
ESTATÍSTICAS
Por Alysson Ramos Artuso - COXAnautas
A história é bem conhecida no futebol: uma sequência de maus resultados e troca-se o treinador. “Mais fácil trocar um do que onze”, “precisamos de um fato novo”, “o elenco não quer mais o técnico” são algumas frases muito ouvidas. No caso de Marquinhos Santos, a pouca experiência em clubes profissionais também é um argumento usado contra ele. Mas o quanto mudar de técnico melhora o desempenho de um time? Será que o desempenho de Marquinhos Santos está abaixo de outros treinadores que passaram pelo Coritiba? Ela deveria deixar o clube?
Foram oito* os técnicos que disputaram a Série A no regulamento de pontos corridos pelo Alviverde. Entre eles, quem teve melhor desempenho foi Paulo Bonamigo, que conquistou a vaga para a Libertadores em 2003 com 53% de aproveitamento. E Marquinhos Santos é o segundo melhor, conquistando 49% dos pontos que disputou nos dois últimos anos. Contudo, o aproveitamento de todos os técnicos é muito parecido, como mostra a tabela.
Futebol não é exato – quase nada é – então é claro que não basta ter um técnico com histórico de bom aproveitamento para garantir uma bela campanha. Há os adversários, o próprio elenco, as lesões, a falha do goleiro, a má pontaria do atacante, o morrinho artilheiro, enfim, mil interferências. A vantagem é que é possível trabalhar mesmo com todos esses fatores e extrair muita informação do futebol, assim como é possível no trânsito, na concessão de crédito, no dimensionamento de estoque ou na prospecção de petróleo.
Os números dos treinadores são parecidos, mas podemos avançar. A lógica é parecida com a usada nas pesquisas eleitorais: é feita uma estimativa de votos, mas também há uma margem de erro, que mostra quando acontece um empate técnico ou não. No caso dos treinadores citados do Coritiba, todos estão em empate técnico. Em termos da média de pontos conquistados por partida, não há evidencia alguma que um treinador seja melhor do que outro.
Claro que com mais dados e mais tempo, esses modelos de comparação podem se tornar mais precisos, mas numa primeira abordagem temos que a faixa de pontuação média de cada técnico é a seguinte:
Mas se deve considerar outra coisa também: o desempenho recente. Um time que, por exemplo, fica oito jogos sem vencer possui algum problema? A resposta pode ser dada de uma maneira similar com o que é feito na indústria, nas chamadas cartas de controle. Medindo, por exemplo, o tamanho de algumas peças industriais é possível afirmar se o processo está ou não com problemas. Conquistar apenas oito pontos em 30 disputados (10 partidas) pode ser um equivalente para o futebol, um indicativo que algo está errado. O Coritiba conquistou 8 pontos nas últimas 10. E antes disso já havia perdido em casa para o Vasco.
Não é só o acaso, em termos estatísticos, algo está de fato errado. Então é preciso investigar o quê. No futebol, o culpado típico é o treinador, assim como, durante algum tempo na indústria, foi a mão de obra. Mas será que sempre é culpa do treinador? Será que o elenco, as lesões, a preparação física, interferências externas ou algum outro fator não é o principal causador de resultados ruins? Ou será mesmo que o técnico é sempre o principal culpado?
Os números dos treinadores que já passaram pelo Coritiba indicam que não. Outras pesquisas, embora no contexto europeu, também mostram que a troca de técnico não melhora o desempenho do time, no máximo aumentam o aproveitamento na primeira partida do novo treinador – num efeito provavelmente muito mais ligado à motivação dos atletas do que proveniente do trabalho do novo profissional. Mas também é importante ressaltar que a contribuição do treinador pode ser pequena, mas num esporte decidido pelo marginal, pode ser decisiva.
O baixo rendimento do Coritiba não parece ser fruto apenas de sorte ou azar, algum problema existe. Resta à diretoria e comissão técnica identificarem e resolverem da melhor maneira possível esse problema. Será que é o técnico?
* Foram considerados apenas treinadores que disputaram mais de 10 partidas, foram excluídos Claudio Marques, Antônio Lopes Jr e Márcio Araújo.
Alysson Ramos Artuso é Físico, Doutor em Métodos Numéricos pela UFPR e colaborador COXAnauta.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)