
EXCLUSIVO
Da esquerda para direita: Alfredo - Auxiliar técnico, Anderson Gomes - Assistente de Preparação Física; Raul Osiecki - Fisiologista; Edson Borges - Auxiliar Técnico; René Simoes - Treinador; Marcelo Giacomelli - Prepardor de Goleiros; Denis Iwamura - Assistente de Preparação Física; Glydston - Preparador Físico.
Terminado o Brasileirão 2007, Prof. Dr. Raul Osiecki, fisiologista do Coritiba, escreve aos COXAnautas, contando detalhes de uma competição duríssima, que merecidamente foi conquistada pelos jogadores e comissão técnica do Coxa.
Dr. Raul conta um pouco do que é o gigante Coritiba Foot Ball Club, os bastidores de uma conquista que entrou para a história do Verdão e ficou na memória da torcida. A foto foi tirada na semana que antecedeu ao jogo contra o Santa Cruz, "A Batalha do Arruda".
Confira detalhes dos bastidores de uma conquista, que não foi por acaso. A combinação de Time d'Alma Guerreira, com A torcida que nunca abandona, e é claro, Os Invisíveis, teve resultado.
“NOSSO Campeonato Brasileiro em 2007 – Na ótica dos Bastidores"
A madrugada após o jogo contra o Marília foi quase eterna, não consegui dormir, principalmente por não parar de pensar no que havia acontecido e qual seria a melhor estratégia de ação para a semana que se iniciaria e que seria realmente decisiva, não só o jogo contra o Santa Cruz, mas a nossa postura (Comissão Técnica) perante o grupo.
Passei a noite fazendo reavaliações do trabalho, primeiro para aprender com tudo que tinha acontecido e depois para que em situações idênticas no futuro, pudéssemos aprender e aplicar as duras lições deste Jogo.
Já amanhecendo me conscientizei de que a solução seria, acima de tudo, inicialmente, superar o desânimo, que é natural se instalar após uma derrota, e essa em especial era a do título, e assumir uma postura de muito trabalho, otimismo, pensamento positivo, força, atitude e motivação e que isso fosse tão forte que contagiasse qualquer pessoa que se aproximasse de mim.
Foi o que fiz, no Departamento de Fisiologia seria só otimismo e foi. A partir do primeiro treino da semana que antecedeu o jogo contra o Santa Cruz, de quem eu me aproximava, eu repetia: "Vamos ser Campeões! Vamos ser Campeões!" Meu objetivo era contagiar e eliminar qualquer pensamento ou atitude de desânimo ou descrédito, não deixaria isso nem mesmo aflorar.
Fui percorrendo o CT, desde o porteiro na entrada até todos os membros da comissão técnica, atletas, todos. Era preciso criar uma comoção generalizada. VAMOS SER CAMPEÕES! Era só nisso que pensava, porque o trabalho havia sido feito com muito planejamento, elaborei um macrociclo de treinamento com as propostas das intensidades (%) de todos os dias de treinamentos entre o primeiro jogo (Paulista) e o último jogo (Santa Cruz), que o Glysdston (preparador físico) adotava.
Cuidávamos com especial atenção dos períodos de recuperação (suplementação, em união com a Tânia - nutricionista, e outros como a crioterapia após os treinamentos e jogos). As dificuldades de um campeonato tão longo, as peculiaridades inerentes não só as diferenças de idades dos atletas, mas também das características biológicas individuais, alguns com capacidades de velocidade mais evidentes, outros com capacidades de resistência aeróbia, alguns com dificuldades de aquisição de massa muscular, outros com dificuldades de manutenção do peso corporal, tudo isso era mapeado individualmente, então nesse aspecto estávamos muito tranqüilos, tudo que poderia ter sido feito nós fizemos, dentro do mais alto padrão de controle científico do treinamento desportivo. Mas o futebol é fascinante, porque transcende todos os aspectos da lógica, sabendo disso, me preocupava muito em fazer algo mais naquela semana.
Não me contive, na manhã de domingo fiz um e-mail repassando ao René e à Comissão Técnica, iniciando aquela atitude de acreditar, mas acreditar mesmo, o qual dizia o seguinte:
“Na noite após o jogo, passei muitas horas me perguntando aonde poderia estar o PONTO DE RUPTURA, que pode ter ocorrido na semana que antecedeu nosso jogo contra o Marília.
