
ESTATÍSTICAS
Por Alysson Ramos Artuso - COXAnautas
O atacante Deivid está longe de ser unanimidade no Coritiba. Alguns o acusam de sair de mais da área, de não se dedicar o suficiente e de fazer poucos gols. Outros o têm como um dos pilares do time, com sua ausência nas últimas partidas sendo uma das explicações para a queda de rendimento da equipe.
Aparentemente, tentar responder se Deivid fez falta ou não parece ser meramente especulativo, faz parte da conversa dos torcedores, mas sem que ninguém pudesse garantir qual lado tem razão. Mas a ciência alcançou níveis avançados de sofistificação e, com acesso a dados (vivemos a era do Big Data), pode ajudar a responder muitas perguntas que parecem não ter respostas. Avaliar qual seria o impacto do Deivid em campo é uma delas.
Para pessoas externas ao futebol não há muitos dados detalhados disponíveis, mas é possível analisar ainda que superficialmente, a questão do atacante. Os gráficos abaixo mostram o desempenho do Coritiba com e sem o Deivid no campeonato paranaense e na Série A:
Apesar do comportamento aparentemente melhor com o David nas duas competições, isso pode se dar ao acaso ou a variáveis ocultas: a qualidade dos adversários, as ausências de outros jogadores, substituições, esquemas táticos, local do jogo, bola que desvia no morrinho, frango do goleiro, etc.
Uma vantagem da estatística é que ela permite tirar algumas conclusões mesmo com todas essas variáveis e levando em conta o acaso. Claro que é possível refinar a análise, mas a conclusão inicial é que o Coritiba marca mais pontos na Série A com o Deivid em campo do que sem. Melhor, é possível estimar quantos pontos o Coritiba deixou de ganhar porque o Deivid não estava em campo: 8 pontos. Ou seja, poderíamos estar com 36 pontos, mesma pontuação do 2º colocado.
Nessa análise inicial, é possível dizer que perto de 8% da pontuação do Coritiba pode ser explicada pela presença ou não do atacante entre os titulares. Pode parecer pouco, mas representa muita coisa no futebol. Nos campeonatos europeus (não conheço estudo similar no Brasil), o resultado de uma partida é basicamente 50% sorte e 50% qualidade/trabalho/talento/competência. Lá, a influência de um técnico gira em torno de 15% (a propósito, demissões de técnicos não melhoram o desempenho de um time). Para a gente, a influência do Deivid é de 8%.
Esses números, 15% do treinador, 8% da presença do Deivid podem parecer pequenos, uma influência muito marginal, mas o futebol é um esporte de muito equilíbrio e de eventos raros (gols são muito mais raros do que a pontuação de qualquer outro esporte similar – futebol americano, hockey, rugby, handebol, basquete...), de modo que o jogo é decidido pelo marginal. É numa vantagem mínima que se ganha ou se perde uma partida, por isso de usar todas as armas possíveis a favor, incluindo a análise estatística.
Sobre a influência decisiva do Deivid na Série A e não no Paranaense, uma interpretação é que o Coritiba tem um time superior (ou muito superior) a seus adversários no estadual, de forma que a ausência de uma peça importante não chega a comprometer o resultado. No Brasileirão, disputa muito mais acirrada, em que o Alviverde compete contra elencos muito mais caros que o seu, a ausência dele é muito sentida.
Vale lembrar que essa é uma análise superficial, o mesmo poderia ser feito para outros jogadores e para múltiplas ausências, a fim de esclarecer melhor a questão. Mas já se tem um forte indício da necessidade de maior investimento em preparação física e recuperação de atletas, ou de que quer que seja, que esteja provocando a ausência de jogadores. Ano passado o Coritiba foi o recordista do Brasil em ausência de jogadores por causa de lesões. Esse ano a tendência parece ser a mesma.
Para competir com os clubes de maior arrecadação, e com a diferença crescendo a cada ano, o Coritiba precisa inovar. Desenvolver melhores estratégias, investir em melhor prospecção, aplicar modelos matemáticos e estatísticos a seu favor, otimizar a preparação física, a recuperação e a utilização de seus jogadores são algumas ideias iniciais. Claro que é preciso enfrentar muita coisa para inovar, quem assistiu o filme Moneyball ou leu o livro Os números do jogo (Chris Anderson e David Sally) recém-lançado no Brasil, viu exemplos concretos disso. Mas ficaremos cada vez mais para trás se o nosso entendimento de futebol ficar estagnado enquanto o mundo e o esporte estão se transformando em torno dele.
Alysson Ramos Artuso é Físico, Doutor em Métodos Numéricos pela UFPR e colaborador COXAnauta.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)