chefe, aquele que não entende nada do que você está fazendo, chegando para você e diz:

“Aderbal seu merda, seu filho da p*. Não faz nada direito. Eu já lhe disse mil vezes que você faz tudo errado. Porque não pede pra sair e vai pra casa cuidar da sua família, que nem isso você deve fazer direito.”

Será que o Aderbal conseguiria trabalhar tranquilamente nos próximos dias com a pressão do seu chefe, logo aquele que acha que sabe tudo, mas na verdade é um leigo em se tratando da especialidade do Aderbal?

Será que Aderbal conseguiria dar pulos de alegria com o chefe, aquele mesmo que tanto o xingou, após resultados positivos na empresa?

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É, a vida das pessoas que trabalham com futebol não é fácil. Mas pensando bem a nossa vida não é fácil. A diferença é que eles são melhores remunerados. Mas mereceram, lutaram para isso. Nasceram com o dom de jogar bola, de trazer várias emoções ao torcedor, como alegria, tristeza, frustração.

Mas a vida fica muito mais difícil quando estamos sob pressão. Nunca rendemos o que sabemos quando estamos pressionados.

Precisamos estar bem, não só fisicamente, mas principalmente mentalmente para podermos desenvolver o nosso melhor.

E será que um jogador, um treinador ou até mesmo um presidente irão conseguir fazer o seu melhor sendo xingados o tempo inteiro?

Ou então, renderiam melhor se recebessem o apoio do seu torcedor, aquele para qual o jogador, o técnico e o presidente estão desenvolvendo o seu trabalho?

Será que nós, pobres mortais, faríamos melhor do que aqueles que estão lá dentro do campo nos representando?

Ou então, fazer o nosso melhor é apoiando, cantando, torcendo e se associando, dando condições para que todos possam fazer um bom trabalho?

Nas condições atuais se existisse uma cartilha com direitos e deveres no futebol, ficaria evidenciado na visão do torcedor, que ele só tem direitos, enquanto os profissionais só se dão ao direito do dever.

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Interessante seria se usássemos contra os nossos políticos corruptos a mesma energia que gastamos para bradar contra presidentes de clubes, técnicos e jogadores de futebol. A diferença é que o futebol é apenas um esporte, onde as vezes se ganha, em outras se perde. Já a corrupção interfere diretamente em nossas vidas, pois os desvios de recursos públicos impedem que nossas crianças tenham mais escolas, mais creches, mais saúde, mais segurança.

Enquanto nos preocupamos em mostrar nossa revolta nos jogos de futebol, os corruptos estão aí, agindo livremente embaixo de nossos olhos e sob a nossa passividade.



Saudações Alviverdes
Ricardo Honório

Sobre o autor

Ricardo Honório
Ricardo Alexandre Honório Alves, mais conhecido como Ricardo Honório, funcionário público federal. Coxa-Branca desde 1975, tem como maior ídolo o craque Tostão, maior jogador que viu jogar com a camisa Coxa. Louco por futebol desde criança, tinha como hobby colecionar figurinhas e a Revista Placar, além da leitura diária de jornais esportivos. Com isso desenvolveu o gosto por acompanhar tudo que envolvia futebol e não apenas o Coritiba, o que o tornou Colunista do COXAnautas desde 2005, convidado pelo amigo Luiz Betenheuser, sendo o responsável pelas informações não só do Coritiba, como principalmente dos adversários do Verdão.

Sobre o blog

O Blog "Falando de Bola" é comandado pelo estudioso do futebol Ricardo Honório e visa abordar tudo que envolve o mundo da bola, focando, claro, no Coritiba. Adversários, tendências do futebol atual, táticas, mercado da bola, futebol internacional e tudo que estiver ligado ao tema você encontrará nesse espaço, que tem o objetivo de ser uma verdadeira "arquibancada virtual", onde o assunto é sempre ela: a bola.
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