Talvez minha formação de pesquisador/fisiologista, me faça sempre estar buscando respostas, tenho que ter respostas, tenho que descobrir, eu fico trabalhando isto o tempo todo e fazendo análises para tentar explicar o que aconteceu e o que pode acontecer, talvez pela complexidade que seja o futebol, diferente de todas as outras modalidades esportivas, estas respostas não são tão simples assim, por envolverem situações multidisciplinares: questões técnicas, táticas, físicas, recuperativas, médicas, emocionais e outras (como lesões durante o jogo, erros de arbitragens).
Mas o que eu realmente queria lhe dizer é que:
EU ACREDITO
EU REALMENTE ACREDITO NESTE TÍTULO.
Acredito aqui dentro, no fundo do meu peito, porque só falar não basta, tenho que sentir, tenho que falar, tenho que agir, aí sim EU ACREDITO. Nosso corpo expressa nossos sentimentos, por isso precisamos realmente sentir: repito, EU ACREDITO!
Nesta semana todos temos que estar assim, comissão técnica, atletas, médicos, fisioterapeutas, nutricionista, psicóloga, massagistas, roupeiros, funcionários, TODOS! Não só falar, mas SENTIR, isso cria energia, isso cria força, cria coragem e cria atitude - EU ACREDITO!
René eu acredito, e amanhã, segunda-feira, vou iniciar minha semana como se estivesse vindo de 30 dias de férias, com muita energia, vou trabalhar mais e muito mais esta semana do que jamais trabalhei, porque EU ACREDITO, eu vou irradiar energia positiva, com minha atitude, com meu trabalho, com a minha postura. PORQUE EU ACREDITO!
Li um trecho do livro "Filhos brilhantes, alunos fascinantes", do Augusto Cury e achei sensacional:
"Desejo que você
Não tenha medo da vida, tenha medo de não vivê-la
Não há céu sem tempestades, nem caminhos sem acidentes.
Só é digno do pódio quem usa as derrotas para alcançá-lo
Só é digno da sabedoria quem usa as lágrimas para irrigá-la
Os frágeis usam força, os fortes, a inteligência.
Seja um sonhador, mas una seus sonhos com disciplina;
Pois sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas.
Seja um debatedor de idéias. Lute pelo que você ama"
Outra atitude que me chamou muita atenção e que me fez acreditar ainda mais no nosso Título, foi no último treinamento em Curitiba, antes do jogo contra o Santa Cruz. Na quinta feira, o treinamento foi marcado para às 10h, cheguei no Couto Pereira por volta das 9h e antes de entrar no vestiário, o Caíco me segurou pelo braço e me levou para um canto, abriu sua bolsa e retirou uma filmadora e me disse: “Raul, me faz um favor: grave em sigilo, uma mensagem dos atletas e comissão, dos que não irão viajar, que eu vou fazer uma reunião no meu quarto antes do jogo, só com os atletas e mostrar esse vídeo, e fique tranqüilo, nós vamos trazer esse título. Em toda a minha carreira é a coisa mais importante que eu quero, nós vamos conseguir”.
Isso me chamou muita atenção, porque em 10 anos trabalhando no futebol, nunca havia visto uma atitude destas partindo de um atleta, e pensei: esse grupo realmente está querendo chegar ao título e nós vamos chegar.
O Caíco sempre apresentou esta característica, trabalhou o ano todo orientando os meninos, sempre dando conselhos e passando a sua experiência, segurando as dificuldades e levantando o astral do grupo.
E finalmente a gente GANHOU!!!
Vim no caminhão do aeroporto até o Couto Pereira, vi coisas que nunca, nunca mais vou esquecer. O CORITIBA é muito maior, mas muito maior do que pode supor a nossa imaginação. A imensidão do Amor pelo Coritiba passa por todas as classes sociais, idades, gênero... Vi nos olhos das pessoas, na Av. das Torres, as lágrimas caindo e a sinceridade aflorando e dizendo: "COXA EU TE AMO!"
Não pude me conter, chorei junto com elas, principalmente quando vi minha esposa Ana e meus filhos Leonardo e Filipe, com um sorriso enorme estampado nos lábios, daí chorei mais ainda.
Prof. Dr. Raul Osiecki - Departamento de Fisiologia do Coritiba
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)